Kurt Vonnegut – Slaughterhouse Five

Anna,

Para o desafio deste mês, resolvi ler um livro que estava na minha to-read há anos. Em Slaughterhouse Five, um ex-soldado da Segunda Guerra Mundial (Kurt Vonnegut, que realmente foi um prisioneiro de guerra em Dresden no matadouro 5, segundo a Wikipedia) tenta escrever um livro sobre o trágico e criminoso bombardeio de Dresden – que aliás disputa com Nuremberg o título de cidade mais triste que já vi na vida, ainda que lindas. Ao escrever o livro, acaba escrevendo a história de Billy Pilgrim, um veterano da guerra que “destravou no tempo”.

Ao ler um livro sobre viagens no tempo, a primeira coisa que quero saber é qual a teoria que o autor usa, e quão coerente ela me parece. Slaughterhouse Five adota a mais simples: o presente, passado e futuro são imutáveis, e ao viajar no tempo você não se vê à distância, mas assume seu corpo no futuro/passado.

Billy has gone to sleep a senile widower and awakened on his wedding day. He has walked through a door in 1955 and come out another one in 1941. He has gone back through that door to find himself in 1963. He has seen his birth and death many times, he says, and pays random visits to all the events in between. He says. Billy is spastic in time, has no control over where he is going next, and the trips aren’t necessarily fun. He is in a constant state of stage fright, he says, because he never knows what part of his life he is going to have to act in next

Billy destravou no tempo pela primeira vez durante a Segunda Guerra, e foi sequestrado por alienígenas de Tralfamadore em 1967, onde foi exibido em um zoológico. Em Tralfamadore, Billy entende a natureza de suas viagens no tempo e aprende que a ideia de passagem de tempo nada mais é do que uma ilusão causada pela nossas limitações sensoriais.

Billy Pilgrim says that the Universe does not look like a lot of bright little dots to the creatures from Tralfamadore. The creatures can see where each star has been and where it is going, so that the heavens are filled with rarefied, luminous spaghetti. And Tralfamadorians don’t see human beings as two-legged creatures, either. They see them as great millepedes – “with babies’ legs at one end and old people’s leg at the other”, says Billy Pilgrim.

A história de Billy é contada como ele a viveu: indo e vindo no tempo. Embora o foco seja realmente a Segunda Guerra Mundial, uma hora estamos lendo sobre seu aniversário de casamento, e no parágrafo seguinte estamos lendo sobre a vida antes da guerra. Achei esta estrutura narrativa genial, porque você realmente começa a achar que a linearidade temporal é irrelevante, e passa a encarar a vida de Billy como os Tralfamadorianos encaram o tempo: uma paisagem, com vários pontos a serem observados e alguns a serem ignorados.

Detalhe irrelevante que eu amei: um livro ótimo mencionado em Slaughterhouse Five é “The Gospel from Outer Space”, que conta a história de um ET vindo à Terra para tentar entender porque os cristãos achavam tão fácil ser cruel. Ele concluiu que o problema estava no Novo Testamento, que ensinava as pessoas a serem bondosas a todos, mas que na verdade passava a seguinte mensagem: “antes de matar alguém, tenha certeza absoluta de que este alguém não tenha bons contatos”. O tal ET resolve então escrever um evangelho no qual Jesus não é filho da criatura-mais-importante-do-universo, passa as mesmas mensagens bacanas, é crucificado e Deus surge entre as nuvens dizendo que aquele zé-ruela que vocês acabaram de crucificar vai julgar todo mundo! Hahahaha! Queria poder ler esse livro! 😀 Outro muito bom, do mesmo “autor”:

Trout, incidentally, had written a book about a money tree. It had twenty-dollar bills for leaves. Its flowers were government bonds. Its fruit was diamonds. It attracted human beings who killed eachother around the rots and made very good fertilizer

O livro é bem gostoso de ler, embora tenha um detalhe irritante: cada vez que alguém morre, o autor fala “So it goes”, para lembrar que a pessoa sempre morreu naquele momento e está viva em todos os outros. As primeiras dez vezes são legais… 😀 Mas não deixe que este detalhe desencoraje a leitura! 🙂

– Ana

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Isaac Asimov – O fim da eternidade

Ana,

Asimov é um autor que sempre esteve na minha lista de leituras mas que eu nunca parei realmente pra ler até agora, mas com certeza vou ler mais algo dele, além desse O Fim da Eternidade.

