Ibn Warraq – Why I Am Not a Muslim

Desafio 2015: Livro que te dê medo


Anna,

No dia seguinte aos ataques ao Charlie Hebdo, decidi que ia largar de preguiça e finalmente leria Why I Am Not a Muslim. Tinha pensado vagamente em colocá-lo nesta categoria, mas não imaginava o quão adequada ela seria até ler o livro. E claro, ao ver as atrocidades recentes do Estado Islâmico e do Boko Haram, essa galera bacana.

It is very odd that when God decides to manifest Himself, He does so to only one individual. Why can He not reveal Himself to the masses in a football stadium during the final of the World Cup, when literally millions of people around the world are watching?

Como o nome diz (que sim, é uma homenagem ao Why I Am Not a Christian, do Bertrand Russel, que devemos resenhar, sério), o livro disseca o Islã, com o objetivo claro de contradizer cada um dos argumentos dos apologistas ocidentais. A maioria destes argumentos gira em torno da ideia de que o Islã é uma “religião de amor”, e que os terroristas não são verdadeiramente muçulmanos. AHAM.

Para provar seu argumento, Warraq passa quase metade do livro descontruindo as fontes do Islã, a começar pelo Corão. Fundamentalmente, como ele foi adaptado a partir de obras de outras religiões, sem trazer nenhuma novidade teológica relevante, como a narrativa do livro confunde Deus com Maomé em várias partes, e como algumas partes estão incompletas, precisando de comentários – o que refutaria a hipótese de “Palavra de Deus”.

The term “Islamic fundamentalist” is in itself inappropriate, for there is a vast difference between Christianity and Islam. Most Christians have moved away from the literal interpretation of the Bible (…) Thus we can legitimately distinguish between fundamentalist and nonfundamentalist Christians. But Muslims have not moved away from the literal interpretation of the Koran: all Muslims – not just a group we have called “fundamentalists” – believe that the Koran is literally the word of God.

Warraq também derruba os mitos que circundam a figura do profeta Maomé; esclarece longamente o funcionamento da lei islâmica, que não diferencia estado e religião e pretende controlar todos os momentos da vida do cidadão; e finalmente, explica o conceito de jihad.

The totalitarian nature of Islam is nowhere more apparent than in the concept of jihad, the holy war, whose ultimate aim is to conquer the entire world and submit it to the one true faith, to the law of Allah. To Islam alone has been granted the truth: there is no possibility of salvation outside it. It is the sacred duty – an incumbent religious duty established in the Koran and the traditions – of all Muslims to bring Islam to all humanity. (…) It is a grave sin for a Muslim to shirk the battle against the unbelievers – those who do will roast in hell.

O livro foi escrito em 1994. Vinte e um anos depois, ele continua adequado, mas parece delicado – o livro é uma resposta ao Khomeini e às críticas aos Versos Satânicos. Warraq não poderia prever o Estado Islâmico nem o Boko Haram; entretanto, ao ler o livro em 2015, você consegue entender bem as origens e a “lógica” que permitiu o surgimento de tais grupos.

Obviamente, esta resenha cobre apenas a ponta do iceberg que é o livro. Na segunda parte, Warraq argumenta sobre a incompatibilidade entre Islã e ciência e Direitos Humanos, explica a figura da mulher no Islã (você acredita que tem gente que tem a PACHORRA de chamar o Islã de sex-positive?), entre outros temas.

Women are considered inferior to men, and they have fewer rights and duties from the religious point of view. In regard to blood money, evidence, and inheritance, a woman is counted as half a man; in marriage and divorce her position is less advantageous than that of the man; her husband may even beat her, in certain cases.

Este foi um dos livros mais difíceis que já li. Passei mais de um mês lendo, na verdade, porque precisava parar e digerir certas coisas. O capítulo sobre as mulheres no Islã me embrulhou o estômago, literalmente. Não sei se exatamente recomendo a leitura completa, porque ele é desnecessariamente longo – faltou um editor que dissesse “você não precisa trazer cinco citações distintas sobre exatamente o mesmo ponto, amigo”. Mas já o considero um dos livros seminais em minha educação. Aprendi muito, muito mesmo. E perdi o que me restava de paciência com os que argumentam “ah, mas não são todos os muçulmanos que …”

– Ana

PS: Depois deste post e o do Hitchens, prometo dar um tempo em livros sobre religião :D

Mary Shelley – Frankenstein, ou o Prometeu Moderno

Ana,

Frankenstein sempre foi o meu monstro favorito da literatura — no conceito original de ser mítico, lendário e aterrorizante (o segundo favorito é o Monstro do Pântano do Alan Moore, seguido do Conde Drácula). E, se recorrermos ao livro, veremos que o personagem, apesar de muito pop, é quase que completamente diferente do que conhecemos.

