Mary Shelley – Frankenstein, ou o Prometeu Moderno

Ana,

Frankenstein sempre foi o meu monstro favorito da literatura — no conceito original de ser mítico, lendário e aterrorizante (o segundo favorito é o Monstro do Pântano do Alan Moore, seguido do Conde Drácula). E, se recorrermos ao livro, veremos que o personagem, apesar de muito pop, é quase que completamente diferente do que conhecemos.

O livro foi publicado quando sua autora, Mary Shelley, tinha apenas 19 anos e é considerado o primeiro livro de ficção científica da história (acho isso o máximo!). Apesar da autora ser tão jovem à época, o livro é permeado de influências e referências como John Milton e seu Paraíso Perdido (livro com o qual o monstro aprende ler, por exemplo — eu li na faculdade e achei difícil HAHA *xora*). Alguns aspectos do personagem enquanto ícone da cultura popular são desconstruídos durante a leitura:

1)  seu nome não é Frankenstein. Esse era o nome da família do seu criador, Victor Frankenstein. Em nenhum momento da obra é dado um nome à criatura — que é chamada assim mesmo, monstro, criatura, infeliz, demônio ou desgraçado.

2) não havia um ajudante de laboratório chamado Igor. Imagino que esse terceiro personagem tenha sido incluído quando passaram a ser feitos filmes sobre o monstro. Victor Frankenstein era um estudante universitário e até mesmo seu laboratório era improvisado, portanto não havia ajudante.

3) ele não era verde. Nem feio (intencionalmente). Blame it on popular culture. Victor procurou as melhores “peças”, por assim dizer, para fazer o seu homem perfeito. Da mesma forma, o monstro ele não era desajeitado, burro nem lento. Ele era uma versão melhorada (embora amarela) e quase graciosa de um ser humano comum

His limbs were in proportion, and I had selected his features as beautiful. Beautiful! Great God! His yellow skin scarcely covered the work of muscles and arteries beneath; his hair was of a lustrous black, and flowing; his teeth of a pearly whiteness; but these luxuriances only formed a more horrid contrast with his watery eyes, that seemed almost of the same colour as the dun-white sockets in which they were set, his shrivelled complexion and straight black lips.

Enquanto há a ideia corrente de que a criatura é praticamente descerebrada, no livro ele é altamente articulado, com um pensamento filosófico e existencialista elevado e fala com sotaque francês (por essa ninguém esperava =P). Há uma minissérie pra TV (Frankenstein, Kevin Connor, US, 2004) que segue bem de perto a história original — vale muito a pena ver — onde Luke Goss interpreta o monstro e, bem, já vi mais feios 😉

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A história é narrada pro Victor à Robert Walton, chefe de uma expedição ao Polo Norte que o encontra quase moribundo num trenó puxado por cães. Robert escreve frequentemente à sua irmã, e é nesse formato que o livro é escrito.

Victor Frankenstein era um estudante de Química e Ciências Naturais que fica obcecado pela ideia que seria possível, sim, gerar vida com o uso da eletricidade — já que ela não seria mais que resultado de impulsos elétricos orgânicos que poderiam ser recriados. Depois que consegue isso, ele se dá conta de que talvez não tenha sido a coisa certa a se fazer e abandona o monstro. Ele cai numa longa doença (o que acontece pelo menos três vezes durante o livro), onde tem pesadelos recorrentes em que é perseguido pelo monstro.

Um dia, já recuperado, ele recebe uma carta de seu pai contando que seu irmão mais novo foi assassinado. Victor já desconfia imediatamente do que possa ter acontecido e volta pra casa.

Nesse meio tempo, o monstro se virou como pode, aprendeu a ler e a falar e se deu conta da sua solidão e da natureza ruim do ser humano

Of what a strange nature is knowledge! It clings to the mind when it has once seized on it like a lichen on the rock. I wished sometimes to shake off all thought and feeling, but I learned that there was but one means to overcome the sensation of pain, and that was death—a state which I feared yet did not understand.

(…)

Increase of knowledge only discovered to me more clearly what a wretched outcast I was.

