“—All You Zombies—” — Robert A. Heinlein

Desafio 2015: Livro que tenha sido adaptado para o cinema


Ana,

Eu tava tão empolgada pra voltarmos o blog que assim que li essa novela, já tava pensando na resenha 😀

Meu irmão me sugeriu o filme Predestination (2014), e assim que terminei de assistir, vi que era baseado no conto “—All You Zombies—” (assim com aspas e travessão mesmo #ClariceLispectorFeelings), publicado em 1959. O legal dele é que coube num monte de tag :-B

O conto (que te deixa a semana toda pensando em coisas do tipo “mas, pera. se ele fez isso, não deveria ter acontecido X, e não Y?”, ou chegando a conclusões e exclamando “aaaah! tá!” aleatoriamente e preocupando quem tá em volta :P) é sobre um agente temporal que volta no tempo pra encontrar consigo mesmo mais jovem — e ainda mulher. O enredo aborda a viagem no tempo e uma série de paradoxos que isso envolve, especialmente o conceito intrincadíssimo de paradoxo da predestinação, que pressupõe que o viajante no tempo deve cumprir – conscientemente ou não – um papel crucial num evento que já ocorreu, como um acidente (ou evitando um acidente), salvando a vida de alguém ou até mesmo salvando a própria vida OMG VIAGEM NO TEMPO NÃO É O MÁXIMO? ❤

Mas o paradoxo da predestinação não se atrela somente a casos de viagem no tempo. Ele está presente em textos como Édipo Rei e outros onde há profecias (no ex., que ele mataria o próprio pai e casaria com a própria mãe).

O conto/ novela é curtinho e muito bom de ler. Apesar do título, não é uma história de zumbis #TodasShora. Ele é uma citação de uma citação do próprio personagem ( 😀 ) , lá no finzão do conto.

I know where I came from—but where did all you zombies come from?

O filme também não deixa a desejar e, apesar de não ser o melhor filme de ficcção científica do mundo, é um bom filme de ação (principalmente pra ver como a atriz australiana Sarah Snook ficou parecida com o Leonardo DiCaprio jovem hehehe). Uma outra obra que sempre aparece atrelada ao “—All You Zombies—” é a novela The Man Who Folded Himself, que entrou pra minha amada e infinita to-red.

–Anna

Anton Tchékhov – A Dama do Cachorrinho

Ana,

outro livro que não foi fácil achar. Quando escolhemos essa categoria, eu imaginei que iam me pipocar na cabeça milhares de títulos e que eu ficaria na dúvida na hora de escolher. Errei feio. Como A Dama do Cachorrinho foi o mais recorrente (e mais rápido de ler, confesso) na mini-lista que consegui criar, foi ele o escolhido.

Quando eu vi O Leitor (Stephen Daldry, 2008) — contra a minha vontade, porque nunca fui com a cara da Kate Winslet — saí do cinema com aquela autoilusão de “vou ler esse livro assim que chegar em casa”. O conto do Tchékhov (o nome com mais grafias que eu já vi na vida) é um dos que Michael Berg lê para sua amante, Hanna Schmitz (entre outros, como a Odisseia, Huckleberry Finn e As Aventuras de Tin-Tin).

Eu li a edição da LP&M Pocket, que tem mais 11 contos além dele. Dá pra ler numa sentada, e deu pra lembrar o tanto que eu gostava de ler os russos uns anos atrás!

O conto é de 1899 e fala do romance entre o banqueiro Dmitriy Dmitrich Gurov (um mané misógino preso num casamento sem amor com uma mulher que pela descrição você já acha entediante) e a jovem Anna Sergeyevna (a dama do cachorrinho — um lulu da pomerânia xD —, que tem por volta de 20 anos e também é casada). Eles se conhecem quando estão os dois de viagem a Ialta (ele mora em Moscou e ela numa cidade que não é nomeada) e, após um breve romance, Anna vai embora e Dmitriy descobre que está verdadeiramente apaixonad0 pela primeira vez na vida — os russos e suas baranguices —, e chega a viajar pra cidade da moça atrás dela.