O livro foi publicado quando sua autora, Mary Shelley, tinha apenas 19 anos e é considerado o primeiro livro de ficção científica da história (acho isso o máximo!). Apesar da autora ser tão jovem à época, o livro é permeado de influências e referências como John Milton e seu Paraíso Perdido (livro com o qual o monstro aprende ler, por exemplo — eu li na faculdade e achei difícil HAHA *xora*). Alguns aspectos do personagem enquanto ícone da cultura popular são desconstruídos durante a leitura:

1)  seu nome não é Frankenstein. Esse era o nome da família do seu criador, Victor Frankenstein. Em nenhum momento da obra é dado um nome à criatura — que é chamada assim mesmo, monstro, criatura, infeliz, demônio ou desgraçado.

2) não havia um ajudante de laboratório chamado Igor. Imagino que esse terceiro personagem tenha sido incluído quando passaram a ser feitos filmes sobre o monstro. Victor Frankenstein era um estudante universitário e até mesmo seu laboratório era improvisado, portanto não havia ajudante.

3) ele não era verde. Nem feio (intencionalmente). Blame it on popular culture. Victor procurou as melhores “peças”, por assim dizer, para fazer o seu homem perfeito. Da mesma forma, o monstro ele não era desajeitado, burro nem lento. Ele era uma versão melhorada (embora amarela) e quase graciosa de um ser humano comum

His limbs were in proportion, and I had selected his features as beautiful. Beautiful! Great God! His yellow skin scarcely covered the work of muscles and arteries beneath; his hair was of a lustrous black, and flowing; his teeth of a pearly whiteness; but these luxuriances only formed a more horrid contrast with his watery eyes, that seemed almost of the same colour as the dun-white sockets in which they were set, his shrivelled complexion and straight black lips.

Enquanto há a ideia corrente de que a criatura é praticamente descerebrada, no livro ele é altamente articulado, com um pensamento filosófico e existencialista elevado e fala com sotaque francês (por essa ninguém esperava =P). Há uma minissérie pra TV (Frankenstein, Kevin Connor, US, 2004) que segue bem de perto a história original — vale muito a pena ver — onde Luke Goss interpreta o monstro e, bem, já vi mais feios ;)

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A história é narrada pro Victor à Robert Walton, chefe de uma expedição ao Polo Norte que o encontra quase moribundo num trenó puxado por cães. Robert escreve frequentemente à sua irmã, e é nesse formato que o livro é escrito.

Victor Frankenstein era um estudante de Química e Ciências Naturais que fica obcecado pela ideia que seria possível, sim, gerar vida com o uso da eletricidade — já que ela não seria mais que resultado de impulsos elétricos orgânicos que poderiam ser recriados. Depois que consegue isso, ele se dá conta de que talvez não tenha sido a coisa certa a se fazer e abandona o monstro. Ele cai numa longa doença (o que acontece pelo menos três vezes durante o livro), onde tem pesadelos recorrentes em que é perseguido pelo monstro.

Um dia, já recuperado, ele recebe uma carta de seu pai contando que seu irmão mais novo foi assassinado. Victor já desconfia imediatamente do que possa ter acontecido e volta pra casa.

Nesse meio tempo, o monstro se virou como pode, aprendeu a ler e a falar e se deu conta da sua solidão e da natureza ruim do ser humano

Of what a strange nature is knowledge! It clings to the mind when it has once seized on it like a lichen on the rock. I wished sometimes to shake off all thought and feeling, but I learned that there was but one means to overcome the sensation of pain, and that was death—a state which I feared yet did not understand.

(…)

Increase of knowledge only discovered to me more clearly what a wretched outcast I was.

(…)

no Eve soothed my sorrows nor shared my thoughts; I was alone. I remembered Adam’s supplication to his Creator. But where was mine? He had abandoned me, and in the bitterness of my heart I cursed him.

Ele resolve procurar Victor e pedir que este lhe faça uma esposa, já que seria impossível encontrar amor e companhia junto às pessoas comuns. Victor, that heartless bitch, primeiro ignora o monstro, depois tenta fazer a esposa e, por último, resolve matá-lo. E é aí que ele erra: começa uma caçada louca do monstro aos entes queridos de Victor, que promete vinganda e ódio à raça humana como um todo (“if I cannot inspire love, I will cause fear”).

