Gabriel García Márquez – Memória de Minhas Putas Tristes

Ana,

A primeira vez que li Memória de minhas putas tristes foi em 2005, assim que o livro foi lançado aqui no Brasil (lembro disso porque eu nunca tinha comprado um lançamento antes :P). E eu não gostei. Era muito diferente das coisas que eu lia na época, era “novidade” demais pra eu assimilar: putas, um cara querendo uma virgem pra comemorar seus 90 anos… Não rolou.

Eu emprestei o livro pra uma amiga, que ficou anos com ele (sério, uns quatro) — e eu já nem me lembrava mais dele, foi daí que comecei a não emprestar mais livros a torto e a direito — e quando ela me devolveu, resolvi reler. Se eu não me engano, foi o primeiro livro que eu reli depois de adulta. E foi uma leitura super diferente, parecia que eu nunca tinha lido ele antes (e, realmente, eu só lembrava do enredo) e eu já era mega fã do García Márquez, então eu gostei muuuito.

Por falar em enredo, ele se explica já na primeira frase:

No ano de meus noventa  anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem

Para tanto, ele liga para a dona do prostíbulo, sua amiga de décadas. Rosa Cabarcas, a dona, consegue a menina, mas esta está tão nervosa que tem que tomar um calmante pra dormir.Mas a menina não acorda e o velho fica com pena de acordá-la. E assim todas as noites, por quase um ano. Nesse meio tempo, o velho se apaixona pela menina, e pela primeira vez na vida.

Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor.

É tocante acompanhar as transformações na vida do personagem. Ele, um homem que se orgulhava de “nunca ter dormido com uma mulher sem pagar” se vê, no fim da vida, chorando pra um de seus “velhos amores de cama” enquanto conta sua história com a menina (sem nome, que ele chama de Delgadina e Rosa Cabarcas ri, dizendo que parece nome de remédio).

— Faça o que você quiser, mas não perca essa criança —disse. — Não há pior desgraça que morrer sozinho.

(…) De verdade, terminou ela com a alma: não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor.

Re-reli o livro esse mês. Da primeira vez que li, como eu disse, fiquei intrigada com a epígrafe e depois baixei o livro A Casa das Belas Adormecidas.

“Não devia fazer nada de mau gosto, advertiu a mulher da pousada ao ancião Eguchi. Não devia colocar o dedo na boca da mulher adormecida nem tentar nada parecido.”

Yasunari Kawabata, A casa das belas adormecidas

Acho que deveria adotar mais o hábito de reler livros, é sempre uma leitura nova =)

– Anna

Chuck Palaniuk – Clube da Luta [2]

Anna,

depois que você ROUBOU meu livro (:D), resolvi que era hora de ler Clube da Luta. E não me arrependi! Mas fiquei com uma grande dúvida: será que eu teria entendido os primeiros capítulos se não tivesse visto o filme? Ou teria achado o começo nonsense demais e largaria de mão?

Como você comentou na sua resenha, o livro é muito mais denso que o filme, o que é natural. Achei que por ter visto o filme, a leitura seria rápida. Não foi. É pesada, e tive que ir de pouquinho.

Você não é um floco de neve, bonito e único. É a matéria orgânica em decomposição como todo mundo e todos fazemos parte da mesma composteira.

Já calejada da abordagem em relação ao consumismo e tudo o mais (que é ótima), achei que Clube da Luta não iria me surpreender muito. Provavelmente foi por isso que gostei muito mais do aspecto psicológico da história. Percebemos que há algo de estranho na relação Protagonista Sem Nome (!)/Tyler desde o começo, com a repetição do bordão “Eu sei disso porque Tyler sabe disso”.

O processo que leva o protagonista dos grupos de auto-ajuda para pacientes de doenças crônicas (que ele finge ter para curar sua insônia) até a aceitação de que ele é Tyler Durden é intenso e empolgante. Escrevendo esta frase percebi que é por isso que o narrador não tem nome!

Se não conseguirmos chamar a atenção de Deus, não teremos a menor chance de condenação ou de redenção. O que é pior, o inferno ou nada?

Quem gostou do filme deveria REALMENTE ler o livro! E um pequeno comentário em off: reparou que todas as resenhas deste livro na internet começam com “a primeira regra do clube da luta…”? É a tiodopavêação do clube da luta. ¬¬

– Ana

J. M. Coetzee – Desonra [2]

Ana,

Tenho ouvido falar de Coetzee há alguns anos, pois é um dos autores favoritos de um amigo, mas nunca deixei a preguiça literária de lado para realmente pegar algo dele pra ler. Dessa vez, não pude ignorar Desonra depois do seu post.

