Chimamanda Ngozi Adichie – Hibisco Roxo

Ana,

você já chorou tanto com um livro que sua cabeça doeu? Eu já havia chorado por causa de livros (inclusive no ônibus, hehehe), mas geralmente isso acontece num trecho ou em outro. Com Hibisco Roxo, o choque passa para o choro com uma frequência tão rápida que você nem termina de digerir uma parte e já está chorando por outra.

Não que isso seja um qualificador. Acho que ser tocado por alguma obra (de arte, literária, música etc) é bem pessoal, e às vezes as pessoas me dizem que choraram por causa de alguns livros que me criam um preconceito instantâneo. Mas, em Hibisco Roxo, eu chorei da minha cabeça doer. Li o início do livro e fiquei espantada com a violência e a hipocrisia (ou fanatismo?) de Eugene, pai da protagonista (Kambili, uma menina de 15 anos), um nigeriano convertido ao catolicismo que chegou a um ponto tal de extremismo religioso que não fala com o próprio pai, um senhor já idoso que não abre mão da ancestralidade de seu povo. Quando retomei a leitura, não consegui parar até terminar tudo.

O choque do pai queimar os pés da própria filha por ter passado a noite na mesma casa que o avô (pagão) é maior quando você sabe que esse mesmo pai é dono do único jornal que se opõe ao governo militar cruel que tomou a Nigéria. Como pode? Como pode um homem riquíssimo que recebe filas e filas de pessoas famintas na sua porta não comprar remédio para o próprio pai? Como alguém que compra casa e carro pra amigos em dificuldade financeira vê a própria irmã cozinhando em fogão à querosene e se irrita quando sua esposa sugere que ele dê um botijão de gás de presente a ela? Como um cara que se penitencia e se confessa todos os fins de semana e sustenta uma igreja praticamente sozinho bate na mulher até ela abortar?

A família é riquíssima, e Kambili é chamada de patricinha na escola, onde não tem amigas. Seu melhor amigo é o irmão Jaja, de quem é muito próxima, e é quem começa a contestar o pai e tenta proteger a menina de seus maus tratos. Com o endurecimento da ditadura na Nigéria, o jornal do pai (que também é industrial) recebe ameaças do governo, e alguns de seus amigos e jornalistas começam a sumir ou a ser assassinados. O pai martiriza a família de uma forma que acaba por destruir a vida de todos, levando a caminhos que a gente sequer imaginava.

Não tem como não se apaixonar pela tia de Kambili, Ifeoma, irmã do pai e professora universitária, viúva e que cria os filhos de outra forma, apesar de também serem católicos. Não tem como não se apaixonar pelo Padre Amadi, por quem todas as meninas do bairro são apaixonadas, inclusive Kambili (e fica claro que ela é correspondida). Não tem como não ficar um pouco desesperada como Kambili e Jaja quando a única saída da tia, há meses sem salário e trabalhando numa universidade sucateada que recebe ameaças de “informantes” do governo militar o tempo todo, resolve se mudar para os Estados Unidos, e quando o Padre Amadi é transferido para a Alemanha. Você entra tanto na história que chora inclusive quando o visto da tia sai.

A timidez de Kambili (que ela descreve como “bolhas de ar na garganta”) e o pavor inflingido pelo pai fazem com que ela se veja sempre numa posição confusa de buscar a aprovação paterna a qualquer custo e se culpando por ter ficado em segundo lugar na turma, ou achando que realmente merece apanhar por ter feito uma oração, segundo o pai, “muito curta” antes do almoço. A mãe, também sempre acossada, não toca no assunto com ninguém e se restringe a cuidar dos ferimentos próprios e dos filhos depois das surras colossais.

O desespero de estar sem saída, de ver as únicas pessoas com quem se sentem bem irem embora, de uma religião opressora e de uma vida doméstica insuportável vai levando a vida dos personagens a decisões sérias.