(…)

no Eve soothed my sorrows nor shared my thoughts; I was alone. I remembered Adam’s supplication to his Creator. But where was mine? He had abandoned me, and in the bitterness of my heart I cursed him.

Ele resolve procurar Victor e pedir que este lhe faça uma esposa, já que seria impossível encontrar amor e companhia junto às pessoas comuns. Victor, that heartless bitch, primeiro ignora o monstro, depois tenta fazer a esposa e, por último, resolve matá-lo. E é aí que ele erra: começa uma caçada louca do monstro aos entes queridos de Victor, que promete vinganda e ódio à raça humana como um todo (“if I cannot inspire love, I will cause fear”).

Tem uma hora em que o próprio Victor se sente cansado demais e pensa em desistir do seu propósito. Daí ele recebe um recado ~sutil~ do monstro na sua janela: Be men, or be more than men. Be steady to your purposes and firm as a rock. (toma)

Em referência à Milton, o monstro vê a si mesmo como um anjo perdido que, uma vez bom e expulso do Paraíso, não vê outra saída que não a vingança e o ódio.

the fallen angel becomes a malignant devil.

(…)

All men hate the wretched; how, then, must I be hated, who am miserable beyond all living things!

(…)

Life, although it may only be an accumulation of anguish, is dear to me, (…) Everywhere I see bliss, from which I alone am irrevocably excluded. I was benevolent and good; misery made me a fiend. Make me happy, and I shall again be virtuous. (…) Believe me, Frankenstein, I was benevolent; my soul glowed with love and humanity.

(…)

For a long time I could not conceive how one man could go forth to murder his fellow, or even why there were laws and governments; but when I heard details of vice and bloodshed, my wonder ceased and I turned away with disgust and loathing.

(…)

the human senses are insurmountable barriers to our union. Yet mine shall not be the submission of abject slavery. I will revenge my injuries.

Como a história começa a ser contada do fim, vemos que Victor não necessariamente se deu bem nessa. Mas, mesmo por ser uma história antiga e popular, o que nos prende não é a estrutura começo – meio – fim, mas o desenrolar da história. O monstro é uma criatura (literalmente) solitária e triste de dar dó, e Victor é o homem por excelência torturado por seu desejo de sabedoria. Eu vejo no monstro um pouco do herói clássico: não há saída ou final feliz. Citando Bob Dylanthere’s life, and life only.

–Anna

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H.G.Wells – The Island of Dr. Moreau

 

Ana,

Por coincidência, assim que terminei de ler A Ilha do Dr. Moreau eu assisti ao filme Tusk, uma comédia de horror (?) onde um marinheiro louco serial-killer transforma pessoas em… morsas.

A coincidência está no fato que ambos tratam de vivissecção, aquela técnica linda de dissecar um animal vivo pra propósitos variados (o mais cruel deles, no teste de cosméticos). Nas obras, a vivissecção é utilizada pra transformar animais em seres humanos (em Wells) e um humano em animal (uma morsa, no caso do filme).

Dr. Moreau é um médico britânico expulso da comunidade científica por seus experimentos cruéis com animais. Ele vive numa ilha com seu ajudante, o médico Montgomery, e muitos “nativos” que se descobre serem resultado dos experimentos de Moreau com animais.

O narrador (Prendick) é um inglês que foi resgatado por Montgomery em alto-mar e levado para a ilha. Enquanto espera um navio que o possa levar pra casa, ele vai tomando conhecimento dos experimentos que são feitos na ilha, bem como de seus habitantes.

Um aspecto que eu achei muito interessante na obra é o fato de Montgomery e Moreau terem criado uma espécie de religião (The Law) para manter o povo da ilha sob controle (tá-dá!). Há uma House of Pain, onde os seres seriam castigados por alguma corrupção à Lei, e a figura dos dois tem um quê de divino e deve ser respeitada. A Lei proíbe, inclusive, que se coma carne, para que os seres (muitos deles combinações entre animais, alguns carnívoros) não desenvolvam interesse pelo gosto de sangue, dentre outros hábitos próximos ao comportamento animal.

“Not to go on all-fours; that is the Law. Are we not Men?

