J. M. Coetzee – Youth

Anna,

Estes dois últimos meses foram bem complicados. Entre blues e fase da água (só os fortes entenderão) e Coursera, não li nem metade dos livros que gostaria de ler. Para piorar, uma maré de azar literária: comecei três ou quatro livros que pareciam bacanas pelo título/número de estrelinhas no Goodreads, mas eram todos uma belíssima chatice e foram devidamente largados. Cansada e decidida a mudar de rumo, apelei. Apelei forte. Escolhi um livro do Coetzee. Youth foi escolhido no chute, quase… mamãe-mandou-eu-escolher-este-daqui. E que chute! 😉

E, sem saber, acabei escolhendo outra autobiografia. Ou autrebiography, como Coetzee diz, uma autobiografia vista à distância, em terceira pessoa, recontando eventos do passado no tempo presente. Youth começa na África do Sul do fim dos anos 1950. O personagem (é difícil dizer “o autor” neste caso) quer ser poeta, termina a graduação em matemática e sonha com a vida na Europa, onde acredita que finalmente poderá viver as experiências que despertarão nele a arte.

He would like to be attractive, but he knows he is not. There is something essential he lacks, some definition of feature. Something of the baby still lingers in him. How long before he will cease to be a baby? What will cure him of babyhood, make him into a man? (…) What will cure him, if it were to arrive, will be love. He may not believe in God but he does believe in love and the powers of love.

Com o apartheid, que novamente nunca é mencionado de forma direta, e com a ameaça de serviço militar, e com aquela sensação de que “este país é muito pequeno para mim”, John entra em um navio rumo a Londres.

There are two, perhaps three places in the world where life can be lived at its fullest intensity: London, Paris, perhaps Vienna. Paris comes first: city of love, city of art. But to live in Paris one must have gone to the kind of upper-class school that teaches French. As for Vienna, Vienna is for Jews coming back to reclaim their birthright: logical positivism, twelve-tone music, psychoanalysis. That leaves London, where South Africans do not need to carry papers and where people speak English.

Mas a vida em Londres não é vivida ao máximo por ele. Seu emprego de programador na IBM (que, segundo ele, o está transformando em um zumbi), sua vidinha, sua postura passiva em relação às mulheres – ele sonha com a musa que um dia o irá inspirar, mas as mulheres de Londres são intangíveis -,  não são exatamente um estímulo ao talento artístico. O que vemos é um jovem de 20 e bem poucos anos perdido entre o que poderia-ser-se… e a opção do combo casa-trabalho-esposa.  Como é uma autrebiography, acho que é óbvio qual o caminho que o autor parece escolher 😀

In fact, he would not dream of going into therapy. The goal of therapy is to make one happy. What is the point of that? Happy people are not interesting. Better to accept the burden of unhappiness and try to turn it into some thing worthwhile, poetry or music or painting: that is what he believes.

Normal people find it hard to be bad. Normal people, when they feel badness flare up within them, drink, swear, commit violence. Badness is to them like a fever: they want it out of their system, they want to go back to being normal. But artist have to live with their fever, whatever its nature, good or bad. The fever is what makes them artists; the fever must be kept alive. That is why artists can never be wholly present to the world: one eye has always to be turned inwards.

O livro é excelente, Coetzee é excelente, etc. Como em Disgrace, Coetzee parece que não quer que você goste do personagem principal. O leitor provavelmente se identificará com o personagem, mas será com aquele desconforto que sentimos quando vemos nossos defeitos por escrito. Youth não tem a dor e o impacto chocante de Disgrace (embora tenha muito desconforto), mas isso é uma enorme vantagem: poderei ler o próximo logo! 🙂

 – Ana

Desafio Literário 2013/ 2014 – Agosto

Atrasamos como sempre, não falhamos como (quase) sempre! 😀

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana lerá Slaughterhouse 5, de Kurt Vonnegut.

Ana lerá O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov.

