Haruki Murakami – Blind Willow, Sleeping Woman

Anna,

eu não aprendo mesmo. Depois de muito reclamar da dificuldade pra resenhar, lá estou eu lendo outro livro de contos…  Quando você resenhou Minha Querida Sputnik, tive certeza que escolheria o japonês Haruki Murakami para o desafio deste mês! 🙂

Peguei Blind Willow, Sleeping Woman pra ler esperando muito. A introdução para a edição em inglês aumentou ainda mais as expectativas… e o primeiro conto foi absolutamente MEH. Não vi nada demais. Bacaninha, apenas. E era o conto-título! Fiquei com a sensação de que tinha sido enganada. Daí li o (ótimo) segundo conto, Birthday girl. E The Mirror, excelente conto sobre algo entre horror e filosofia.  E mais ou menos em A “Poor Aunt” Story, decidi que tinha gostado do livro. Claro, alguns contos são chatinhos/nadaver. E como todo livro de contos de fantasia que se preze, há um sobre gatos sendo esquisitos.

Um dos contos mais bacanas do livro é Tony Takitani. E foi mais ou menos neste momento que entendi o que me incomodava no livro – os diferentes gêneros de contos. Dentre os 24 contos, alguns são de realismo fantástico. Alguns, de romance, por falta de uma palavra melhor. E outros são só estranhos mesmo. E isso gerou uma certa decepção: alguns contos meio chatinhos eu lia pensando “ok, algo mágico vai acontecer”… e o conto acabava sem nada. O que mostra o verdadeiro problema que tive com este livro: a expectativa. Se eu nunca tivesse ouvido falar de Murakami, eu provavelmente estaria escrevendo sobre o “excelente livro que acabei de ler”.

Os seis últimos contos são muito bons/excelentes. Talvez o livro deva realmente ser lido na ordem, e os contos finais encarados como uma recompensa pela perseverança! 😀

– Ana

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Chuck Palahniuk – Clube da Luta

Ana,

Acho que não é novidade que eu adooooro Clube da Luta (o filme). Na verdade, eu tenho uma super queda por esses temas de autodrestruição, violência gratuita etc (Trainspotting, Requiem for a Dream, Funny Games, Death Proof, Laranja Mecânica, Natural Born Killers e por aí vai) e pela filosofia meio anárquica que perpassa essas histórias. Então, quando falamos em ler algo que fosse adaptação pro cinema, pensei logo nele! (e você também, eu sou uma voca roubona de livros 😦 ).

Fazendo um adendo: eu sempre discordei desse papo de que “o livro é melhor que o filme”. Acho que temos vários exemplos de bons (e até ótimos) filmes que são adaptações de livros. Tem uns péssimos, mas por favor! Senhor dos Anéis, O Silêncio dos Inocentes, Watchmen, e muitos, muitos outros são ótimas adaptações de livros que não deixam a desejar ao livro original. Claro, as pessoas esperam ver uma leitura dramatizada – e de acordo com o que elas próprias acharam dos livros –, aí é demais … (dsclp, Alan Moore).

ANFAN. Clube da Luta (o livro) é um daqueles que você para e pensa: por que eu não li antes? O filme faz muito jus ao livro, só que o livro – como era de se esperar – é muito mais extenso e cheio de detalhes. Em meio a receitas de napalm e formas de se estourar uma fechadura sem que a polícia descubra, o livro leva a autodestruição aos limites, a anarquia ao ápice. Ele questiona todo e qualquer aspecto das nossas vidas, do que somos e do que fazemos.

Você se sente como um desses macacos do espaço que só fazem aquilo que são treinados para fazer. Puxe a alavanca. Aperte o botão. Você não entende nada e, depois, simplesmente morre.

E critica fortemente a nossa sociedade de consumo, claro.

Você tem uma classe de mulheres e homens jovens e fortes que estão dispostos a dar a vida por alguma coisa. A publicidade persegue essa gente com carros e roupas desnecessários. As gerações vêm trabalhando em empregos que odeiam, comprando o que não têm a menor necessidade.

(…)

Você compra móveis. E pensa, este é o último sofá que vou comprar na vida. Compra o sofá, e por um par de anos fica satisfeito porque, aconteça o que acontecer, ao menos tem o seu sofá. Depois precisa de um bom aparelho de jantar. Depois de uma cama perfeita. De cortinas. E de tapetes. Então cai prisioneiro de seu adorável ninho, e as coisas que antes lhe pertenciam passam a possuir você.

(…)

Conheço pessoas que já se sentaram na privada com uma revista de sacanagem e hoje se sentam com um catálogo da IKEA.

(…)

Eu tinha uma coleção de mostardas especiais, algumas granuladas, outras em pasta como nos pubs ingleses. Tinha catorze sabores de molho para salada sem óleo e sete espécies de alcaparras. Eu sei, eu sei, uma casa repleta de condimentos e nenhuma comida de verdade.

(…)

Quem não sabe o que quer acaba tendo o que não quer.

O Clube da Luta – e todos os outros clubes de maldades, mentiras, destruição que se desenrolam a partir dele – é praticamente um outro mundo, uma sociedade à parte:

No clube da luta não sou a mesma pessoa que meu patrão conhece. Depois de uma noite no clube da luta, o mundo real não é mais o mesmo.

(…)

Antes, se eu chegasse em casa nervoso, vendo que a vida não estava de acordo com meus planos, bastava limpar o apartamento ou lustrar o carro. Um dia eu morreria sem nenhuma cicatriz e deixaria um apartamento e um carro muito bons. Muito bons mesmo, até juntar poeira ou mudar de dono. Nada é estático. Até a Mona Lisa está se desintegrando. Desde que o clube da luta começou, tenho metade dos dentes moles na boca.

A solução talvez seja a autodestruição.

E, de todas as quebras de certezas feitos no livro, os meus preferidos:

Só se pode ressuscitar depois do desastre. — Só depois de perder tudo você vai fazer o que quiser.

Nada é eterno. Nada é estático. Tudo está desmoronando.

Talvez devêssemos pensar sempre no pior.

Pense na possibilidade de Deus não gostar de você. É possível que Deus odeie a gente. Não é a pior coisa que pode acontecer.

Você não é o que faz para viver. Você não é a sua família e não é quem pensa que é.

Você não é o seu nome.

Você não é os seus problemas.

Você não é a idade que tem.

Você não é suas esperanças.

Vamos todos morrer um dia.

Fomos ensinados pela televisão a acreditar que um dia seremos milionários, astros de cinema e do rock, mas é mentira.

– Anna