“Not to suck up Drink; that is the Law. Are we not Men?

“Not to eat Fish or Flesh; that is the Law. Are we not Men?

“Not to claw the Bark of Trees; that is the Law. Are we not Men?

“Not to chase other Men; that is the Law. Are we not Men?”

(…)

“‘His is the House of Pain. His is the Hand that makes. His is the Hand that wounds. His is the Hand that heals.'”

Vou deixar essa citação da Lei pra você tirar suas próprias conclusões 😀

-Anna

Nathaniel Hawthorne — Rappaccini’s Daughter

Desafio 2015: Livro de um autor que você nunca tenha lido


Ana,

Desde a faculdade que eu venho ouvindo falarem sobre Nathaniel Hawthorne, mas nunca tinha lido nada dele, sabe-se lá por quê.

Para essa categoria, eu escolhi essa novela depois de ler que Beatrice — a filha de Rappaccini — inspirou ao mesmo tempo duas supervilãs, a personagem Era Venenosa (Poison Ivy, da DC Comics) e a filha de Monica Rappaccini (inspirada no Dr. Rappaccini), Carmila Black (da Marvel) 😀

Giovanni é um universitário italiano que se muda pra Pádua para estudar com um grande amigo de seu pai, o professor Pietro Baglioni. Ele acaba indo morar numa pensão vizinha ao Dr. Rappaccini, um cientista proscrito da comunidade por seus trabalhos um tanto quanto suspeitos com plantas venenosas.

Através da sua janela, Giovanni começa a perceber algo estranho com Beatrice, filha do cientista, que parece imune aos malefícios das plantas. Vale lembrar que o jardim inteiro deles é formado por plantas e ervas venenosas. Um fucking jardim inteiro! Mesmo com receio de algum contato com ela — principalmente depois de perceber que ela não só é imune a veneno como faz morrer flores e insetos ao redor de si —, Giovanni se apaixona e começa a se encontrar no jardim com Beatrice, pra desespero de seu tutor, que tenta afastá-lo dela com medo que Rappaccini possa usar o rapaz pra algum experimento, como desconfiam (com razão) que ele tenha feito com a filha.

No slideshare eu achei uma aula (parece) superinteressante sobre vários aspectos da obra — a relação entre pai e filha, veneno e amor, o aspecto belo e terrível de Beatrice, as várias interpretações para a porta do jardim e do próprio jardim e go on. Acho legal a visita 🙂

–Anna

“—All You Zombies—” — Robert A. Heinlein

Desafio 2015: Livro que tenha sido adaptado para o cinema


Ana,

Eu tava tão empolgada pra voltarmos o blog que assim que li essa novela, já tava pensando na resenha 😀

Meu irmão me sugeriu o filme Predestination (2014), e assim que terminei de assistir, vi que era baseado no conto “—All You Zombies—” (assim com aspas e travessão mesmo #ClariceLispectorFeelings), publicado em 1959. O legal dele é que coube num monte de tag :-B

O conto (que te deixa a semana toda pensando em coisas do tipo “mas, pera. se ele fez isso, não deveria ter acontecido X, e não Y?”, ou chegando a conclusões e exclamando “aaaah! tá!” aleatoriamente e preocupando quem tá em volta :P) é sobre um agente temporal que volta no tempo pra encontrar consigo mesmo mais jovem — e ainda mulher. O enredo aborda a viagem no tempo e uma série de paradoxos que isso envolve, especialmente o conceito intrincadíssimo de paradoxo da predestinação, que pressupõe que o viajante no tempo deve cumprir – conscientemente ou não – um papel crucial num evento que já ocorreu, como um acidente (ou evitando um acidente), salvando a vida de alguém ou até mesmo salvando a própria vida OMG VIAGEM NO TEMPO NÃO É O MÁXIMO? ❤

Mas o paradoxo da predestinação não se atrela somente a casos de viagem no tempo. Ele está presente em textos como Édipo Rei e outros onde há profecias (no ex., que ele mataria o próprio pai e casaria com a própria mãe).