Eu gostei muito, como gostei do livro todo (e gostei também da peça As três irmãs e dO Jardim das cerejeiras, também de Tchékhov e que li há alguns anos). Eu sempre fui muito fã de contos, e me peguei pensando por que deabos eu levei tanto tempo pra ler esse livro! Lembro que também gostei muito do filme, apesar de ter ido à contragosto. Como duvidar de um filme que tem o Ralph Fiennes, né? ❤

–Anna

Haruki Murakami – Blind Willow, Sleeping Woman

Anna,

eu não aprendo mesmo. Depois de muito reclamar da dificuldade pra resenhar, lá estou eu lendo outro livro de contos…  Quando você resenhou Minha Querida Sputnik, tive certeza que escolheria o japonês Haruki Murakami para o desafio deste mês! 🙂

Peguei Blind Willow, Sleeping Woman pra ler esperando muito. A introdução para a edição em inglês aumentou ainda mais as expectativas… e o primeiro conto foi absolutamente MEH. Não vi nada demais. Bacaninha, apenas. E era o conto-título! Fiquei com a sensação de que tinha sido enganada. Daí li o (ótimo) segundo conto, Birthday girl. E The Mirror, excelente conto sobre algo entre horror e filosofia.  E mais ou menos em A “Poor Aunt” Story, decidi que tinha gostado do livro. Claro, alguns contos são chatinhos/nadaver. E como todo livro de contos de fantasia que se preze, há um sobre gatos sendo esquisitos.

Um dos contos mais bacanas do livro é Tony Takitani. E foi mais ou menos neste momento que entendi o que me incomodava no livro – os diferentes gêneros de contos. Dentre os 24 contos, alguns são de realismo fantástico. Alguns, de romance, por falta de uma palavra melhor. E outros são só estranhos mesmo. E isso gerou uma certa decepção: alguns contos meio chatinhos eu lia pensando “ok, algo mágico vai acontecer”… e o conto acabava sem nada. O que mostra o verdadeiro problema que tive com este livro: a expectativa. Se eu nunca tivesse ouvido falar de Murakami, eu provavelmente estaria escrevendo sobre o “excelente livro que acabei de ler”.

Os seis últimos contos são muito bons/excelentes. Talvez o livro deva realmente ser lido na ordem, e os contos finais encarados como uma recompensa pela perseverança! 😀

– Ana

Gabriel García Marquez – Doze Contos Peregrinos

Ana,
Já há algum tempo eu não lia nada do Garcia Marquez, que é seguramente um dos meus escritores favoritos, e eu estava há alguns meses tentando encaixar algo dele no nosso desafio!
 
Doze Contos Peregrinos são (doze) contos de personagens latino-americanas exiladas ou autoexiladas na Europa (algumas literalmente, por conta do momento político que o continente atravessava), escritos num período de 20 anos em que o autor tentou relembrar e reescrever sobre o seu próprio tempo de latino exilado no primeiro mundo. São histórias que trazem algo de triste, com gente solitária. Mas a tristeza muitas vezes não é pelo exílio em si. É pela morte que se aproxima, ou pela velhice, ou por estar a tanto tempo esperando algo que não se consegue nunca.
Não sei nem se essa tristeza é uma característica do peregrino ou do exilado. Os livros dele sempre me parecem trazer algo de triste, de consternado. E é uma tristeza bonita, no fundo.
Esses contos não têm tanto o tom que existe nos romances de García Marquez, imagino que por não terem sidos escritos como o propósito de estarem todos juntos no mesmo livro (alguns dos contos foram primeiramente publicados em jornais ou em antologias), parece o mesmo autor com uma “voz” diferente, entende? Mas isso não altera de forma alguma a qualidade deles ou do livro em si.
Amei, amei, amei ter lido meu primeiro Gabo do ano 🙂

Júlio Córtazar – Histórias de Cronópios e de Famas

Anna,

Como assim, eu reclamo de fazer resenha de livros de contos e no mês seguinte leio outro?