Tem uma hora em que o próprio Victor se sente cansado demais e pensa em desistir do seu propósito. Daí ele recebe um recado ~sutil~ do monstro na sua janela: Be men, or be more than men. Be steady to your purposes and firm as a rock. (toma)

Em referência à Milton, o monstro vê a si mesmo como um anjo perdido que, uma vez bom e expulso do Paraíso, não vê outra saída que não a vingança e o ódio.

the fallen angel becomes a malignant devil.

(…)

All men hate the wretched; how, then, must I be hated, who am miserable beyond all living things!

(…)

Life, although it may only be an accumulation of anguish, is dear to me, (…) Everywhere I see bliss, from which I alone am irrevocably excluded. I was benevolent and good; misery made me a fiend. Make me happy, and I shall again be virtuous. (…) Believe me, Frankenstein, I was benevolent; my soul glowed with love and humanity.

(…)

For a long time I could not conceive how one man could go forth to murder his fellow, or even why there were laws and governments; but when I heard details of vice and bloodshed, my wonder ceased and I turned away with disgust and loathing.

(…)

the human senses are insurmountable barriers to our union. Yet mine shall not be the submission of abject slavery. I will revenge my injuries.

Como a história começa a ser contada do fim, vemos que Victor não necessariamente se deu bem nessa. Mas, mesmo por ser uma história antiga e popular, o que nos prende não é a estrutura começo – meio – fim, mas o desenrolar da história. O monstro é uma criatura (literalmente) solitária e triste de dar dó, e Victor é o homem por excelência torturado por seu desejo de sabedoria. Eu vejo no monstro um pouco do herói clássico: não há saída ou final feliz. Citando Bob Dylanthere’s life, and life only.

–Anna

John Green – A culpa é das estrelas

Anna,

Num esforço de deixar resenhas engatinhadas pro blog, resolvi ler alguns livros “pop” e modernos. A lista de “best of” do Goodreads é sempre minha salvação nestas horas! Este livro ganhou na categoria “young adult” em 2012, então foi fácil. Uma dúvida pertinente: o que c4r@lhos define um livro como “young adult”?

Viciei na primeira página. Sério. Li – ou melhor, ENGOLI – em duas horas e meia.

Hazel Grace tem 16 anos. E tem câncer na tireoide, com metástase nos pulmões, estágio IV. Sua mãe a obriga a participar de um grupo de ajuda, onde ela encontra seu amigo Isaac, câncer ocular, que vai perder o segundo olho.

O Isaac e eu nos comunicávamos quase exclusivamente por meio de suspiros. Cada vez que alguém falava de dietas anticâncer, de cheirar cartilagem de tubarão em pó ou sei lá, ele me olhava e suspirava de leve. Eu balançava a cabeça em um movimento microscópico e dava um suspiro em resposta.

[Você pode imaginar o quanto eu me dobrei de rir ao ler isso].

Isaac trouxe seu amigo Augustus, 17 anos, osteosarcoma, uma perna amputada, sem sinal de câncer há 1 ano e 2 meses para o grupo de apoio. E Hazel só pensa em como Augustus é gato. Após a reunião, enquanto Isaac dá uns pegas na namorada Monica (que não tem câncer), Hazel e Gus começam a conversar. Ela recomenda que ele leia o livro “Uma aflição imperial”, sobre uma menina com leucemia.

Mas esta não é uma história de câncer, porque livros assim são um horror (…) a Anna resolve que ser uma pessoa com câncer que abre uma instituição de caridade para ajudar nas pesquisas da própria doença é um tanto narcisista, então monta uma instituição chamada Fundação Anna para Pessoas com Câncer que Querem Curar o Cólera.

O UAI termina sem terminar – não se sabe se Anna sobreviveu, o que aconteceu com a mãe dela, etc. E o autor daquele livro desapareceu. Gus se apaixona pelo livro também, descobre como se comunicar com o autor (algo que Hazel tentou por muito tempo) e resolve usar seu “pedido de criança com câncer” para levá-la até a Holanda, encontrar o autor e finalmente descobrir as respostas.

PRONTO. É o que eu posso contar sem espoilear completamente o livro.  Augustus é o plot-twist na vida de Hazel, e tudo está bem até que a reviravolta do livro acontece. Até então, você está rindo – e é meio desconfortável achar um livro que trata de câncer infanto-juvenil leve e engraçado.

Mas como não rir de um trecho assim?