O conto/ novela é curtinho e muito bom de ler. Apesar do título, não é uma história de zumbis #TodasShora. Ele é uma citação de uma citação do próprio personagem ( 😀 ) , lá no finzão do conto.

I know where I came from—but where did all you zombies come from?

O filme também não deixa a desejar e, apesar de não ser o melhor filme de ficcção científica do mundo, é um bom filme de ação (principalmente pra ver como a atriz australiana Sarah Snook ficou parecida com o Leonardo DiCaprio jovem hehehe). Uma outra obra que sempre aparece atrelada ao “—All You Zombies—” é a novela The Man Who Folded Himself, que entrou pra minha amada e infinita to-red.

–Anna

Scott Westerfeld – Uglies

Anna,

Mais um livro do Humble Ebook Bundle! Quando comprei, não prestei a mínima atenção ao Uglies. Nem lembrava que ele estava lá, na verdade! Ao olhar a lista do Goodreads, vi e pensei “ah, ok, vamos logo ler esse livro que já estamos bem atrasadas com tudo isso!”. Uma ótima surpresa me esperava.

Uglies se passa em algum momento do futuro. A vida é dividida em fases: “littlies” (dos 0 aos 12 anos, quando os filhos vivem com os pais); “uglies” (dos 12 aos 16 anos, onde as pessoas vivem em uma espécie de internato); e finalmente, “pretties” (dos 16 anos em diante). Ao completar 16 anos, as pessoas são submetidas a uma brutal cirurgia, que as transforma em seres humanos perfeitamente lindos, prontos para viver uma vida extremamente feliz. É uma sociedade extremamente igualitária, auto-sustentável e harmônica, onde todos são felizes. E lindos. Ótimo, né?

Tally está prestes a completar 16 anos. Seu melhor amigo, Peris, acabou de fazer a cirurgia, por ser 3 meses mais velho, e já está morando em Prettyville. Tally, agora sozinha, mal pode esperar pela cirurgia.

The mansion was full of brand-new pretties – the worst kind, Peris always used to say. They lived like uglies, a hundred or so together in a big dorm. But this dorm didn’t have any rules. Unless the rules were Act Stupid, Have Fun, and Make Noise.

Neste intervalo, Tally conhece Shay – uma ugly diferente, que até hoje não fez o desenho de como quer ser após a cirurgia. Estranho, já que todos fazem isso desde que são littlies! A nova amiga apresenta uma teoria inusitada: os Rusties (a sociedade anterior, que explorou a natureza até o limite e teoricamente havia morrido em guerras contra si mesmos – ou seja, nós) ainda existem. E que talvez não seja tão ruim ser feio a vida inteira. Às vésperas de fazer 16 anos, Shay foge.  É o que posso contar sem muitos spoilers!

It was hard to think of the Rusties as actual people, rather than as just an idiotic, dangerous, and sometimes comic force of history.

A crítica ao culto da beleza é extremamente óbvia, mas por alguma razão não se torna sacal. Após a fuga de Shay, você aprende muito sobre os Rusties, a cirurgia e o segredo da sociedade perfeita. É uma pena que eu não possa comentar mais nada – os trechos que destaquei após a fuga de Shay são tão mais interessantes! ENGOLI o livro em uma tarde e já estou planejando ler os demais. Fiquei um pouco decepcionada, ao final do livro, quando descobri que ainda haveriam mais três – pareceu exagero, ao estilo da divisão do Hobbit em três filmes… veremos.

– Making ourselves feel ugly is not fun.

– We are ugly!

– This whole game is just designed to make us hate ourselves.

– Ana

Isaac Asimov – O fim da eternidade

Ana,

Asimov é um autor que sempre esteve na minha lista de leituras mas que eu nunca parei realmente pra ler até agora, mas com certeza vou ler mais algo dele, além desse O Fim da Eternidade.

