José Mauro de Vasconcelos — O Veleiro de Cristal

Desafio 2015: Livro ambientado em um lugar que você queira visitar


Ana,

No início da minha adolescência, eu relia muito (sim xD) O Veleiro de Cristal e O Menino do Dedo Verde, então fiquei na dúvida de qual deles reler pro desafio do ano passado — e que acabei não postando.

(note to self: ainda quero reler O Menino do Dedo Verde)

Apesar de ter relido esse livro várias vezes naquela época, eu não lembrava nada da história além de uma parte em que o  menino fica preso numas cordas no quintal, então foi como ler um livro novo. Devemos lembrar que é um livro voltado pro público juvenil e, dito isso, tenho duas críticas,

a) à linguagem; b) à pieguice.

A linguagem usada no livro, e pelos personagens, é muito formal e deixa tudo muito artificial. E, também por causa disso, o livro tem umas partes mega bregas e melosas (e também um tanto artificiais).

O personagem principal é Eduardo, um menino de 13 anos que nasceu com espinha bífida e hidrocefalia. Sua família deixa claro que não gosta dele e o quão seus outros dois irmãos são perfeitos e lindos e etc. Ele é cuidado por sua tia Anna (rá!), a quem é muito apegado. A tia é muito bonita, bondosa e rica (olha aí uma das artificialidades), e ama o menino como se fosse seu filho.

Eduardo precisa fazer uma cirurgia muito delicada no coração, e a tia o leva pra passar uns dias na casa de praia de um amigo antes da operação. É lá que ele conhece um sapo chamado Bolitrô (de Bolitreau), uma coruja empalhada aficcionada por assuntos mórbidos e um tigre chinês de bronze, Gakusha.

O livro é curtinho, triste e, embora não me arrependa de ter relido, acho que ele era muito maior e mais complexo (e também mais triste) na minha pouca lembrança dele. Desde essa época eu tinha vontade de ler outras coisas do autor, mas acho que a vontade passou.

-Anna

Reinaldo Moraes – Tanto Faz

Anna,

Esta vai ser uma resenha curtinha. O livro não merece muito mais do que isso. O título é bastante preciso, já que tanto faz ler ou não.

Final da década de 1970. O narrador, Ricardo, é enviado a Paris por um ano, com uma bolsa de pesquisa pra estudar economia. Mas o que ele quer é curtir.

Talvez em 1981 este tema tenha sido revolucionário, interessante e cool, contando de forma glamurizada a história de pessoas de 20 e muitos, 30 e poucos anos que não são “adultas” no sentido tradicional de casado-com-dois-filhos, usam drogas, transam sem muito compromisso, blá blá blá.  Em 2014…. bitch, please. Todo mundo é mais ou menos assim! Então você está no fundo lendo a história de pessoas irritantemente comuns e desinteressantes.

Algumas tiradas são bacanas, algumas “aventuras sexuais” (estou me sentindo a Veja!) são ótimas e me fizeram rir. Mas nada que me faça recomendar, nada que me faça querer ler outro livro do autor, etc. Estaria eu ficando velha? Ou é só fruto do meu mau humor causado você-sabe-por-quem? Embora às vezes eu me lembrasse de Naked Lunch, Tanto Faz é mil vezes melhor. O que realmente não quer dizer muito.

“Para mim, a angústia é um gato vira-lata com patas de pluma e corpo de chumbo. Sinto suas andanças dentro da caixa do peito, mas nunca sei onde ele está exatamente”

 – Ana

Moacyr Scliar – A Mulher que Escreveu a Bíblia

Ana,

pro desafio de março eu escolhi A Mulher que Escreveu a Bíblia porque, além de estar na minha fila de cabeceira mental (mas não mais tão mental assim) — por indicação de um colega de trabalho —, Moacyr Scliar é um autor que eu estava querendo reler há muito já. Lembro de ter lido muitos contos dele no período pré-faculdade e ter gostado bastante (pretendo reler J. J. Veiga também, outro autor com quem tive um contato rápido e de quem guardei ótimas lembranças).

O romance (ou novela?) é narrado em primeira pessoa por uma mulher que descobre, em sessões de terapia de vidas passadas, que foi esposa de Salomão (o rei bíblico). Aliás, uma das setecentas. E, embora a mais culta, inteligente e a única que sabia ler, ela era a mais feia. Aliás, a feiúra da personagem é uma constante em todo livro, tratada pela mesma, na maioria das vezes, com muito humor (característica do autor, aliás).