“Tá, é que eu fui ao médico hoje de manhã e estava falando para o meu cirurgião que preferiria ser surdo a ser cego. E ele disse: ‘Não é assim que as coisas funcionam’. Aí eu falei, tipo: ‘É, eu sei que não é assim; só estou dizendo que preferiria ser surdo a ser cego se pudesse escolher, mas sei que não posso.’ E ele: ‘Bem, a boa notícia é que você não vai ficar surdo’. Eu disse: ‘Obrigado por esclarecer que meu câncer no olho não vai me deixar surdo. É muita sorte minha ter um gênio como você me operando’

– Ele é mesmo um gênio – falei. – Vou tentar arrumar um câncer qualquer no olho para poder conhecer esse cara”.

Depois da reviravolta na trama, o livro te faz chorar, e é bem bonito. É engraçado como o Goodreads se dividiu entre “OMG este livro é perfeito” e “OMG que grandessíssema bosta”. Eu gostei bastante. Dei cinco estrelas porque sou dessas que sai dando cinco estrelas pra livros bacanas que, ao final da leitura, você vira e fala “ahhh, ESSE valeu a pena”.

Ana

PS: Como fiz com Rainbow Rowell, busquei outro livro do autor. Li “Cidades de Papel”. E achei tão sacal (duas estrelas e olhe muito lá, capaz d’eu voltar e rebaixar) que também não vai ganhar resenha. E sim, parei com esse negócio de ler dois livros seguidos do mesmo autor. Especialmente se o livro for nessa traiçoeira categoria de “Young Adult”.

José Mauro de Vasconcelos — O Veleiro de Cristal

Desafio 2015: Livro ambientado em um lugar que você queira visitar


Ana,

No início da minha adolescência, eu relia muito (sim xD) O Veleiro de Cristal e O Menino do Dedo Verde, então fiquei na dúvida de qual deles reler pro desafio do ano passado — e que acabei não postando.

(note to self: ainda quero reler O Menino do Dedo Verde)

Apesar de ter relido esse livro várias vezes naquela época, eu não lembrava nada da história além de uma parte em que o  menino fica preso numas cordas no quintal, então foi como ler um livro novo. Devemos lembrar que é um livro voltado pro público juvenil e, dito isso, tenho duas críticas,

a) à linguagem; b) à pieguice.

A linguagem usada no livro, e pelos personagens, é muito formal e deixa tudo muito artificial. E, também por causa disso, o livro tem umas partes mega bregas e melosas (e também um tanto artificiais).

O personagem principal é Eduardo, um menino de 13 anos que nasceu com espinha bífida e hidrocefalia. Sua família deixa claro que não gosta dele e o quão seus outros dois irmãos são perfeitos e lindos e etc. Ele é cuidado por sua tia Anna (rá!), a quem é muito apegado. A tia é muito bonita, bondosa e rica (olha aí uma das artificialidades), e ama o menino como se fosse seu filho.

Eduardo precisa fazer uma cirurgia muito delicada no coração, e a tia o leva pra passar uns dias na casa de praia de um amigo antes da operação. É lá que ele conhece um sapo chamado Bolitrô (de Bolitreau), uma coruja empalhada aficcionada por assuntos mórbidos e um tigre chinês de bronze, Gakusha.

O livro é curtinho, triste e, embora não me arrependa de ter relido, acho que ele era muito maior e mais complexo (e também mais triste) na minha pouca lembrança dele. Desde essa época eu tinha vontade de ler outras coisas do autor, mas acho que a vontade passou.

-Anna

Christopher Hitchens – The Missionary Position 

Anna,

Enquanto lia Deus, um Delírio, marcava vários dos livros citados para ler também. Resolvi começar por The Missionary Position: Mother Theresa in Theory and in Practice, simplesmente porque o Sky já tinha lido e me dito que era interessante. Aliás, as palavras dele foram “só leia se você quiser reforçar suas crenças, não acho que ele vá te surpreender”.

Those prepared to listen to criticism of Mother Teresa’s questionable motives and patently confused sociological policy are still inclined to believe that her work is essentially humane. Surely, they reason, there is something morally impressive in a life consecrated to charity. If it were not for the testimony of those who have seen the shortcomings and contradictions of her work firsthand, it might be sufficient argument, on the grounds that Mother Teresa must have done some genuine good for the world’s suffering people. However, even here the record is somewhat murky and uneven, and it is qualified by the same limitations as apply to the rest of Mother Theresa’s work: that such work is undertaken not for its own sake but to propagandise one highly subjective view of human nature and need, so that she may one day be counted as the beatific founder of a new order and discipline within the Church itself.