Para o desafio deste mês, li “Histórias de Cronópios e de Famas”, do Júlio Cortázar. Escolhi este livro porque (insira potoca gigante aqui)… ok, porque você me indicou! 😀 Quando li o título no e-mail, fiquei “Dels, como sou analfabeta, não sei o que significa ‘cronópios'”… foi bonito quando o Houaiss também não soube! 🙂 Ainda bem que o livro me explicou! 😀 😀

A primeira parte, Manual de Instruções, é na verdade uma coletânea de continhos, cada um com uma… bem, uma instrução! #capitãóbvia. De como subir uma escada ( ❤ ) a como chorar, passando por como cantar e sentir medo.

Amei em particular o “preâmbulo às instruções para dar corda no relógio”:

“Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. […] Dão a você – eles não sabem, o terrível é que eles não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio […] Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.”

A segunda parte, Estranhas ocupações, fala sobre a família do narrador. Novamente, são vários pequenos contos. O último, Comportamento nos velórios, é decididamente o melhor! 😀 A terceira parte, Matéria plástica, é mais densa e poética.

Finalmente, a quarta parte é o conto-título Histórias de Cronópios e de Famas. Finalmente descobri o que são cronópios, famas e esperanças!

“Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige à delegacia e lavra uma ata declarando os móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações. […]

Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: ‘que bela cidade, que belíssima cidade’. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.

As esperanças, sedentárias, deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que é preciso vê-las, porque elas não vêm até nós”.

Cortázar ficou famoso por sua “prosa poética”, e esta é a definição PERFEITA da sensação do livro inteiro. Não sei como demorei tanto a ler! Apaixonei-me por Cortázar quase tanto quanto me apaixonei por Ondjaki há meses.

Lerei mais, definitivamente. E talvez até crie vergonha na cara e leia em espanhol… 🙂

Ryûnosuke Akutagawa – Rashômon e outros contos

Ana,

O mundo não acabou 😦

Daí que as minhas pretensões pós-apocalípticas (porque claro que eu iria sobreviver) era passar a eternidade numa caverna confortável lendo, comendo e vendo filme. Mas não rolou e, enquanto eu espero meu ressarcimento, aqui vai a resenha 😀

Escolhi ler esse livro porque ele estava no meu caderno de anotações – que eu levo na bolsa e fico anotando coisas que eu quero ler/ ouvir/ assistir mas nunca dou bola – e eu tinha baixado ele e jogado na biblioteca do Calibre. Na verdade, esse parágrafo deveria começar de outra forma: esse livro estava no meu caderno de anotações e eu decidi lê-lo (lelo, coisa horrorosa) porque estou determinada a dar cabo de duas coisas: minha lista do que ler/ ouvir/ assistir e dos meus livros não lidos e já comprados ou baixados.

O problema é que, quando eu comecei a ler, não lembrava de jeito nenhum o porquê de eu ter me interessado tanto por ele, ao ponto de ter anotado o título e já baixado e convertido pra mobi. E eu li um conto e achei muito bom. Li outro, o mais famoso do livro (Dentro do Bosque, gratuito pra ler), e o melhor de todos eles… li o terceiro: tchato. Ainda li mais uns dois, e achei muito, muito chato (crítica literária level master). Tanto que decidi parar de ler e procurar outro. Maaans desafio é desafio, e minha consciência pesou xD Voltei ao livro e, entre bons contos e outros nem tanto, termineeeeei! xD

A característica principal de todos os contos é o aspecto nada legal do ser humano: as pessoas não são boazinhas e, muitas vezes, chegam até a ser cruéis. Algumas imagens usadas pelo autor são estranhas a nós, ocidentais (como a mulher que arranca os cabelos dos mortos), então imagino que ficamos meio em desvantagem na apreensão de toda essa descrição psicológica.

