José Mauro de Vasconcelos — O Veleiro de Cristal

Desafio 2015: Livro ambientado em um lugar que você queira visitar


Ana,

No início da minha adolescência, eu relia muito (sim xD) O Veleiro de Cristal e O Menino do Dedo Verde, então fiquei na dúvida de qual deles reler pro desafio do ano passado — e que acabei não postando.

(note to self: ainda quero reler O Menino do Dedo Verde)

Apesar de ter relido esse livro várias vezes naquela época, eu não lembrava nada da história além de uma parte em que o  menino fica preso numas cordas no quintal, então foi como ler um livro novo. Devemos lembrar que é um livro voltado pro público juvenil e, dito isso, tenho duas críticas,

a) à linguagem; b) à pieguice.

A linguagem usada no livro, e pelos personagens, é muito formal e deixa tudo muito artificial. E, também por causa disso, o livro tem umas partes mega bregas e melosas (e também um tanto artificiais).

O personagem principal é Eduardo, um menino de 13 anos que nasceu com espinha bífida e hidrocefalia. Sua família deixa claro que não gosta dele e o quão seus outros dois irmãos são perfeitos e lindos e etc. Ele é cuidado por sua tia Anna (rá!), a quem é muito apegado. A tia é muito bonita, bondosa e rica (olha aí uma das artificialidades), e ama o menino como se fosse seu filho.

Eduardo precisa fazer uma cirurgia muito delicada no coração, e a tia o leva pra passar uns dias na casa de praia de um amigo antes da operação. É lá que ele conhece um sapo chamado Bolitrô (de Bolitreau), uma coruja empalhada aficcionada por assuntos mórbidos e um tigre chinês de bronze, Gakusha.

O livro é curtinho, triste e, embora não me arrependa de ter relido, acho que ele era muito maior e mais complexo (e também mais triste) na minha pouca lembrança dele. Desde essa época eu tinha vontade de ler outras coisas do autor, mas acho que a vontade passou.

-Anna

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Desafio Literário 2013/ 2014 – Abril

E depois de muitos debates via e-mail, “o que é que a gente disse que era futurismo mesmo?” (Resposta: livros ambientados no futuro, dãã), vamos ao desafio de abril!

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana vai ler Uglies, de Scott Westerfeld

Anna vai ler A Morte da Luz, de R. R. Martin

Desafio Literário 2013/ 2014 – Março

Um desafio mais fácil (esperamos), depois da dureza que foi o mês passado! 😀

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana vai ler Tanto faz, de Reinaldo Moraes

Anna vai ler A mulher que escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar

Paulo Coelho – O Alquimista

Anna,

Quando eu era adolescente, minha avó comprou alguns livros do Paulo Coelho, provavelmente através do saudoso Círculo do Livro. Lembro que comecei a ler “Às margens do rio Piedra eu sentei e chorei”, achei intragável e desisti. Peguei “Brida” e não passei da quinta página. Isso porque eu era uma adolescente que engolia livros – se tivesse de bobeira, até bula de remédio eu lia, avidamente. Então criei um enorme preconceito contra Paulo Coelho, e este foi o primeiro (e último) livro dele que li de cabo a rabo. Confesso que escolhi “O Alquimista” para o desafio de fevereiro porque era um dos menores!

Malala também me influenciou na escolha:

Someone gave me a copy of The Alchemist by Paulo Coelho, a fable about a shepherd boy who travels to the Pyramids in search of treasure when all the time it’s at home. I loved that book and read it over and over again. ‘When you want something all the universe conspires in helping you achieve it’, it says. I don’t think Paulo Coelho had come across the Taliban or our useless politicians.

Pensei em desistir já na segunda página. Isto é o autor falando (na introdução), antes de começar o livro propriamente dito:

Em 1981 conheci RAM e o meu Mestre, que iria conduzir-me de volta ao caminho que está traçado para mim. E enquanto ele me treinava em seus ensinamentos, voltei a estudar Alquimia por minha própria conta. Certa noite, enquanto conversávamos depois de uma exaustiva sessão de telepatia, perguntei porque a linguagem dos alquimistas era tão vaga e tão complicada.

– Existem três tipos de alquimistas – disse meu Mestre. – Aqueles que são vagos porque não sabem o que estão falando; aqueles que são vagos porque sabem o que estão falando, mas sabem também que a linguagem da Alquimia é uma linguagem dirigida ao coração, e não à razão.

– E qual o terceiro tipo? – perguntei.

-Aqueles que jamais ouviram falar em Alquimia, mas que conseguiram, através de suas vidas, descobrir a Pedra Filosofal.

Repito: isso é o autor falando DA VIDA REAL. Não uma história metafórica (que será o resto do livro). A perspectiva de perder algumas horas da minha vida lendo esta “obra” foi cruel.

O livro conta a história de um ex-seminarista em Andaluzia que decidiu virar pastor para ver o mundo. Em um sonho, ele aprende que deve ir até as pirâmides do Egito para encontrar um tesouro. Ele desiste da ideia, mas acaba encontrando o rei de Salém, que explica ao pastor que ele precisa continuar cumprindo sua Lenda Pessoal (aquilo que você sempre desejou fazer, mas ao longo da vida foi acreditando na ideia de que era impossível). E ele manda a citação clássica de Paulo Coelho:

“E quando você quer alguma coisa, todo o Universo conspira para que você realize seu desejo”.

Vendo pelo lado positivo, pelo menos Paulo Coelho não me fez ler o livro inteiro até chegar na citação clássica! (É, Sartre, estou olhando pra você). Mal eu sabia que ele iria repetir esta frase à exaustão.  O pastor vende suas ovelhas – ele acha imediatamente um comprador, porque o universo quer que você viva sua Lenda Pessoal, lembra? Ele vai pra África, é obviamente roubado, passa um ano trabalhando para uma loja de cristais, fazendo-a prosperar, e volta ao seu caminho até o Egito. Insira várias pseudofilosofias aqui. Antes de atravessar o deserto, conhece um inglês que está indo ao Egito em busca de um alquimista famoso.

“Tudo na vida são sinais – disse o Inglês, desta vez fechando a revista que estava lendo. O Universo é feito por uma língua que todo mundo entende, mas que já se esqueceu. Estou procurando esta Linguagem Universal, além de outras coisas […. ] “Pressentimentos”, como sua mãe costumava dizer. O rapaz começou a entender que os pressentimentos eram os rápidos mergulhos que a alma dava nesta corrente Universal de vida, onde a história de todos os homens está ligada entre si, e podemos saber tudo, porque tudo está escrito.

Quando eu (a duras penas) cheguei à metade do livro, achei que já estaria acostumada à breguice. GRANDE ERRO. O ex-pastor, quando tenta ajudar o Inglês a encontrar o Alquimista, pergunta a uma moça e….

“Então foi como se o tempo parasse, e a Alma do Mundo surgisse com toda a força diante do rapaz. […] Ali estava a pura linguagem do mundo, sem explicações, porque o Universo não precisava de explicações para continuar seu caminho no espaço sem fim. Tudo o que o rapaz entendia naquele momento era que estava diante da mulher de sua vida, e sem nenhuma necessidade de palavras, ela devia saber disto também [….] E o rapaz ficou por muito tempo sentado ao lado do poço, entendendo que algum dia o Levante havia deixado em seu rosto o perfume daquela mulher, e que já a amava antes mesmo de saber que ela existia, e que seu amor por ela faria com que encontrasse todos os tesouros do mundo”.

Quanta baranguice! Mas, hey! Não mude de canal! O rapaz encontra o Alquimista, se mete numa enrascada por ter “previsto” uma guerra e fica de mimimi porque não quer sair para ir até às pirâmides, deixando sua amada. Mas ele precisa viver sua Lenda Pessoal, então….

“Se o que você encontrou é feito de matéria pura, jamais apodrecerá. E você poderá voltar um dia. Se foi apenas um momento de luz, como a explosão de uma estrela, então não vai encontrar nada quando voltar. Mas terá visto uma explosão de luz. E só isto já valeu a pena”.

E, se você ainda não botou os bofes para fora:

“Ninguém consegue fugir do seu coração. Por isso é melhor escutar o que ele fala. Para que jamais venha um golpe que você não espera […] De noite, o rapaz dormiu tranquilo, e quando acordou, o seu coração começou a lhe contar as coisas da Alma do Mundo. Disse que todo homem feliz era um homem que trazia Deus dentro de si. E que a felicidade poderia ser encontrada num simples grão de areia do deserto, como o Alquimista havia falado. Porque um grão de areia é um momento da Criação, e o Universo demorou milhares de milhões de anos para criá-lo [….] O rapaz entendeu seu coração a partir daquele dia. Pediu que nunca mais o deixasse. Pediu que, quando estivesse longe de seus sonhos, o coração apertasse no peito e desse o sinal de alarme. O rapaz jurou que sempre que escutasse este sinal, também o seguiria.”

Para finalizar, Paulo Coelho faz a pior cópia da fábula da formiga e a neve que eu já tive o desprazer de ler. Chega a ser mais vergonhoso do que o resto. E a conclusão da ~saga~ é de matar. Vou contar porque não estou nem aí para espoilear, espero que você nem os nossos 1,3 leitores nunca cheguem perto desse livro. Após perder pela terceira vez seu dinheiro, o capitão da tropa que o espancou diz: sonhei que devia ir até os campos da Espanha (insira descrição da terra do pastor) e encontraria um tesouro. Mas não sou estúpido de cruzar um deserto só porque tive um sonho repetido. Aí o pastor volta para a Espanha, pega o tesouro, e volta de novo pra África atrás da mulher.

Não acredito que perdi meu tempo lendo esta porcaria. O preconceito não apenas foi justificado: ele foi reforçado pela leitura. O Alquimista foi facilmente um dos piores livros que já li na minha vida. Brega, repleto de filosofia barata, previsível…. e pensar que este é um autor cultuado por meio mundo. COMO?

– Ana