Madre Teresa de Calcutá é cercada de histórias e lendas que são difíceis de engolir se você não for um completo crédulo que acredita em absolutamente qualquer coisa que te digam. Como, por exemplo, a história do “milagre” da filmagem de 1969 no completo escuro que ficou clara e nítida devido à “luz interna” da Madre Teresa. Sério mesmo, gente? O mito, espalhado por Malcolm Muggeridge em seu livro “Something Beautiful for God”, vai além e diz que este é o primeiro milagre realizado por alguém vivo! E o pobre do cameraman que filmou a cena, Ken Macmillan, achando que era um milagre da Kodak!

Um editor do The Lancet (a maior revista médica do mundo) foi visitar a “Home for the Dying” em Calcutá em 1994, para avaliar os cuidados médicos lá oferecidos. E voltou horrorizado. Por orientação de Madre Teresa, analgésicos fortes não eram permitidos. Também não eram permitidos exames laboratoriais ou mesmo algoritmos simples para determinar se a doença é curável ou não. A desculpa não era falta de dinheiro, já que a fundação recebia há três décadas um volume considerável de doações em materiais e espécie (e que boa parte foi desviada para a construção de um convento e outros trabalho missionários). Sente o drama da desculpa: “Such systematic approaches are alien to the ethos of the home. Mother Teresa prefers providence to planning; her rules are designed to prevent any drift towards materialism: the sisters must remain on equal terms with the poor.

Hitchens entra em interessantes minúcias sobre esta instituição, citando várias fontes que trabalharam diretamente com Madre Teresa – não vou entrar em detalhes, obviamente, para não simplesmente copiar o livro inteiro. Fica claro que o objetivo não era curar ninguém. Até mesmo porque a “Santa” Madre Teresa preferiu buscar os melhores e mais caros hospitais do ocidente quando ela mesma ficou doente.

O nome de Madre Teresa também aparece em várias histórias de corrupção, como a carta que ela mandou para uma corte americana pedindo clemência para Charles Keating, que desviou depósitos de pequenos investidores no Estados Unidos no início da década de 1980. No auge de seu sucesso, Keating doou 1,250,000 dólares para as instituições de Madre Teresa, deixou-a usar seu jatinho privado, e ela em troca permitiu que ele usasse seu prestígio em ocasiões relevantes (além de dar-lhe um crucifixo personalizado). Um dos advogados de acusação respondeu a ela em uma carta bem articulada, explicando a natureza dos crimes e pedindo que ela fizesse o que Jesus faria se soubesse que havia recebido os frutos de um crime. O advogado achava que Jesus devolveria o dinheiro aos seus legítimos donos. Madre Teresa, provavelmente, interpretou de outra maneira. O advogado jamais recebeu uma resposta, e o dinheiro obviamente jamais foi devolvido. Finalmente, Hitchens detalha as (sórdidas) incursões políticas de Madre Teresa, especialmente no Haiti e em sua Albânia natal.  Spoiler: é de dar nojo.

Sky estava errado. O curto livro me surpreendeu sim. Eu sabia que ela não era a santa que tentou demonstrar ser, sabia que as operações em Calcutá eram ridiculas, e sabia do desvio de dinheiro. Não sabia da profundidade do aspecto político. Fiquei com nojo.

– Ana

H.G.Wells – The Island of Dr. Moreau

 

Ana,

Por coincidência, assim que terminei de ler A Ilha do Dr. Moreau eu assisti ao filme Tusk, uma comédia de horror (?) onde um marinheiro louco serial-killer transforma pessoas em… morsas.

A coincidência está no fato que ambos tratam de vivissecção, aquela técnica linda de dissecar um animal vivo pra propósitos variados (o mais cruel deles, no teste de cosméticos). Nas obras, a vivissecção é utilizada pra transformar animais em seres humanos (em Wells) e um humano em animal (uma morsa, no caso do filme).

Dr. Moreau é um médico britânico expulso da comunidade científica por seus experimentos cruéis com animais. Ele vive numa ilha com seu ajudante, o médico Montgomery, e muitos “nativos” que se descobre serem resultado dos experimentos de Moreau com animais.

O narrador (Prendick) é um inglês que foi resgatado por Montgomery em alto-mar e levado para a ilha. Enquanto espera um navio que o possa levar pra casa, ele vai tomando conhecimento dos experimentos que são feitos na ilha, bem como de seus habitantes.