Charlotte von Mahlsdorf – I Am My Own Wife

Ana,

(fingindo que não sei que tô anos atrasada no post) quando a gente colocou a categoria autobiografia no desafio, o primeiro livro que me passou pela cabeça foi esse. Há alguns anos fui ao Teatro da Caixa assistir a uma peça chamada Eu Sou Minha Própria Mulher, não lembro se escolhi por causa do nome. A peça era um monólogo autobiográfico baseado na vida de Charlotte von Mahlsdorf (nascida Lothar Berfelde), alemã que fundou o Museu Gründerzeit, dedicado à coleções de objetos e móveis de uso doméstico.

Eu CHOREI que nem uma condenada a peça inteira (não lembro quem era o ator), e o livro foi parar na minha lista de to-read até esse mês (eu não sou muito proativa, é verdade), embora eu goste muito mais do nome dado à primeira edição, I Am My Own Woman 🙂

Charlotte era uma travesti, filha de nazista e vinda de um lar violento.

After their wedding, my parents moved into the upper floor of the cottage. It was a very unhappy marriage because my father was a brutal tyrant with a riding-crop mentality.

(…)

Even as a child I thought my father a fiend, although I was too young to know how brutally he was abusing my mother. (…) I recall him giving me a horrible beating over some trifle, screeching barrack obscenities all the while. When I cried, he roared “BOYS DON’T CRY!” and hit me harder. That was my father, Max Berfelde.

Apesar do pai – que Charlotte diz duvidar que tenha alguma vez notado que o filho era, na verdade, uma menina – ela encontrou apoio no tio, Josef Brauner, o mesmo que tinha criado sua mãe e dado todo o apoio pra família até a sua morte (ele inclusive nunca se opôs ao fato de Charlotte usar roupas femininas, e durante a ocupação nazista ia com ela até os locais de distribuição de roupas e alimentos e muito naturalmente pedia por casacos femininos ou saias pra sobrinha), e numa tia, lésbica e travesti, que morava numa fazenda. A mãe de Charlotte dizia “não concordar” com a filha, mas respeitar seus posicionamentos.

My aunt told me that from the first time she sat astride a horse when she was six years old, she knew she was a boy. She confessed this to her father who, without further ado, informed his surprised wife that Louise should really have been called Luis.

É muito bonito ver como os dois são aceitos e apoiados pela família, apesar de tudo. Não obstante, Charlotte foi obrigada pelo pai a entrar pra Juventude Hitlerista e, com a evacuação da cidade onde moravam, ela vai com a mãe e os irmãos pra longe do pai. Este, numa visita de Charlotte pra buscar algumas coisas em casa que eles precisavam, ameaça a menina a ficar com ele, dizendo que se ela não aceitasse, mataria toda a família. Charlotte, então, no meio da noite, mata o pai a pauladas (ela tinha só 15 anos!).

It was not, and could not have been, done in the heat of passon. I had resolved to act. I kenw there was no other choice. When the police came, I felt free in the knowledge that this monster could no longer hurt my mother. His murder was a kind of preventive “self-defense”.

O livro todo é muito sensível, e da mesma forma que Charlotte narra o assassinato do pai ou os episódios horrorosos da guerra, ela narra como começou sua coleção – que formaria o museu – e como encheu a casa do tio de cacarecos (hahaha), ou como andava quilômetros pra buscar um relógio ou pra encontrar quem consertaria um gramofone. Em muitos pontos há até uma certa graça nas coisas, como quando o tio chega em casa e Charlotte está vestida de empregadinha doméstica arrumando a casa, ou quando o professor de Educação Física pergunta porque ela não gosta das aulas e ela responde que “preferia estar em casa tirando o pó dos móveis”, atitudes até, de certa forma, ingênuas (e o tom não muda, seja falando de um sofá ou das festas BDSM que aconteciam no porão do seu museu :P).

I admit that is completely absurd to regret the destruction of a scalloped edge, but that’s how I am.

(…)
This house is my fate. It called out to me in its greatest need, and I was there for it. Here, my dream of having my own museum became reality. But more than that: this house is my home. Museusm guide, tenant, and housekeeper all in one, I have furnished the house the way a middle-class housewife would have furnished her home around 1900.

O livro é lindo, a história é emocionante e Charlotte decerto era uma vozinha muito querida (pelo menos é o que parece nas fotos dela :P). E, sobretudo, uma mulher forte, decidida e empoderada. Ela entrou definitivamente pra minha lista de seres humanos fabulosos! 🙂