Não consegui achar palavra melhor pra classificá-lo do que a que você já usou: brilhante. Claro, o livro faz jus ao nome. E é daqueles que não cansam de te dar tapas na cara: a vida não é perfeita, a vida não é como queremos, as coisas sempre podem piorar, as pessoas não tomam sempre as decisões mais acertadas. Um aspecto que me tocou pessoalmente: a escolha de sofrer sozinho (no caso de Lucy, filha do protagonista). Não sei se é pela minha total aversão a querer chegar no fundo do poço, mas ao menor indício de dor, sofrimento ou o que seja, eu já estou querendo contar, querendo conversar (tadinha de você :P), querendo achar uma saída. E as escolhas da personagem me desesperaram muitíssimo, nossa. Às vezes eu pegava o Kindle pra ler e ficava meio receosa de ligar, só pra não dar de cara com a agonia do pai querendo ajudar, querendo saber o que estava acontecendo e ela lá, cada vez mais fechada em si, cada vez mais trancada, mais distante. Isso até agora me aflige, só de lembrar.

Desonra não é um livro que se redime no final. Não é um livro onde se faz justiça, onde tudo acaba bem, onde apesar de tudo as pessoas se reerguem e etc. O final de tudo fica suspenso, fica ali à espera de mais uma desgraça, de mais um degrauzinho pra baixo, de mais uma chance de levar uma vida que não é a que ninguém quer pra si.

Quero ler mais livros do autor. Mas preciso antes desanuviar.
– Anna

Jean-Paul Sartre – Entre Quatro Paredes [2]

Anna,

Não tinha nenhum interesse (nem desinteresse) em ler este livro até você resenhar. O que é engraçado, porque você falou claramente que o livro era chato! 😀 Não sei o quê, no meio da sua resenha, me despertou a curiosidade. E a curiosidade matou a Ana de tédio. Mas pelo menos ressuscitou a tag “Eu também li”! 😀

Os três personagens (Inês, Estella e Gavin, que você já descreveu e me economizou um parágrafo! :D) estão mortos, e não restam dúvidas de que estão no inferno. E um inferno muito mais desagradável do que o cristão com suas chamas e diabinhos (e Satanás tendo um caso com Saddam Hussein OH WAIT).

Quero sofrer de verdade! Prefiro cem dentadas, prefiro a chibata a esse sofrimento cerebral, esse fantasma de sofrimento, que roça, que acaricia, e que nunca dói o bastante.

Eu também, Sartre. Eu também. O livro nunca impacta o bastante, nem irrita o bastante. Não achei o livro chato, como você falou. Achei… bobo. Não foi por falta de captar a nuance psicológica, nem por falta de captar o contexto existencialista (que está presente, é bacana, mas meh), nada disso.  Foi só porque os personagens não são bem desenvolvidos, porque a trama é “meh” – e porque consigo imaginar este texto sendo interpretado por um grupo teatral de ensino médio vergonha alheia total. 😀

A melhor parte é realmente o final famoso que todo mundo repete: “o inferno são os outros”. Taí um ponto positivo do livro, já que agora entendi o  contexto desta frase, e posso empregá-la com propriedade. Conta?

– Ana

Yasunari Kawabata – A Casa das Belas Adormecidas

Ana,

Esse livro é mais um dos meus não-lidos-e-já-comprados-ou-baixados e, por coincidência, também é de um escritor japonês. Quando eu li Memória de Minhas Putas Tristes a primeira vez — e não gostei —, fiquei intrigada com o título do livro do Kawabata, que é o que serve de mote para o livro do García Marquez. Um dia, quando já estava relendo o Memória…  — e gostando —, resolvi procurar o A Casa das Belas Adormecidas, que ficou baixado e esquecido no HD.

Eu já disse que a coisa que estou mais amando no Desafio (e no bloguito) é poder ler coisas que eu não leria? 😀

A Casa das Belas Adormecidas é um livro sensível e bonito. Conta as idas de Eguchi, um senhor de 67 anos, casado e pai de três moças também casadas, ao que seria uma casa de prostituição, não fosse o fato das moças serem virgens — e terem que permanecer como tal —, estarem sempre adormecidas por um poderoso sonífero e só receberem senhores de idade pra passar a noite, “para evitar constrangimento aos velhos que não eram mais homens“. Eguchi visitou a casa pela primeira vez por curiosidade, já que ouviu falar dela através de um amigo, mas acabou retornando lá “sempre que o desespero de envelhecer se tornava insuportável“.

para os velhotes que pagavam pelas jovens, o fato de poder deitar-se ao lado de uma garota como aquela equivalia, sem dúvida, à felicidade de se encontrar no paraíso. Já que a menina não acordava, o cliente idoso não precisava envergonhar-se do complexo de senilidade, e ganhava a permissão de perseguir livremente suas fantasias a respeito das mulheres e mergulhar em recordações. Talvez por isso não hesitassem em pagar mais caro pela garota adormecida do que por uma mulher acordada.