Andrew Harlan, o personagem principal, é um Eterno (não um imortal, “Eterno” são os que vivem na Eternidade, uma organização que existe fora do tempo e que controla as várias realidades no nosso mundo). Ele trabalha com mudanças temporais que controlam extremamente a realidade através dos séculos, evitando guerras e até mesmo grandes avanços científicos que possam não ser tão benéficos pra humanidade — como as próprias viagens no tempo (!) — e para tanto se utilizam da viagem no tempo. Durante tais viagens, a presença de um Eterno deve acontecer em lugares e tempos que não comprometam a Realidade e cause qualquer mudança que não seja bem-vinda. Em outros casos, tais mudanças podem até mesmo destruir milhões de vidas.

Na Eternidade não havia Tempo com o sentido comum do Tempo do universo exterior, mas os corpos dos homens ficavam mais velhos, e esta era a medida inevitável de  Tempo, mesmo na ausência de fenômeno físico significativo.

(…)

Ele detinha o destino de milhões na ponta dos dedos, e se alguém devia caminhar solitário por causa disso, podia também caminhar com orgulho.

Não é difícil perceber logo de cara que só existem homens Eternos (Tempistas, Aprendizes, Observadores, Técnicos, Computadores e Especialistas). E eu faço essa observação não por feminismo barato, mas por que é interessante observar como as mulheres são retratadas no romance (todos os destaques são meus):

No Tempo, elas [as mulheres] eram apenas objetos, como paredes e bolas, ancinhos e carrinhos de mão, gatinhos e mitenes. Eram fatos a serem Observados.

(…) A Eternidade sempre estivera consciente da necessidade de compromisso com os desejos humanos, mas as restrições envolvidas na escolha das amantes tornavam o compromisso qualquer coisa que não vago, qualquer coisa que não liberal. E daqueles que tinham sorte suficiente para qualificar-se para tais arranjos, esperava-se, além de decência comum e consideração pela maioria, que fossem muito discretos a respeito. Entre as classes inferiores dos Eternos, particularmente entre a Manutenção, sempre havia rumores de mulheres importadas para as finalidades óbvias.

Menos sensacionais eram as estórias sobre funcionárias Tempistas que todos os Setores engajavam temporariamente para desempenhar as tediosas tarefas de cozinhar, limpar e o serviço pesado.

É interessante observar também a repulsa que Harlan tem por mulheres, ficando completamente desestabilizado na presença de uma.

Ele encontrou a garota num corredor, certo dia, e ficou de lado, de olhos desviados, para deixá-la passar.

Contudo, Harlan acaba visitando um século onde há uma espécie de aristocracia feminina, o século 482.

O século 482 não lhe era confortável. Não era como seu próprio século natal, rigoroso e conformista. Era uma época sem éticas ou princípios, como aqueles que estava acostumado a imaginar. Era hedonista, materialista, mais que um pouco matriarcal. Era a única época na  qual florescia nascimento ectogênico e, no máximo, quarenta por cento de suas mulheres davam à luz eventualmente, simplesmente acrescentando um óvulo fertilizado ao ovário. O casamento era feito e desfeito por mútuo consentimento e não era reconhecido legalmente como qualquer coisa mais do que um acordo pessoal sem força  de ligação. A união visando gravidez era, naturalmente, cuidadosamente diferenciada das funções sociais do casamento e arranjada sobre bases puramente eugênicas.

E é ironicamente — ou não — nesse século que Harlan se envolve com uma Tempista chamada Noÿs e que vai mudar toda a sua percepção de Realidade e Eternidade. Acontecem umas boas reviravoltas no enredo, e o livro vai ficando cada vez mais interessante (no início parecia que ia ser algo super tedioso, mas não!).