Digamos que na escala de zero a dez ele [Deus] se tenha autoconferido um oito, a imperfeição correndo por conta dos répteis e da feia.

(…)

Tenho belas mãos (aliás tenho belos seios, belos quadris — sou da variedade paradoxal conhecida como feia-de-cara-mas-boa-de-corpo), mas de há muito aprendera a conter minhas emoções. Já me bastava com ser feia; chorosa, eu ficaria um espanto.

A personagem (sem nome) é apaixonante! E, vamos dizer, até feminista ;D Já no prefácio, é dito sobre ela, pelo próprio autor, que

Não era um escriba profissional, mas antes uma pessoa altamente sofisticada, culta e irônica, destacada figura da elite do rei Salomão […]; uma mulher, que escreveu para seus contemporâneos como mulher.

A questão da mulher naquelas épocas pré-bíblicas é sempre lembrada também (os grifos são meus).

(era um varão que meu pai queria para primogênito; aliás, só queria filhos homens, mas Jeová o castigou dando-lhe três filhas, a primeira medonha)

(…)

Uma primogênita era sempre um inconveniente, para dizer o mínimo: não garantia sucessão, não ajudava no trabalho e ainda precisaria de um dote para poder casar. Agora, uma primogênita feia era mais do que isso, era um descalabro cujo destino só poderia ser o precipício.

A personagem vive tranquilamente até os 18 anos sem nunca ter visto um reflexo do próprio rosto. Um dia, descobre que a irmã mais velha tinha um espelho — artigo raro e de luxo — e resolve dar uma olhada.

— Resumindo, era isso o que eu via: a) assimetria flagrante; b) carência de harmonia; c) estrabismo (ainda que moderado); d) excesso de sinais.  Falta dizer que o conjunto era emoldurado (emoldurado! Essa é boa, emoldurado! Emoldurado, como um lindo quadro é emoldurado! Emoldurado!) por uns secos e opacos cabelos, capazes de humilhar qualquer cabeleireiro.

O que eu estava vendo era a feiúra arcaica, a feiúra ancestral, uma feiúra consolidada pelos anos, pelos milênios, talvez.

(…)

por que cedi à maldita curiosidade, à maldita vaidade? Por que não me arrancou Jeová da mão aquele revelador, mas funesto objeto? Hein, Jeová? Por que não tomaste alguma providência, tu que sabes tudo, tu que podes tudo? Podias ter reduzido o espelho a pó, com o simples ato de tua vontade. Por que não o fizeste? Será que não existes, amigo? Hein? Será que não passas de uma abstração, uma ilusão da ótica emocional? Aquilo, sem dúvida, era a resposta a um pecado, a um crime. Agora eu era a feia, e tudo em minha vida seria condicionado por essa feiúra.

Ainda assim, por ser a filha mais velha de um chefe de aldeia, ela é designada para se casar com o rei, por quem se apaixona profundamente. Salomão é descrito como um homem lindo, educado, inteligente mas… um pouco mané. Ao chegar no harém e ver a situação daquelas mulheres — confinadas o dia inteiro e vivendo totalmente para satisfazer o rei (a quem talvez só vissem uma vez durante toda a vida) — ela resolve dar um jeito nas coisas (e, claro, reinvindicar que o Salomão consume o casamento, coisa que não tinha acontecido até então)

O objetivo final do movimento seria, não acabar com a instituição harém — muitas mulheres nem saberiam viver em liberdade —, mas pelo menos estabelecer uma pauta de direitos.

Numa tentativa de fuga do palácio, Salomão descobre que a esposa — como pode? — sabe ler e escrever. O escriba de seu pai a havia ensinado escondido por ter visto nela uma grande inteligência e inadequação com a situação reservada à mulher naqueles tempos. E, pela primeira vez, ela é chamada ao quarto do marido à noite.

Em vez de uma declaração de amor, uma proposta editorial.

Salomão queria escrever seus feitos e de seus ancestrais. Aliás, porque não escrever sobre a criação do mundo? sobre Deus? ora, ele era Salomão, claro que ele podia. Mas os escribas designados para isso vinham falhando já há muito, e ele vê na mulher a oportunidade de ter sua grande obra (maior em importância até mesmo que o Templo de Salomão) finalmente ser acabada. Mas ela estava muito mais pendida a escrever ficção, hahaha! Sobre Adão e Eva (e a vida sexual dos dois), ela escreve

Todas as posições eram usadas, todas as variantes experimentadas, isso sob o olhar curioso das cabras e dos ornitorrincos e, mais, sob o olhar benévolo de Deus.  Que, na minha versão, não os expulsava do Paraíso; ao contrário, encorajava-os: agora que descobristes o amor, podeis enfrentar a vida como ela é, a vida cheia de som e de fúria.

