Júlio Córtazar – Histórias de Cronópios e de Famas

Anna,

Como assim, eu reclamo de fazer resenha de livros de contos e no mês seguinte leio outro?

Para o desafio deste mês, li “Histórias de Cronópios e de Famas”, do Júlio Cortázar. Escolhi este livro porque (insira potoca gigante aqui)… ok, porque você me indicou! 😀 Quando li o título no e-mail, fiquei “Dels, como sou analfabeta, não sei o que significa ‘cronópios'”… foi bonito quando o Houaiss também não soube! 🙂 Ainda bem que o livro me explicou! 😀 😀

A primeira parte, Manual de Instruções, é na verdade uma coletânea de continhos, cada um com uma… bem, uma instrução! #capitãóbvia. De como subir uma escada ( ❤ ) a como chorar, passando por como cantar e sentir medo.

Amei em particular o “preâmbulo às instruções para dar corda no relógio”:

“Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. […] Dão a você – eles não sabem, o terrível é que eles não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio […] Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.”

A segunda parte, Estranhas ocupações, fala sobre a família do narrador. Novamente, são vários pequenos contos. O último, Comportamento nos velórios, é decididamente o melhor! 😀 A terceira parte, Matéria plástica, é mais densa e poética.

Finalmente, a quarta parte é o conto-título Histórias de Cronópios e de Famas. Finalmente descobri o que são cronópios, famas e esperanças!

“Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige à delegacia e lavra uma ata declarando os móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações. […]

Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: ‘que bela cidade, que belíssima cidade’. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.

As esperanças, sedentárias, deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que é preciso vê-las, porque elas não vêm até nós”.

Cortázar ficou famoso por sua “prosa poética”, e esta é a definição PERFEITA da sensação do livro inteiro. Não sei como demorei tanto a ler! Apaixonei-me por Cortázar quase tanto quanto me apaixonei por Ondjaki há meses.

Lerei mais, definitivamente. E talvez até crie vergonha na cara e leia em espanhol… 🙂

Guilhermo Arriaga – Um Doce Aroma de Morte

Ana,

Já há algum tempo eu vinha querendo ler um dos livros desse escritor — que além do Um Doce Aroma… ainda tem O Búfalo da Noite e um livro de contos chamado Retorno 201. Arriaga é o roteirista de The Burning Plain, Babel, The Three Burials of Melquiades Estrada, 21 Gramas.

O livro conta como Ramón, morador de Loma Grande, um povoado mexicano pequeno e distante, se envolve com Adela, moça que ele encontra morta num campo de sorgo (em alguns interiores conhecido como zaburro :D). O envolvimento se dá da seguinte forma: Ramón, dono de uma “venda”, tinha visto a moça algumas vezes e se interessado por ela. Como ela era de uma das novas famílias que chegaram no povoado, eles moravam mais distantes e não tinham muita convivência com os habitantes “originais”. Assim, Ramón e Adela nunca chegaram a realmente ter algum tipo de relacionamento. Mas um dia de manhã, a moça aparece morta no campo, completamente nua, e espalha-se o boato de que ela e Ramón eram namorados e iam, inclusive, se casar. O boato se espalha de uma maneira tão rápida e tão convincente que mesmo a família dos dois acredita nele e o rapaz não consegue nunca desmenti-lo. Assim, Ramón é empurrado num torvelinho de situações que o levam inclusive a prometer se vingar do assassino de Adela.

Com as investigações sobre a morte, descobre-se que Adela tinha realmente um amante, que nem mesmo a sua melhor amiga sabe quem era – e que ela duvida que tenha sido Ramón. O amante de Adela era aparentemente casado, então Ramón surge como o álibi perfeito para a memória da morta, que de mocinha danada e atrevida passa a querida e quietinha 😀

Com o crescimento dos boatos acerca do relacionamento dos dois, da morte de Adela e de quem teria sido o assassino e porque o crime havia acontecido, muitas pessoas vão se vendo envolvidas, mesmo sem querer, na vida do casal e ficamos sabendo também do cotidiano de vários dos moradores do povoado — aquela vida de interior, de quem é amante de quem, quem matou ou quer matar quem e por aí vai. Os pais de Adela, inclusive,  já tinham perdido os cinco filhos, todos de morte violenta e todos muito jovens.

Como todos os roteiros de Arriaga — pelo menos os que eu já tive contato —, o livro é MUITO bom. A narrativa é bem construída e envolvente e quando o romance acaba você ainda fica pensando nos personagens por muito tempo. Deu mais vontade ainda de ler mais coisas do autor (acho que vou de O Búfalo da Noite) 🙂 🙂

Ah, eu só soube que ele já havia sido adaptado pro cinema depois que você falou! Tou aqui pensando se procuro pra baixar (ou se assisto O Búfalo…, que também foi adaptado).

Desafio Literário – Janeiro

Como o mundo aparentemente não acabou, vamos ao desafio de Janeiro!

Janeiro Escritores latino-americanos
Fevereiro Livros gastronômicos
Março Adaptação para o cinema
Abril Nobel
Maio Escritores asiáticos
Junho Nome próprio
Julho Serial killer
Agosto Ficção científica
Setembro Escritores africanos
Outubro Chick lit
Novembro Literatura Pop
Dezembro Contos

Ana lerá Histórias de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar.

Anna lerá Doce Cuentos Peregrinos, de Gabriel García Márquez.

Ryûnosuke Akutagawa – Rashômon e outros contos

Ana,

O mundo não acabou 😦

Daí que as minhas pretensões pós-apocalípticas (porque claro que eu iria sobreviver) era passar a eternidade numa caverna confortável lendo, comendo e vendo filme. Mas não rolou e, enquanto eu espero meu ressarcimento, aqui vai a resenha 😀

Escolhi ler esse livro porque ele estava no meu caderno de anotações – que eu levo na bolsa e fico anotando coisas que eu quero ler/ ouvir/ assistir mas nunca dou bola – e eu tinha baixado ele e jogado na biblioteca do Calibre. Na verdade, esse parágrafo deveria começar de outra forma: esse livro estava no meu caderno de anotações e eu decidi lê-lo (lelo, coisa horrorosa) porque estou determinada a dar cabo de duas coisas: minha lista do que ler/ ouvir/ assistir e dos meus livros não lidos e já comprados ou baixados.

O problema é que, quando eu comecei a ler, não lembrava de jeito nenhum o porquê de eu ter me interessado tanto por ele, ao ponto de ter anotado o título e já baixado e convertido pra mobi. E eu li um conto e achei muito bom. Li outro, o mais famoso do livro (Dentro do Bosque, gratuito pra ler), e o melhor de todos eles… li o terceiro: tchato. Ainda li mais uns dois, e achei muito, muito chato (crítica literária level master). Tanto que decidi parar de ler e procurar outro. Maaans desafio é desafio, e minha consciência pesou xD Voltei ao livro e, entre bons contos e outros nem tanto, termineeeeei! xD

A característica principal de todos os contos é o aspecto nada legal do ser humano: as pessoas não são boazinhas e, muitas vezes, chegam até a ser cruéis. Algumas imagens usadas pelo autor são estranhas a nós, ocidentais (como a mulher que arranca os cabelos dos mortos), então imagino que ficamos meio em desvantagem na apreensão de toda essa descrição psicológica.

Agora que sentei pra escrever a resenha, me lembrei o que eu queria com o bendito: Dentro do Bosque foi o conto usado por Akira Kurosawa como base para o filme Rashômon, e foi por isso que eu quis ler o livro – pra ver o filme.

Não é um livro excelente, mas é um bom livro de contos. Vale a leitura também para conhecer um pouco da literatura japonesa menos ocidentalizada e mais moderna (apesar de o autor ser do início do século passado) e porque o seu autor, Ryūnosuke Akutagawa, é conhecido como o pai do conto japonês.

Eu percebi uma coisa: esse ano (2012 ainda) eu li dois autores japoneses! 😀 Pra quem nunca lia nada – fora um mangá ou outro – é ótimo, né? 🙂

E outra coisa: muitas vezes a conversão de pdf pra mobi FODE com a formatação 😦 Esse foi tenso até de ler.

Kelly Link – Magic for Beginners

Anna,

O mundo não acabou (quero meu dinheiro de volta), então não tive como escapar da resenha! 😀

Para o desafio, resolvi ler o Magic for Beginners, da Kelly Link. Comprei este livro no Humble Bundle, que é uma iniciativa super bacana: pague o que quiser pelos livros (ou jogos, dependendo do mês), pague acima da média e leve outros, e escolha quanto da grana vai para caridade. 🙂

Lendo a entrada da Wikipedia sobre a autora, descobri que parte do livro está disponível para download gratuito sob a licença Creative Commons. Dois dos nove contos do livro não estão neste link: o primeiro, The Faery Handbag, e Magic For Beginners.

Como da outra vez, acho difícil fazer uma resenha decente de livros de contos.

The Faery Handbag conta a história de uma garota, sua avó excêntrica, e uma bolsa que contém literalmente uma civilização.

O segundo conto, The Hortlak, fala sobre o All-Night, uma loja de conveniência autosuficiente e que aceita como forma de pagamento: dinheiro, dog tags, qualquer coisa interessante, sonhos.  Duas pessoas trabalham na loja. Batu e Eric. Charley, que trabalha em um abrigo de animais, sacrificando-os, está sempre por lá, e Eric está apaixonado por ela. Batu está sempre de pijama. Uns são normais, outros são feitos de coisas surreais – como o diário que uma cliente tinha aos 14 anos. E alguns clientes são… zumbis. E o All-Night quer revolucionar o comércio.

 Zombie Land (…) Zombie churches with AA meetings for zombies, down in the basements, every Thursday night.

😀

Um dos melhores contos do livro é Catskin, e talvez eu tenha começado a ler com uma pontinha de boa vontade adicional, porque trata de gatos, bruxas e uma vingança. Outro conto muito bom é The Great Divorce. Vivos se casam com mortos e se reproduzem, mas não conseguem vê-los. Assim, eles comunicam pelo copo, pelos Ouija Boards, e por médiuns. E bem, esse casal quer o divórcio, então eles vão à Disneyland para se encontrar com uma médium. 😀

Mas o melhor conto do livro é, sem dúvida, Magic for Beginners. Um show de TV pirata, que ninguém sabe quem são os atores ou produtores, e cinco adolescentes que o assistem obsessivamente. E claro, o momento em que as duas coisas se misturam.

The Library is a pirate TV show. It’s shown up once or twice on most network channels, but usually it’s on the kind of channels that Jeremy thinks of as ghost channels. The ones that are just static, unless you’re paying for several hundred channels of cable. There are commercial breaks, but the products being advertised are like Euphoria. They never seem to be real brands, or things that you can actually buy. Often the commercials aren’t even in English, or in any other identifiable language, although the jingles are catchy, nonsense or not.

O último conto, Lull, também é excelente, mas não consigo falar nada sem spoilear! 😉

Gostei muito do realismo mágico do livro. A sensação é de se estar lendo uma pintura impressionista, onde tudo é real e de acordo com as “regras” do mundo em que vivemos até o momento em que não é. Definitivamente lerei os outros livros (também de contos) dela, e recomendo fortemente este!