Com toda a questão das viagens no tempo, o livro nos mostra alguns paradoxos temporais típicos de tais viagens: o paradoxo da duplicação – quando Harlan quase se encontra consigo mesmo durante uma entrada na Realidade (dá pra super lembrar do De Volta Para o Futuro :P); quando a Eternidade envia Cooper ao passado, para que Cooper crie a Eternidade, para que a Eternidade envie Cooper ao passado (uma coisa meio o ovo e a galinha); e quando Harlan viaja no tempo para destruir a viagem no tempo (de novo De Volta Para o Futuro. Se eu voltar no tempo e matar o meu avô, eu deixo de existir?).

Livro super bom, o enredo que vai se tornando cada vez mais instigante e pela primeira vez na vida eu tive vontade de que um livro tivesse continuação (não gosto de livros em volumes, o único que li completo foi O Senhor dos Anéis) e, pelo que eu li, é considerado por alguns o melhor livro de Asimov! Série Fundação já tá toda no Kindle 😛

–Anna

Desafio Literário 2013/ 2014 – Agosto

Atrasamos como sempre, não falhamos como (quase) sempre! 😀

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana lerá Slaughterhouse 5, de Kurt Vonnegut.

Ana lerá O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov.

Charlotte von Mahlsdorf – I Am My Own Wife

Ana,

(fingindo que não sei que tô anos atrasada no post) quando a gente colocou a categoria autobiografia no desafio, o primeiro livro que me passou pela cabeça foi esse. Há alguns anos fui ao Teatro da Caixa assistir a uma peça chamada Eu Sou Minha Própria Mulher, não lembro se escolhi por causa do nome. A peça era um monólogo autobiográfico baseado na vida de Charlotte von Mahlsdorf (nascida Lothar Berfelde), alemã que fundou o Museu Gründerzeit, dedicado à coleções de objetos e móveis de uso doméstico.

Eu CHOREI que nem uma condenada a peça inteira (não lembro quem era o ator), e o livro foi parar na minha lista de to-read até esse mês (eu não sou muito proativa, é verdade), embora eu goste muito mais do nome dado à primeira edição, I Am My Own Woman 🙂

Charlotte era uma travesti, filha de nazista e vinda de um lar violento.

After their wedding, my parents moved into the upper floor of the cottage. It was a very unhappy marriage because my father was a brutal tyrant with a riding-crop mentality.

(…)

Even as a child I thought my father a fiend, although I was too young to know how brutally he was abusing my mother. (…) I recall him giving me a horrible beating over some trifle, screeching barrack obscenities all the while. When I cried, he roared “BOYS DON’T CRY!” and hit me harder. That was my father, Max Berfelde.

Apesar do pai – que Charlotte diz duvidar que tenha alguma vez notado que o filho era, na verdade, uma menina – ela encontrou apoio no tio, Josef Brauner, o mesmo que tinha criado sua mãe e dado todo o apoio pra família até a sua morte (ele inclusive nunca se opôs ao fato de Charlotte usar roupas femininas, e durante a ocupação nazista ia com ela até os locais de distribuição de roupas e alimentos e muito naturalmente pedia por casacos femininos ou saias pra sobrinha), e numa tia, lésbica e travesti, que morava numa fazenda. A mãe de Charlotte dizia “não concordar” com a filha, mas respeitar seus posicionamentos.

My aunt told me that from the first time she sat astride a horse when she was six years old, she knew she was a boy. She confessed this to her father who, without further ado, informed his surprised wife that Louise should really have been called Luis.

É muito bonito ver como os dois são aceitos e apoiados pela família, apesar de tudo. Não obstante, Charlotte foi obrigada pelo pai a entrar pra Juventude Hitlerista e, com a evacuação da cidade onde moravam, ela vai com a mãe e os irmãos pra longe do pai. Este, numa visita de Charlotte pra buscar algumas coisas em casa que eles precisavam, ameaça a menina a ficar com ele, dizendo que se ela não aceitasse, mataria toda a família. Charlotte, então, no meio da noite, mata o pai a pauladas (ela tinha só 15 anos!).

It was not, and could not have been, done in the heat of passon. I had resolved to act. I kenw there was no other choice. When the police came, I felt free in the knowledge that this monster could no longer hurt my mother. His murder was a kind of preventive “self-defense”.

O livro todo é muito sensível, e da mesma forma que Charlotte narra o assassinato do pai ou os episódios horrorosos da guerra, ela narra como começou sua coleção – que formaria o museu – e como encheu a casa do tio de cacarecos (hahaha), ou como andava quilômetros pra buscar um relógio ou pra encontrar quem consertaria um gramofone. Em muitos pontos há até uma certa graça nas coisas, como quando o tio chega em casa e Charlotte está vestida de empregadinha doméstica arrumando a casa, ou quando o professor de Educação Física pergunta porque ela não gosta das aulas e ela responde que “preferia estar em casa tirando o pó dos móveis”, atitudes até, de certa forma, ingênuas (e o tom não muda, seja falando de um sofá ou das festas BDSM que aconteciam no porão do seu museu :P).

I admit that is completely absurd to regret the destruction of a scalloped edge, but that’s how I am.

(…)
This house is my fate. It called out to me in its greatest need, and I was there for it. Here, my dream of having my own museum became reality. But more than that: this house is my home. Museusm guide, tenant, and housekeeper all in one, I have furnished the house the way a middle-class housewife would have furnished her home around 1900.

O livro é lindo, a história é emocionante e Charlotte decerto era uma vozinha muito querida (pelo menos é o que parece nas fotos dela :P). E, sobretudo, uma mulher forte, decidida e empoderada. Ela entrou definitivamente pra minha lista de seres humanos fabulosos! 🙂

Wil Wheaton – Just a Geek

Anna,

para o primeiro mês do Desafio 13/14, eu estava bem perdida. Não tinha ideia de quem queria ler (e só pensava na do Steve Jobs). Enquanto isso, tentava terminar um livro – que ainda não terminei. Então o email do Humble Bundle (com a autobiografia do WIl Wheaton para quem pagasse acima da média) foi quase um sinal do universo! 😀

Eu não gosto de Star Trek. Tentei, em diversos momentos, ver tanto a série original quanto TNG. Não deu. Eu sei que isso é uma falha na minha educação geek, mas sério, não dá. Oh, well. Mas eu gostava do Wil Wheaton por causa do ótimo blog – e depois Twitter, e  a hilária participação em The Big Bang Theory, quando TBBT ainda fingia ser nerd.

O livro começa da melhor maneira possível: Neil Gaiman (“If you are a true geek, I’m pretty much as cool as Patrick Stewart”) escreve o prólogo, e explica: “In an era of people blogging as pseudo-celebrities, this is the story of a celebrity blogging as a person”.

Se você for uma espécie de não nerd que não sabe quem é o Wil Wheaton, vamos lá: ele foi um ator mirim de grande sucesso, e interpretou Wesley Crusher em Star Trek: The Next Generation por quatro temporadas. E, no meio da angústia/rebeldia adolescente – e depois de uma convenção Trekkie com atores da série original que não fizeram absolutamente nada depois de Star Trek -, Wheaton decidiu largar o mega sucesso para se tornar um “famoso ator de cinema”. Como você nunca ouviu falar de um filme com ele, já sabemos que essa estratégia foi FAIL. O blog existe desde 2001, e trechos do blog ilustram parte da história, que abrange da sua saída de TNG até meados da década passada. Sim, bem antes de TBBT. 😀

When I was in drama school, I passed on several film opportunities, among them, Primal Fear. You may know it as the movie that started Ed Norton’s career. I know it as The Huge Opportunity That I Completely Fucked Up.

Basicamente, o livro conta a luta de Wheaton contra dois fantasmas que habitavam sua mente, Prove To Everyone That Quitting Star Trek Wasn’t A Mistake e a Voice of Self Doubt, enquanto ele batalhava para pagar as contas, indo a vários testes e nunca sendo chamado para nenhum papel.