Sua versão da Bíblia — muito melhor, aliás 😛 — é altamente censurada, claro. Ela enche os escribas de questionamentos (mas como Caim se casou com uma mulher de outra tribo se só sua família havia sido criada até então?), mas, com o tempo, ela vai ganhando mais e mais a admiração de Salomão, que a trata diferente das outras esposas (mas não ainda como esposa, mas como amiga, ou conselheira. Ou como um homem a quem admira, o que me lembrou aquele trecho de uma fala da Marylin Frye, de 1983

“Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais [fode] exclusivamente com [ou submete sexualmente] o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens héteros reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens.”)

Algumas vezes, em momentos de revolta (a vida com certeza é mais fácil pros estúpidos), a personagem maldiz a condição de inteligente (#quemnunca #modéstia)

Já não bastava tua feiúra, tinhas de bancar a inteligente?

Eu poderia falar eternamente desse livro, ou citá-lo inteiro. Mas vai lá na Dropbox, pra facilitar as coisas 😉

–Anna

André Laurentino — A Paixão de Amâncio Amaro

Ana,

A Paixão de Amâncio Amaro foi o primeiro livro após anos que eu comecei a ler e só larguei no momento em que terminei. Um colega de trabalho já havia falado — e muito bem — a respeito, e um dia levou o livro pra eu ler. Adorei, adorei, adorei. A leitura é fácil e nada simplória.

É a história de Amâncio Amaro, um menino do interior do Pernambuco que não consegue decorar o próprio nome, que ocupa três páginas e meia do livro de registros da cidade, e que tem um amor secreto por Luzinete. Amâncio passa os dias fantasiando encontros com ela e brigas com o pai, que odeia (e o sentimento é recíproco). O livro ainda tem um quê de literatura fantástica ao retratar um personagem que se transforma em qualquer coisa (poste, cachorro, pássaro), o próprio nome de batismo de Amâncio e uma menina estrábica que tem inveja da sua própria imagem no espelho (onde ela se vê linda).

O romance é delicado, e foge do clichê de literatura regional nordestina. E a estrutura em si é tão surpreendente que eu li o último capítulo freneticamente e quando terminei quis recomeçar o livro. Só não li duas vezes seguidas porque caí de sono 🙂

–Anna

Marcelo Rubens Paiva – Malu de Bicicleta

Ana,

lembra uma vez que te contei que tava lendo o Feliz Ano Velho e que, God, que porcaria? xD

Poizé. Um dia, na casa de alguém, comecei a ver o filme Malu de Bicicleta. God, que porcaria [2]. Mas eu gostei taaaanto do nome que, quando descobri que era um livro, ignorei o fato do filme ser ruim e do autor ser o mesmo do Feliz Ano Velho e comprei (não sei se já comentei que eu escolho livro/ filme pelo nome e raramente leio sinopses). E gostei muito 🙂

Meu lado feminista estridente (brigada, Moran), quando começou a ler o livro, já teve fricotes e eu pensei “Cacete, vou odiar”:

Ele tinha uma lista dos alvos da semana, as mulheres possíveis, as quase certas, com as quais podia rolar. Era um jogo. Ele era um apostador. Que vício… Acabara se transformando no maior companheiro e parceiro das mulheres da cidade. Um comedor. Mas uma pelo jeito decidiu abandoná-lo. Justamente a única com quem ele resolveu se casar.

Mas não! Luiz, o protagonista, está longe de ser um cafajeste (que acabo de descobrir que se escreve com j, e não com g #revisora). Ele é um galinha, mesmo, daqueles que querem pegar até amigas, e amigas das amigas, e sócias e o diabo de saia, se o diabo usar saia. Mas a forma como ele lida com as mulheres é tããão… gracinha. O autor vai intercalando a história de Luiz e Malu com as pegações de Luiz desde a adolescência. E as mulheres são apresentadas em suas particularidades: no que gostam, o que fazem, o que ele mais gostava nelas (o olhar, a inteligência, a bunda etc.). E ele também fala dos tocos, dos nãos, dos foras (inclusive de putas, haha).

A escrita é ótima, a história em si é uma delícia e o fluxo da narrativa é muito fluido, você começa a ler e não quer parar.

Comparando com o Feliz Ano Velho, que é o primeiro livro do autor, só tenho uma coisa a dizer: APRENDEU, HEIN, RUBENS PAIVA?  😛