Ibn Warraq – Why I Am Not a Muslim

Desafio 2015: Livro que te dê medo


Anna,

No dia seguinte aos ataques ao Charlie Hebdo, decidi que ia largar de preguiça e finalmente leria Why I Am Not a Muslim. Tinha pensado vagamente em colocá-lo nesta categoria, mas não imaginava o quão adequada ela seria até ler o livro. E claro, ao ver as atrocidades recentes do Estado Islâmico e do Boko Haram, essa galera bacana.

It is very odd that when God decides to manifest Himself, He does so to only one individual. Why can He not reveal Himself to the masses in a football stadium during the final of the World Cup, when literally millions of people around the world are watching?

Como o nome diz (que sim, é uma homenagem ao Why I Am Not a Christian, do Bertrand Russel, que devemos resenhar, sério), o livro disseca o Islã, com o objetivo claro de contradizer cada um dos argumentos dos apologistas ocidentais. A maioria destes argumentos gira em torno da ideia de que o Islã é uma “religião de amor”, e que os terroristas não são verdadeiramente muçulmanos. AHAM.

Para provar seu argumento, Warraq passa quase metade do livro descontruindo as fontes do Islã, a começar pelo Corão. Fundamentalmente, como ele foi adaptado a partir de obras de outras religiões, sem trazer nenhuma novidade teológica relevante, como a narrativa do livro confunde Deus com Maomé em várias partes, e como algumas partes estão incompletas, precisando de comentários – o que refutaria a hipótese de “Palavra de Deus”.

The term “Islamic fundamentalist” is in itself inappropriate, for there is a vast difference between Christianity and Islam. Most Christians have moved away from the literal interpretation of the Bible (…) Thus we can legitimately distinguish between fundamentalist and nonfundamentalist Christians. But Muslims have not moved away from the literal interpretation of the Koran: all Muslims – not just a group we have called “fundamentalists” – believe that the Koran is literally the word of God.

Warraq também derruba os mitos que circundam a figura do profeta Maomé; esclarece longamente o funcionamento da lei islâmica, que não diferencia estado e religião e pretende controlar todos os momentos da vida do cidadão; e finalmente, explica o conceito de jihad.

The totalitarian nature of Islam is nowhere more apparent than in the concept of jihad, the holy war, whose ultimate aim is to conquer the entire world and submit it to the one true faith, to the law of Allah. To Islam alone has been granted the truth: there is no possibility of salvation outside it. It is the sacred duty – an incumbent religious duty established in the Koran and the traditions – of all Muslims to bring Islam to all humanity. (…) It is a grave sin for a Muslim to shirk the battle against the unbelievers – those who do will roast in hell.

O livro foi escrito em 1994. Vinte e um anos depois, ele continua adequado, mas parece delicado – o livro é uma resposta ao Khomeini e às críticas aos Versos Satânicos. Warraq não poderia prever o Estado Islâmico nem o Boko Haram; entretanto, ao ler o livro em 2015, você consegue entender bem as origens e a “lógica” que permitiu o surgimento de tais grupos.

Obviamente, esta resenha cobre apenas a ponta do iceberg que é o livro. Na segunda parte, Warraq argumenta sobre a incompatibilidade entre Islã e ciência e Direitos Humanos, explica a figura da mulher no Islã (você acredita que tem gente que tem a PACHORRA de chamar o Islã de sex-positive?), entre outros temas.

Women are considered inferior to men, and they have fewer rights and duties from the religious point of view. In regard to blood money, evidence, and inheritance, a woman is counted as half a man; in marriage and divorce her position is less advantageous than that of the man; her husband may even beat her, in certain cases.

Este foi um dos livros mais difíceis que já li. Passei mais de um mês lendo, na verdade, porque precisava parar e digerir certas coisas. O capítulo sobre as mulheres no Islã me embrulhou o estômago, literalmente. Não sei se exatamente recomendo a leitura completa, porque ele é desnecessariamente longo – faltou um editor que dissesse “você não precisa trazer cinco citações distintas sobre exatamente o mesmo ponto, amigo”. Mas já o considero um dos livros seminais em minha educação. Aprendi muito, muito mesmo. E perdi o que me restava de paciência com os que argumentam “ah, mas não são todos os muçulmanos que …”

– Ana

PS: Depois deste post e o do Hitchens, prometo dar um tempo em livros sobre religião 😀

Arthur e Carly Fleischmann – Carly’s Voice

Desafio 2015 –  Livro não ficção


Anna,

Tinha vontade de ler este livro desde a primeira vez que ouvi falar dele, logo que foi lançado (em 2012). Entretanto, sempre adiava a leitura. Sabe como é….

Enquanto tentava planejar os livros que vou ler para o desafio 2015, lembrei de Carly’s Voice e passei para o tablet, querendo ler logo. Inicialmente, achei que ele iria para a categoria “que você possa terminar em um dia”, mas acabei levando dois dias para ler… 😀

O livro, escrito primordialmente pelo pai de Carly, Arthur, conta a saga da família tentando encontrar uma cura para o autismo. Arthur e sua mulher, Tammy, já tinham um filho, Matthew, e depois de várias tentativas, engravidaram de gêmeas. Enquanto Taryn nasceu saudável, Carly sempre pareceu diferente. Durante o primeiro ano de vida, a diferença entre as irmãs ficou ainda mais marcante. No segundo ano de vida, Carly foi oficialmente diagnosticada com autismo severo. Tammy e Arthur passam a buscar todo o tipo de tratamento para a menina, tanto médico quanto psicológico e fisioterapêutico.

Autism feels hard. It’s like being in a room with the stereo on full blast. (…) People just look at me [Carly] and assume that I  am dumb because I can’t talk or because I act differently than them. I think people get scared with things that look or seem different than them. It feels hard.

Entre todas as loucuras e frustrações do processo, que incluiu a descoberta de um linfoma em Tammy, aos 10 anos Carly, que era totalmente não verbal, surpreende dois de seus cuidadores (Howard e Barb), correndo para o computador para digitar AJUDA DENTE DÓI. Com o auxílio de um computador/iPad, ela passou a ser capaz de se comunicar e (prepare-se para o clichê…) mostrar sua voz. O que descobrimos durante a leitura é uma garota extremamente inteligente para sua idade, com um senso de humor ácido que destoa do comportamento externo causado pelo autismo e pelo transtorno obsessivo-compulsivo. (Sim, ela tem autismo, TOC e apraxia, obrigada Universo ¬¬ )

Her intelligence was opening the door for an exciting future; her behavior kept her tethered, unable to cross the threshold. I [Arthur] felt both grateful and resentful. I knew many other families coping with children with autism who had not had the simple, powerful gift of having a conversation with their child. But I knew far more families who lived, traditional, calm lives with their children at home, progressing normally.

Apesar de ser fácil de ler, não é fácil digerir este livro. É impossível não pensar no sofrimento e a renúncia que estes pais (e irmãos) são obrigados a viver para que Carly tenha uma mínima chance neste mundo. E, claro, não lembrar da nossa própria “sorte”.

– Ana