Durante essas noites, Eguchi se recorda de várias passagens de sua vida, desde a morte da mãe até suas namoradas e seu casamento. Pensa também nas filhas e em ex-amores, e se questiona muito sobre a velhice e o que ela traz de mais terrível: a solidão.

Numa noite tão fria, se pudesse me aquecer no calor de um corpo jovem e morrer de repente seria a suprema felicidade para este velho.

(…)

[Eguchi,] como um ser humano comum, vez por outra caía em depressão devido ao vazio da solidão e ao desgosto do isolamento. Não seria aquela casa um local ideal para morrer?

O livro traz algumas considerações sobre a sexualidade na velhice e sobre o feminino, o que é bem bacana de se considerar.

A sexualidade na idade madura aflora nua e crua num cenário composto para o deleite de quem não mais pode procurá-lo por conta própria. (…) A pureza da garota, pelo contrário, acentuava a fealdade dos velhos.

– –

não se pode conhecer a exuberância do corpo de uma garota somente com o olhar, nem apenas se deitando ao seu lado de maneira recatada.

(…)

Parece que o responsável por conduzir o homem ao “mundo da perdição” era o corpo feminino.

É interessante observar como Eguchi, sendo deixado sozinho no quarto com uma adolescente adormecida e nua, sempre tem que conter seus ímpetos violentos. Ele fica se questionando se seria capaz de matar uma mulher somente por prazer, ou se perguntando o que aconteceria com a casa se uma das meninas amanhecesse morta.

[Uma mulher adormecida] Seria um brinquedo perfeito ou um animal de sacrifício?

Sem contar a consideração final dele ao meditar sobre os acontecimentos que levaram ao casamento da filha mais nova, a sua preferida:

O corpo de sua filha caçula não era diferente do de qualquer outra mulher. Era feito para ser subjugado à vontade de um homem.

É uma novela curtinha, mas o final não me agradou. Pareceu terminado às pressas, ou parece que o final não combinou com o restante do livro, não sei. Mas serviu de pretexto pra eu reler de novo (re-reler) o Memórias 🙂

– Anna

Haruki Murakami – Blind Willow, Sleeping Woman

Anna,

eu não aprendo mesmo. Depois de muito reclamar da dificuldade pra resenhar, lá estou eu lendo outro livro de contos…  Quando você resenhou Minha Querida Sputnik, tive certeza que escolheria o japonês Haruki Murakami para o desafio deste mês! 🙂

Peguei Blind Willow, Sleeping Woman pra ler esperando muito. A introdução para a edição em inglês aumentou ainda mais as expectativas… e o primeiro conto foi absolutamente MEH. Não vi nada demais. Bacaninha, apenas. E era o conto-título! Fiquei com a sensação de que tinha sido enganada. Daí li o (ótimo) segundo conto, Birthday girl. E The Mirror, excelente conto sobre algo entre horror e filosofia.  E mais ou menos em A “Poor Aunt” Story, decidi que tinha gostado do livro. Claro, alguns contos são chatinhos/nadaver. E como todo livro de contos de fantasia que se preze, há um sobre gatos sendo esquisitos.

Um dos contos mais bacanas do livro é Tony Takitani. E foi mais ou menos neste momento que entendi o que me incomodava no livro – os diferentes gêneros de contos. Dentre os 24 contos, alguns são de realismo fantástico. Alguns, de romance, por falta de uma palavra melhor. E outros são só estranhos mesmo. E isso gerou uma certa decepção: alguns contos meio chatinhos eu lia pensando “ok, algo mágico vai acontecer”… e o conto acabava sem nada. O que mostra o verdadeiro problema que tive com este livro: a expectativa. Se eu nunca tivesse ouvido falar de Murakami, eu provavelmente estaria escrevendo sobre o “excelente livro que acabei de ler”.

Os seis últimos contos são muito bons/excelentes. Talvez o livro deva realmente ser lido na ordem, e os contos finais encarados como uma recompensa pela perseverança! 😀

– Ana

Desafio Literário – Maio

Vamos ao desafio de maio!

Janeiro Escritores latino-americanos
Fevereiro Livros gastronômicos
Março Adaptação para o cinema
Abril Nobel
Maio Escritores asiáticos
Junho Nome próprio
Julho Serial killer
Agosto Ficção científica
Setembro Escritores africanos
Outubro Chick lit
Novembro Literatura Pop
Dezembro Contos

Ana lerá Blind Willow, Sleeping Woman, de Haruki Murakami.

Anna lerá A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata.