Ondjaki – A Bicicleta que Tinha Bigodes

Ana,

Li um pouco antes do feriado de Carnaval o livro A Bicicleta de Tinha Bigodes, de Ondjaki. É um livro fininho, rapidinho de ler (li na ida e na volta do trabalho e da academia, em quatro viagens de ônibus #diferenciada). É um livro com as mesmas características dos livros anteriores: uma escrita fluida, uma história linda e um narrador queridíssimo.

Só que dessa vez o livro não é mais um livro infantil para adultos, ele é direcionado justamente para o público infantil. Por isso, temos direito a sonhos de ganhar uma bicicleta com as cores da bandeira de Angola no concurso nacional para dividir com os amigos, enterro de sapos, comida de vó, uma visão mágica da realidade e até uma carta endereçada ao Camarada Presidente. E a importante descoberta de que meninas gostam tanto de andar de bicicleta quanto os meninos! 😀

E não temos como não nos apaixonarmos pelo Tio Rui, o escritor da rua de “livros bem internacionais” que tem um bigode onde ficam presos restos de letras e acentos brilhantes e que sua mulher tem que toda noite recolher e guardar numa caixa.

Preciso nem dizer que TEMQUE ler, né? 😀

PS: comecei a ler logo depois dA Bicicleta… o livro Quantas Madrugadas tem a Noite, que eu sempre fui louca pra ler (também do Ondjaki), mas, por algum motivo, a leitura não fluiu 😦 Mas ele está quietinho na prateleira, uma hora chega a vez dele 😀

Ondjaki – Bom Dia Camaradas

Anna,

como você percebeu pela minha resenha anterior, apaixonei-me pelo Ondjaki. Por isso resolvi ler outro dele! 🙂 E já quero ler o Agualusa também…

De novo, o autor trata de memórias da infância em Luanda, durante a guerra civil angolana.

“Então também percebi que, num país, uma coisa é o governo, outra coisa é o povo”. 

O menino, que claramente é de classe média, descobre as desigualdades. Enquanto os professores cubanos ficam perplexos com a abundância de comida, com crianças usando “sofisticados” relógios de pulso, o menino fica surpreso com a tia de Portugal que trouxera tantos presentes. Como ela conseguiu comprar tantas coisas? Como não há “cartão de abastecimento” (de racionamento, em português claro) em Portugal? Então as pessoas em Portugal vão às lojas e compram o que querem?

Pouco a pouco, o cenário de Angola vai se infiltrando na trama. Da praia que só pode ser usada por soviéticos ao forte esquema de segurança para o presidente, passando pelo “Caixão Vazio” (que não posso dizer o que é! :D) e pelos os comícios, Ondjaki nos força a lembrar que o menino, apesar de tudo, vive em um país em guerra.

“Mas quando, por exemplo, o presidente sai ao domingo, vai a casa de algum amigo, já não leva a polícia, às vezes até vai a pé – ela estava mesmo a falar sério, isso é que me deixou impressionado.

– O vosso presidente anda a pé? – até desatei de rir. – Epá, tenho que contar essa aos meus colegas!, ainda querem estigar os presidentes africanos… Presidente em África, tia, só anda já de mercedes, e à prova de balas.”

É sempre triste ver que uma guerra está sempre tão infiltrada na vida das crianças da região, por mais suave e belo que seja o texto.

“Guerra também aparecia sempre nas redacções, experimenta só mandar um aluno fazer uma redacção livre pra ver se ele num vai falar da guerra, até vai já aumentar, vai contar a estória do tio dele […]. Guerra vinha nos desenhos (as akás, os canhões monacaxito), vinha nas conversas (“tou a dizer, é verdade…”), […] vinha nos anúncios da tv (“ó Reagan, tira a mão de Angola…!”), e até vinha nos sonhos (“dispara, Murtala, dispara porra!”)

O menino cresce com tudo isso. Ao terminar o livro, fiquei de novo com aquela sensação de coração quente, de quase saudade de um personagem.

E como já é regra em resenha de livros angolanos, há que se falar sobre o idioma, um português tão mais lindo e sonoro. Adorei não somos só nós que nos deparamos com uma barreira idiomática! 🙂

 “- Mas espera… Vou te contar já outras estórias mais quentes…

– Mais “quentes”? – esse era o problema de falar com pessoas de Portugal, havia palavras que eles não entendiam.”