Andrew Harlan, o personagem principal, é um Eterno (não um imortal, “Eterno” são os que vivem na Eternidade, uma organização que existe fora do tempo e que controla as várias realidades no nosso mundo). Ele trabalha com mudanças temporais que controlam extremamente a realidade através dos séculos, evitando guerras e até mesmo grandes avanços científicos que possam não ser tão benéficos pra humanidade — como as próprias viagens no tempo (!) — e para tanto se utilizam da viagem no tempo. Durante tais viagens, a presença de um Eterno deve acontecer em lugares e tempos que não comprometam a Realidade e cause qualquer mudança que não seja bem-vinda. Em outros casos, tais mudanças podem até mesmo destruir milhões de vidas.

Na Eternidade não havia Tempo com o sentido comum do Tempo do universo exterior, mas os corpos dos homens ficavam mais velhos, e esta era a medida inevitável de  Tempo, mesmo na ausência de fenômeno físico significativo.

(…)

Ele detinha o destino de milhões na ponta dos dedos, e se alguém devia caminhar solitário por causa disso, podia também caminhar com orgulho.

Não é difícil perceber logo de cara que só existem homens Eternos (Tempistas, Aprendizes, Observadores, Técnicos, Computadores e Especialistas). E eu faço essa observação não por feminismo barato, mas por que é interessante observar como as mulheres são retratadas no romance (todos os destaques são meus):

No Tempo, elas [as mulheres] eram apenas objetos, como paredes e bolas, ancinhos e carrinhos de mão, gatinhos e mitenes. Eram fatos a serem Observados.

(…) A Eternidade sempre estivera consciente da necessidade de compromisso com os desejos humanos, mas as restrições envolvidas na escolha das amantes tornavam o compromisso qualquer coisa que não vago, qualquer coisa que não liberal. E daqueles que tinham sorte suficiente para qualificar-se para tais arranjos, esperava-se, além de decência comum e consideração pela maioria, que fossem muito discretos a respeito. Entre as classes inferiores dos Eternos, particularmente entre a Manutenção, sempre havia rumores de mulheres importadas para as finalidades óbvias.

Menos sensacionais eram as estórias sobre funcionárias Tempistas que todos os Setores engajavam temporariamente para desempenhar as tediosas tarefas de cozinhar, limpar e o serviço pesado.

É interessante observar também a repulsa que Harlan tem por mulheres, ficando completamente desestabilizado na presença de uma.

Ele encontrou a garota num corredor, certo dia, e ficou de lado, de olhos desviados, para deixá-la passar.

Contudo, Harlan acaba visitando um século onde há uma espécie de aristocracia feminina, o século 482.

O século 482 não lhe era confortável. Não era como seu próprio século natal, rigoroso e conformista. Era uma época sem éticas ou princípios, como aqueles que estava acostumado a imaginar. Era hedonista, materialista, mais que um pouco matriarcal. Era a única época na  qual florescia nascimento ectogênico e, no máximo, quarenta por cento de suas mulheres davam à luz eventualmente, simplesmente acrescentando um óvulo fertilizado ao ovário. O casamento era feito e desfeito por mútuo consentimento e não era reconhecido legalmente como qualquer coisa mais do que um acordo pessoal sem força  de ligação. A união visando gravidez era, naturalmente, cuidadosamente diferenciada das funções sociais do casamento e arranjada sobre bases puramente eugênicas.

E é ironicamente — ou não — nesse século que Harlan se envolve com uma Tempista chamada Noÿs e que vai mudar toda a sua percepção de Realidade e Eternidade. Acontecem umas boas reviravoltas no enredo, e o livro vai ficando cada vez mais interessante (no início parecia que ia ser algo super tedioso, mas não!).

Com toda a questão das viagens no tempo, o livro nos mostra alguns paradoxos temporais típicos de tais viagens: o paradoxo da duplicação – quando Harlan quase se encontra consigo mesmo durante uma entrada na Realidade (dá pra super lembrar do De Volta Para o Futuro :P); quando a Eternidade envia Cooper ao passado, para que Cooper crie a Eternidade, para que a Eternidade envie Cooper ao passado (uma coisa meio o ovo e a galinha); e quando Harlan viaja no tempo para destruir a viagem no tempo (de novo De Volta Para o Futuro. Se eu voltar no tempo e matar o meu avô, eu deixo de existir?).