But the insistent voice of the collectors was nothing compared to the Voice of Self Doubt and my good friend Prove To Everyone That Quitting Star Trek Wasn’t A Mistake. They were the real reason I went on the auditions, which didn’t result in any work, because the part I was “in the mix for” went to someone who was – wait for it – edgy, and the other was already cast when I got there

O livro é também a história de como ele se redescobriu – hoje, Wheaton é um escritor antes de ser um ator. E ele é ótimo!!! O livro é muito bem escrito. A leitura flui, e eu achei impossível desgrudar enquanto não terminei. Claro que parte disso pode muito bem ter sido a ENORME identificação com os fantasmas de Wil – e com a forma como ele lidou com eles -, mas o talento para uma escrita convincente e comovente é inegável.

“The deeper that sorrow carves into your being, the more joy you can contain”

 – Ana

Desafio Literário 2013/ 2014

Como prometido e muito antecipado em vários e-mails de “quais temas para o próximo desafio?”, chegou a hora do desafio 2013/2014! 🙂

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana lerá Just a Geek, de Wil Wheaton.

Ana lerá I’m My Own Woman, de Charlotte von Mahlsdorf.

José Saramago – Caim

Anna,

para o último mês do desafio, resolvi ler um livro que me foi muito recomendado…. por você! 😀 Estava “guardando” Caim justamente para o desafio, e me arrependi de não ter lido antes!

 A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.

Como o título já entrega, Caim conta a história de Caim (jura?), aquele que matou Abel, etc. Caim é protagonista (ou talvez “o mocinho”), e só matou o irmão porque Deus fez pouco-caso de suas oferendas. Deus o amaldiçoa, coloca uma marca em sua testa e condena Caim a uma vida de nômade.

 Estava claro, o senhor desdenhava Caim. Foi então que o verdadeiro carácter de Abel veio ao de cima. Em lugar de se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele, e, como se isto ainda fosse pouco, desatou a enaltecer a sua própria pessoa, proclamando-se, perante o atónito e desconcertado Caim, como um favorito do senhor, como um eleito de deus.

Caim viaja não apenas no espaço, mas também no tempo. Visita Abraão – aquele que ia matar o filho – e se envolve romanticamente com Lilith. Passeia pelo Jardim do Éden, Sodoma, Gomorra e a Torre de Babel. Conhece Lot e (a melhor parte) Noé e sua arca. E vai descobrindo que Deus é um tirano mimado e um tanto quanto incoerente (“o bandido”).

O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim.

Quem nunca leu Saramago (e como está perdendo quem nunca leu Saramago!) pode muito bem começar por Caim. A leitura é rápida e divertida, especialmente depois que você se (re)acostuma à pontuação inusitada. Isso, claro, se o leitor não for carola! 😀

 Quanto à mulher de lot, essa olhou para trás desobedecendo à ordem recebida e ficou transformada numa estátua de sal. Até hoje ainda ninguém conseguiu compreender por que foi ela castigada desta maneira, quando tão natural é querermos saber o que se passa nas nossas costas. É possível que o senhor tivesse querido punir a curiosidade como se tratasse de um pecado mortal, mas isso também não abona muito a favor da sua inteligência, veja-se o que sucedeu com a árvore do bem e do mal, se eva não tivesse dado o fruto a comer a adão, se não o tivesse comido ela também, ainda estariam no jardim do éden, com o aborrecido que aquilo era

Fazer esta resenha foi bem difícil. Eu queria simplesmente copiar os 100 trechos que destaquei durante a leitura, colar aqui e dizer para o nosso um leitor: “LEIA, olha só como é bacana, provocador, um tanto ofensivo, mas principalmente gostoso de ler!”. MAS, como a cara de pau ainda não chegou nesse nível…. fiz só quase. 😛

Ok, o livro não mudou minha vida/ a forma como penso sobre divindades em geral/ minha visão sobre o Antigo Testamento. Mas um livro não precisa mudar sua vida pra ser bacana! Concluo com uma reflexão de Caim:

Sempre ouvi dizer aos antigos que as manhas do diabo não prevalecem contra a vontade de deus, mas agora duvido de que as coisas sejam assim tão simples, o mais certo é que satã não seja mais que um instrumento do senhor, o encarregado de levar a cabo os trabalhos sujos que deus não pode assinar com seu nome.

– Ana