Art Spielgeman — Maus

Desafio 2015: Livro com personagens não humanos


Ana,

Eu já havia lido Maus (rato, em alemão) havia um tempo, em scan, e resolvi reler depois de ter comprado um volume físico.

A graphic novel surgiu quando o autor resolveu contar a história do seu pai, um judeu polonês sobrevivente do holocausto nazista. No livro, os vários grupos étnicos são retratados como animais: os judeus são mostrados como ratos; os alemães são gatos; os franceses (como a esposa do autor), sapos; os poloneses, porcos; os ingleses como peixes; os ciganos como traças; e os americanos, cachorros.

Como todo relato de guerra, Maus não é fácil de ler e algumas passagens são muito, muito tristes. Eu me emociono toda vez que lembro do amigo do pai do autor que, no campo de concentração, usava um sapato maior que os próprios pés e tinha perdido o cinto e a colher, e por isso tinha que ficar tentando se fazer imperceptível para os nazistas, ou apanhava 😦 (eu me ~emociono~ agora, mas quando tava relendo quase morro de tanto chorar).

O bacana é que o livro mostra tanto as memórias narradas pelo pai quanto a relação atual (na época) nada fácil  entre ele e o filho. Acho que tenho uma vaga lembrança de já termos falado sobre Maus, então imagino que você já tenha lido. Ele, com certeza, tá entre os meus livros favoritos de todos os tempos 🙂

–Anna

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Keiji Nakazawa – Gen, Pés Descalços

Ana,

comecei a ler Gen, Pés Descalços depois de ouvir esse podcast. Como o mangá era o único dos citados que eu nunca tinha lido (#modéstia #seacha) e como eu li pouquíssimos mangás na vida — tão poucos que nem lembro de outros de cabeça —, resolvi testar essa ~novidade~

E por falar em novidade: eu nunca tinha lido nada em tantos volumes. São 10, d-e-z, tomos, e até hoje eu me pego na dúvida se li tudo porque gostei ou por TOC de começar a coleção e não terminar (eu tenho pavor de coisas em volumes. Pavor. Só comprei o Watchmen depois que eles lançaram a edição em volume único — a anterior eram 12 revistas — e acho que a s únicas coisas que eu assisti até hoje em mais de um volume foram Star Wars LOTR. Tenho os quatro volumes de Do Inferno, do Alan Moore, e ainda não me dignei a ler). E foi uma novela pra encontrar tudo. A Conrad só lançou no Brasil até o vol. 6 e em toda a Internet eu só consegui achar os quatro primeiros digitalizados (como que uma publicação lançada na década de 1970, com filme, ópera e musical baseados nela, é tão difícil de encontrar na rede?). Resultado: os quatro primeiros volumes eu li on-line e comprei dois na Estante Virtual em português e o restante na Amazon, traduzidos para o inglês pelo Projeto Gen.

Gen Nakaoka vive com os pais e cinco irmãos em Hiroshima, e tinha seis anos quando a cidade é destruída pela bomba atômica, em agosto de 1945. Ele perde o pai e dois irmãos na tragédia, um dos outros irmãos é mandado para a Marinha japonesa e a mãe e uma irmã acabam por morrer mais tarde devido a doenças relacionadas à bomba. A história vai ficando melhor de volume pra volume, mas ainda assim não é uma história fácil.

Gen é altamente autobiográfico. Aliás, é classificado como autobiografia, apesar de não ser fiel. Nele são mostrado os horrores da guerra e a forma cruel com as decisões de governos e impérios afeta a vida da população. Gen é um personagem muito otimista (sério, até irrita tanto always look to the bright side of life), mas não deixa de sofrer com a destruição da própria vida. O medo da morte e a perda de pessoas queridas está sempre presente, e Gen acaba por ser uma história muito violenta. Crianças apanham dos pais (o próprio Gen era amarrado pelo pai e espancado, mas isso não era visto como violência e sim como correção) e de professores, as cenas horrorosas do incidente com a bomba e de pessoas deformadas e morrendo são sempre recorrentes, pessoas querendo tirar proveito uma das outras mesmo nas piores situações e o governo americano (e antes disso as forças armadas japonesas) sacaneando o povo são exemplos que te deixam com um nó na garganta frequentemente.

Depois de cinco meses e 2500 páginas (hooray!), a mensagem que Gen me deixou é que a intenção do autor era a de  fazer um manifesto a favor da paz e contra guerras e governos. E, como o pai de Gen não cansava de repetir, devemos ser como o trigo, que mesmo pisoteado, batido e queimado pelo sol e pelo gelo, sempre renasce forte e pronto pra dar frutos — o que cai como uma luva quando pensamos na história de Hiroshima e Nagasaki.

John Boyne – O menino do pijama listrado

Anna,

Sempre quis ler este livro. Sempre adiei, porque seria uma leitura muito triste. Então descobri que este livro tinha sido adaptado para o cinema! Problem solved. (Não, eu não vi o filme 😛 #picaretaprofissional)

O menino do pijama listrado, uma fábula sobre a Segunda Guerra Mundial, está na sua categoria “triste e lindo”. O livro, curtinho, conta a história de Bruno, um menino de nove anos que mora em Berlim com seu pai (comandante da SS), sua mãe, sua irmã Gretel e com os criados. O pai, depois de receber o “Fúria” e Eva para um jantar, é transferido para comandar um campo de concentração na Polônia, “Haja-Vista” (Auschwitz).

Bruno odeia a mudança. Ele sente falta dos amigos, da avó, de ter o que fazer. E, do seu quarto, pode ver uma cerca imensa, e várias pessoas que estão sempre de pijama listrado. E resolve explorar Haja-Vista. Do outro lado da cerca, ele conhece Shmuel, que nasceu no mesmo dia que Bruno. E claro, eles viram amigos. Bruno não tem ideia da guerra, de quem é o Fúria, nunca ouviu falar de judeus e acha que “Heil Hitler” é apenas um jeito educado de se despedir dos amigos do pai. Bruno faz um amigo e, pelo que ele pode entender, a situação de Shmuel é a mesma que a sua: foi forçado a sair de sua confortável casa para um lugar estranho sem receber nenhum tipo de explicação.

Não quero fazer spoiler. Mas é óbvio que esta história não vai terminar bem, né?

Muita gente critica o livro por não ser realista – o filho de um comandante da SS não saber falar “Führer” e “Auschwitz”? “Fury” e “Out-With” não soam nada parecido com a pronúncia alemã destas palavras. Não saber do anti-semitismo, especialmente após seu pai lhe explicar que as pessoas do outro lado do mundo “não são pessoas no sentido que entendemos o termo”? E um frágil garoto judeu de 9 anos sobreviver mais de um ano em um campo de concentração? Claro, todas estas críticas são extremamente pertinentes –  e coisa de gente bem tchata que não captou que o livro é uma fábula, não “O Diário de Anne Frank”.

Não me incomodei com a inocência de Bruno. Na verdade, logo no começo do livro aceitei facilmente a ideia de que ele e a irmã eram completamente protegidos deste tipo de informação, o que não é raro. Li de uma só sentada e recomendo fortemente a leitura!