Agora que sentei pra escrever a resenha, me lembrei o que eu queria com o bendito: Dentro do Bosque foi o conto usado por Akira Kurosawa como base para o filme Rashômon, e foi por isso que eu quis ler o livro – pra ver o filme.

Não é um livro excelente, mas é um bom livro de contos. Vale a leitura também para conhecer um pouco da literatura japonesa menos ocidentalizada e mais moderna (apesar de o autor ser do início do século passado) e porque o seu autor, Ryūnosuke Akutagawa, é conhecido como o pai do conto japonês.

Eu percebi uma coisa: esse ano (2012 ainda) eu li dois autores japoneses! 😀 Pra quem nunca lia nada – fora um mangá ou outro – é ótimo, né? 🙂

E outra coisa: muitas vezes a conversão de pdf pra mobi FODE com a formatação 😦 Esse foi tenso até de ler.

Kelly Link – Magic for Beginners

Anna,

O mundo não acabou (quero meu dinheiro de volta), então não tive como escapar da resenha! 😀

Para o desafio, resolvi ler o Magic for Beginners, da Kelly Link. Comprei este livro no Humble Bundle, que é uma iniciativa super bacana: pague o que quiser pelos livros (ou jogos, dependendo do mês), pague acima da média e leve outros, e escolha quanto da grana vai para caridade. 🙂

Lendo a entrada da Wikipedia sobre a autora, descobri que parte do livro está disponível para download gratuito sob a licença Creative Commons. Dois dos nove contos do livro não estão neste link: o primeiro, The Faery Handbag, e Magic For Beginners.

Como da outra vez, acho difícil fazer uma resenha decente de livros de contos.

The Faery Handbag conta a história de uma garota, sua avó excêntrica, e uma bolsa que contém literalmente uma civilização.

O segundo conto, The Hortlak, fala sobre o All-Night, uma loja de conveniência autosuficiente e que aceita como forma de pagamento: dinheiro, dog tags, qualquer coisa interessante, sonhos.  Duas pessoas trabalham na loja. Batu e Eric. Charley, que trabalha em um abrigo de animais, sacrificando-os, está sempre por lá, e Eric está apaixonado por ela. Batu está sempre de pijama. Uns são normais, outros são feitos de coisas surreais – como o diário que uma cliente tinha aos 14 anos. E alguns clientes são… zumbis. E o All-Night quer revolucionar o comércio.

 Zombie Land (…) Zombie churches with AA meetings for zombies, down in the basements, every Thursday night.

😀

Um dos melhores contos do livro é Catskin, e talvez eu tenha começado a ler com uma pontinha de boa vontade adicional, porque trata de gatos, bruxas e uma vingança. Outro conto muito bom é The Great Divorce. Vivos se casam com mortos e se reproduzem, mas não conseguem vê-los. Assim, eles comunicam pelo copo, pelos Ouija Boards, e por médiuns. E bem, esse casal quer o divórcio, então eles vão à Disneyland para se encontrar com uma médium. 😀

Mas o melhor conto do livro é, sem dúvida, Magic for Beginners. Um show de TV pirata, que ninguém sabe quem são os atores ou produtores, e cinco adolescentes que o assistem obsessivamente. E claro, o momento em que as duas coisas se misturam.

The Library is a pirate TV show. It’s shown up once or twice on most network channels, but usually it’s on the kind of channels that Jeremy thinks of as ghost channels. The ones that are just static, unless you’re paying for several hundred channels of cable. There are commercial breaks, but the products being advertised are like Euphoria. They never seem to be real brands, or things that you can actually buy. Often the commercials aren’t even in English, or in any other identifiable language, although the jingles are catchy, nonsense or not.

O último conto, Lull, também é excelente, mas não consigo falar nada sem spoilear! 😉

Gostei muito do realismo mágico do livro. A sensação é de se estar lendo uma pintura impressionista, onde tudo é real e de acordo com as “regras” do mundo em que vivemos até o momento em que não é. Definitivamente lerei os outros livros (também de contos) dela, e recomendo fortemente este!