Um aspecto que eu achei muito interessante na obra é o fato de Montgomery e Moreau terem criado uma espécie de religião (The Law) para manter o povo da ilha sob controle (tá-dá!). Há uma House of Pain, onde os seres seriam castigados por alguma corrupção à Lei, e a figura dos dois tem um quê de divino e deve ser respeitada. A Lei proíbe, inclusive, que se coma carne, para que os seres (muitos deles combinações entre animais, alguns carnívoros) não desenvolvam interesse pelo gosto de sangue, dentre outros hábitos próximos ao comportamento animal.

“Not to go on all-fours; that is the Law. Are we not Men?

“Not to suck up Drink; that is the Law. Are we not Men?

“Not to eat Fish or Flesh; that is the Law. Are we not Men?

“Not to claw the Bark of Trees; that is the Law. Are we not Men?

“Not to chase other Men; that is the Law. Are we not Men?”

(…)

“‘His is the House of Pain. His is the Hand that makes. His is the Hand that wounds. His is the Hand that heals.'”

Vou deixar essa citação da Lei pra você tirar suas próprias conclusões :D

-Anna

Rainbow Rowell – Eleanor & Park 

Desafio 2015: Ambientado no Ensino Médio


 Anna,

decidi ler Eleanor & Park por uma única razão: ele apareceu em uma das listas de melhores do ano do Goodreads, na categoria “Young Adult”.

Eleanor é uma garota estranha. Ela é nova na escola, gorda, cabelos vermelhos e se veste de uma forma muito estranha. Parks é um garoto meio-coreano, “cool” o suficiente para ter seu próprio assento no ônibus da escola, mas não a ponto de ser popular. Eleanor entra no ônibus. Acaba tendo que sentar ao lado de Parks. Eles nem se olham. Óbvio. No ônibus e no colégio, temos a garota-totalmente-popular-e-bitch Tina, o garoto-sou-adulto-porque-tomo-cerveja Steve, e obviamente também, o bullying vai começar. Eleanor acabou de voltar para casa. Uma casa pequena, com quatro irmãos mais novos, uma mãe submissa e um padrasto cruel.  Aos poucos, Park e Eleanor vão se aproximando.

She was reading his comics. At first Park thought he was imagining it. He kept getting this feeling that she was looking at him, but whenever he looked over her, her face was down (…). Park didn’t say anything. He just held his comics open wider and turned the pages more slowly.

E, também aos poucos, se apaixonam. O livro é contado em terceira pessoa, mas alterna o foco entre Eleanor e Park. O que é ótimo, porque você entende os dois personagens em conjunto. E essa identificação me levou às lágrimas várias vezes. E essa identificação, como você pode imaginar, me fez ler o livro em uma sentada. E quis reler.

Because if she was going to cry about something, it was going to be the fact that her life was complete shit – not because some cool, cute guy didn’t like her like that. Especially when just being Park’s friend was pretty much the best thing that had ever happened to her.

Holding Eleanor’s hand was like holding a butterfly. Or a heartbeat. Like holding something complete, and completely alive. (…) Maybe I’m not attracted to real girls, he’d thought at the time. Maybe I’m some sort of perverted cartoon-sexual. Or maybe, he thought now, he just didn’t recognise all those other girls. The way a computer drive will spit out a disk if it doesn’t recognise the formatting. When he touched Eleanor’s hand, he recognised her. He knew

Quando tudo está indo relativamente bem, a situação na casa de Eleanor piora brutalmente.  E depois da piora, o plot-twist que você sabe que vai acabar acontecendo, mas realmente queria que não acontecesse.

Sem querer espoilear, mas o livro termina como um segundo filme de uma trilogia, ou como terminou o sexto livro do Harry Potter: “quem é R.A.B.?”. Lembro que (antes de sair o sétimo livro) saí gritando pra minha mãe e irmã quando descobri, no meio da noite: “CARA, é Regulus ‘qualquer coisa com A’ Black, certeza!”.

Neste caso, a pergunta é “quais foram as três palavras?”, e eu quero sair gritando a resposta.  Só pode ser uma, porque eu me apaixonei por Eleanor e por Park.

– Ana

PS: Quando escrevi a resenha, tinha escrito que “vou procurar ler mais da Rainbow Rowell”. Li logo em seguida “Fangirl”, e achei bem mais ou menos – tão mais ou menos que não vai nem ganhar resenha. Pois é, Cath e Wren realmente não são Eleanor e Park.