Ondjaki – Os da minha rua [2]

Estamos inaugurando a tag “Eu também li”, já que tanto eu como a Ana temos lido livros que a outra leu e recomendou enfaticamente (geralmente com uma ligação ameaçadora de “para o que tá fazendo agora e vai ler”, que só não pode ser obedecida no único caso de estarmos passeando com nossas gatas). E poderá acontecer também de uma ler um livro que a outra já leu no passado (e que poderá ser resenhado ou não), então ela (a tag) será bem usada por aqui! =D

Ana, eu liiiiii!

Gente, que lindeza! Os da minha rua me lembrou muito, muito o Bom dia camaradas, eu ficava recordando passagens do livro e de novo me emocionando!

Só tenho superlativos pra falar dele. Os contos são de uma doçura, de uma graça que fazem a gente rir ou chorar, não tem jeito. A escrita do Ondjaki dá uma inveja dessa infância cheia de amigos e cheiros e sentimentos.

Ah, e eu tenho uma história pra contar de porquê da minha curiosidade inicial com a literatura angolana 😛

Quando eu era criança, não sei em que série, no meu livro de Português tinha a história de uma menina chamada Luanda que morava em Luanda. Eu estava numa série bem inicial mesmo, o livro tinha ilustração e usava palavras bem sonoras pra chamar atenção (acho que por isso que a menina tinha o mesmo nome da cidade). Só que a Luanda dela era meio que uma vila — gente preconceituosa, né — tão bonitinha, tão tudo-bem-tudo-certo, tão feliz, e ela tinha amigos e um cachorro e tinha umas palmeiras em Luanda e ao mesmo tempo tinha praia. Eu não lembro nadica da história, mas lembro dos desenhos e do sentimento que eles e ela me davam. Acho que daí eu criei uma lembrança sentimental com Angola (que se confundia com a cidade, porque pra criança é tudo amesma coisa). E a literatura angolana (ou, pra ser mais precisa, esses dois escritores angolanos, Ondjaki e Agualusa) tem reforçado bastante essa identificação. Tou achando bem legal 🙂

Ondjaki – Os da minha rua

Anna,

O primeiro livro em português que leio para o desafio! Os da minha rua é um livro de contos sobre a infância em Angola. De um adulto relembrando sua infância, melhor dizendo.

A primeira diferença que noto, e que me encanta: as palavras. O idioma é português, mas português de Angola. Não é refrigerante, é gasosa. Não nos machucamos, magoamo-nos (um bocadinho). Está mais próximo do português de Portugal – às vezes “ouvia” minhas primas e tia falando no texto. É fixe!

A primeira vítima [dos “tiros” de tremoço] foi a minha irmã, a segunda foi uma velha que estava lá sentada e que era muda. Fiquei todo satisfeito porque pensei que ela não fosse me queixar. Mas era uma velha queixinhas e meu pai pôs-me de castigo. 

❤ ❤ ❤ Uma velha queixinhas, Anna!

E um verbo maravilhoso: “matabichar”.

 A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um mais-velho a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar.

Fiquei pensando muito no que dizer sobre o livro, já que não há “enredo” pra contar. A sensação que tive depois de ler cada conto era de coração bom. Sabe, aquela sensação depois que você conversa por horas com uma pessoa “do bem”, que passa uma energia bacana, mesmo que às vezes triste? (Eu sei que tá soando hippie, mas me deixa). Um sorriso grande e, às vezes, uma vontade de abraçar a criança que conta a história.

Nas despedidas acontece isso: a ternura toca a alegria, a alegria traz uma saudade quase triste, a saudade semeia lágrimas, e nós, as crianças, não sabemos arrumar essas coisas dentro do nosso coração.

O conto “o portão da casa da tia rosa” (assim, em minúsculas) merece destaque. É lindo. Quando terminei de ler, voltei e reli. E vou ler algumas vezes mais, tenho certeza.

E o conto “palavras para o velho abacateiro”  tem uma frase de…. oito páginas e meia. 🙂  E no meio dessas oito páginas e meia:

[a avó dizia] que o futuro não era uma coisa invisível que gostava de ficar muito à frente de nós mas antes [….] um lugar aberto, uma varanda, talvez uma canoa onde é preciso enchermos cada pedaço de espaço com o riso do presente e todas, todas as aprendizagens do passado, que alguns também chamam de antigamente

Alguns contos arrancaram lágrimas. Não, não estou particularmente emotiva. É só um livro muito bonito mesmo.

E a carta ao final do livro o resume, com muito mais propriedade que o meu falatório:

Tratas de antigamente com a doçura necessária. As palavras estão limpas e lêem as linhas da cidade atentas já aos grandes ruídos. […] Teu livro dá conta de como crescem em segredo as crianças.”