Livro super bom, o enredo que vai se tornando cada vez mais instigante e pela primeira vez na vida eu tive vontade de que um livro tivesse continuação (não gosto de livros em volumes, o único que li completo foi O Senhor dos Anéis) e, pelo que eu li, é considerado por alguns o melhor livro de Asimov! Série Fundação já tá toda no Kindle 😛

–Anna

Fahrenheit 451

Ana,

Eu também percebi que minhas leituras de sci-fi se reduziam a Guia do Mochileiro das Galáxias (o que eu não reclamo, porque É ÉPICO). Mas, por outro lado, li algumas coisas do que vou chamar de “Ficção Científica Apocalíptica”, que são basicamente Admirável Mundo Novo, Watchmen, V for Vendetta, 1984 e todos esses que se passam num futuro sob alguma forma de absolutismo político e caos.

O que é o caso do Fahrenheit 451. Bem, mais ou menos. Nele, os livros são proibidos (porque é mais fácil controlar as pessoas quando elas se sentem felizes e confortáveis, e os livros, muitas vezes, vêm para nos tirar dessa situação) e os bombeiros são profissionais designados para queimá-los (as casas e tudo mais são à prova de fogo, então, não precisamos de um bombeiro para salvar as coisas de incêndios). As pessoas são controladas porque elas simplesmente não se importam. As mídias de massa (TV e rádio) tomaram conta completamente da sociedade e a diversão de todos é acompanhar uma espécie de novela em 3D — e que passa ininterruptamente — em que os telespectadores interagem. As televisões chegam a cobrir paredes inteiras, às vezes até as quatro de um cômodo, e as pessoas vivem fascinadas por ela (a relação das pessoas, aqui, me lembra bem como é a relação das pessoas hoje em dia com os reality shows), tanto que os personagens são chamados de “família”. Os rádios são conchas colocadas dentro dos ouvidos, que passam música o tempo inteiro. Os carros chegam a 500km por hora, e mortes por atropelamentos – numa sociedade onde crianças de 12 podem dirigir e até matam no trânsito – e por armas de fogo são estupidamente comuns. Assim como outdoors de 60m de comprimento. A publicidade, o barulho, as luzes, a velocidade, a eletricidade estão por todos os lados. As pessoas levam suas vidas quase como que num transe, o tempo inteiro.

E elas sabem que os livros são proibidos. E elas sabem o por quê. E elas simplesmente não se importam (repito isso porque, pra mim, foi um choque de realidade quando ele desvenda isso no livro. As coisas não precisam ser escondidas, porque a sociedade simplesmente não está nem aí).

(O enredo é facinho e conhecido, então não contarei por aqui.)

Eu fiquei abismada, pasma, passada ao perceber que estamos caminhando, exatamente, pra uma sociedade assim, onde o lado humano e racional é deixado como que propositalmente de lado, onde os remédios em excesso, a frieza nas relações e uma “maquinificação” da vida levam a um modelo social e de vida completamente assustador.

Me apaixonei pelo livro. Amei alguns personagens (Montag — o protagonista —, Clarisse, Faber), odiei outros profundamente (Beatty, Mildred), me apavorei com a atualidade do que é descrito ali. É um livro que estava há tempos mais ou menos na minha To Read List imaginária e foi o primeiro livro inteiro que eu li depois que comprei o Kindle 🙂 Encontrei uma edição gracinha da editora Globo com uma composição gráfica dilicinha de ler (é, eu sou nojenta).

Como você falou no outro post, meu Kindle não aceitou por nada a conversão do pdf em mobi. Não sei o que aconteceu e, como o arquivo que tem na internê do Fahrenheit é basicamente o mesmo, bati muito a cabeça atrás de links até que fui jênia ¬¬ e comprei o livro na Cultura.

Li que existe uma adaptação pro cinema do diretor francês François Truffaut (o próprio Ray Bradbury fala dela no posfácio), mas li também que ela é chatérrima, então nem me animei a assistir.

Antes dele eu li A Desobediência Civil, do Thoureau, e pretendo loguinho fazer um post.

Fahrenheit recomendadíssimo, sim ou sim? \o/