Há muitas coisas a serem faladas sobre o livro. O amadurecimento da menina, o papel feminino (marcado pelo contraponto entre sua mãe e sua tia), as contradições do pai, a valoração da cultura europeia sobre a cultura africana, os medos e suas várias caras, o apoio e amor que ela encontra na casa da tia… mas acho que não conseguiria abarcar tudo. Esse é um daqueles livros que têm que ser lidos, talvez mais de uma vez. Eu ainda não tenho coragem suficiente pra ler uma próxima

– Anna

Malala Yousafzai – I am Malala

Anna,

I am Malala: The Story of the Girl Who Stood Up for Education and Was Shot by the Taliban estava na minha lista semi-imaginária de leituras (quando eu crescer eu vou ser organizada no Goodreads) desde que foi lançado. Lembro da indignação que senti em um nível muito pessoal quando ela foi baleada, e o meu desprezo pelo Talibã, que eu achava até então que já havia atingido o máximo.

 One year ago I left my home for school and never returned. I was shot by a Taliban bullet and was flown out of Pakistan unconscious. Some people say I will never return home but I believe firmly in my heart that I will. To be torn form the country that you love is not something to wish on anyone.

Para contar como foi baleada, é preciso explicar o contexto.  Malala conta a história do Paquistão, desde antes de sua fundação oficial, passando pelos golpes militares, até o momento atual. Após 11 de setembro, o movimento muçulmano fundamentalista ganhou força naquele país. Nesta fase, ela passa a narrar não apenas baseada em relatos ou livros, mas também no que viveu em sua aldeia. E é impossível não se revoltar com as atrocidades que uma mentalidade obcecada, pronta para deturpar um livro e dizer que “Deus mandou” é capaz de fazer –  e com naturalidade. Assim… de querer esmurrar os livros (tanto o Corão/Bíblia quanto o I am Malala), como se a culpa fosse deles. Em um pequeno disclaimer, acredito que a mentalidade que levou ao nazismo tinha um forte caráter ‘religioso’ neste sentido, entendam como quiserem. Não quero contar muitos detalhes para não fazer uma resenha gigante. Você PRECISA ler este livro. Sério.

 The Quran teaches us sabar – patience – but often it feels that we have forgotten the word and think Islam means women sitting at home in purdah or wearing burqas while men do jihad.

Mullahs often misinterpret the Quran and Hadith when they teach them in our country as few people understand the original Arabic. Fazlullah exploited this ignorance.

O pai de Malala fundou uma escola, e sonhava em educar toda a população. Quando o Talibã proibiu que meninas frequentassem a escola, ele saiu a público para protestar, e tentou de todas as formas reverter a proibição. E, junto com sua única filha (ela tem apenas dois irmãos, mais novos), deu entrevistas para rádios e televisões do mundo inteiro, chamando a atenção para o problema.

Life isn’t just about taking in oxygen and giving out carbon dioxide. You can stay there accepting everything from the Taliban or you can make a stand against them.

Lógico que isso não ia dar certo. Mas por um breve momento, você acha que tudo vai acabar bem, porque o Talibã é banido da área.  Então, duas coisas acontecem. Primeiro, você lembra que sabe que ela foi baleada pelo Talibã, ou seja, não vai acabar bem e eles não foram realmente banidos. Depois, Malala recebe uma ameaça formal .

I don’t know why, but hearing I was being targeted did not worry me. It seemed to me that everyone knows they will die one day. My feeling was that nobody can stop death; it doesn’t matter if it comes from a talib or cancer. So I should do whatever I want to do.

Muitas coisas ficam na mente depois de ler este livro. Medo do quão rapidamente uma coisa boa pode desaparecer porque algum religioso acha que está errado. Desprezo pela misoginia escancarada pregada pelo Talibã, desprezo pela má interpretação deliberada de qualquer livro, especialmente se o tal livro tiver como objetivo guiar o comportamento humano. Mas também fica o orgulho. Malala e seu pai são pessoas iluminadas, que fazem você esquecer a misantropia por alguns momentos. Ou pelo menos torná-la seletiva…   Mais uma vez, minha tese de que religião, embora possa ser bastante benéfica no âmbito pessoal, é extremamente prejudicial no ambiente público, é reforçada, à pauladas.

Já falei que você precisa ler este livro?

In Pakistan when women say they want independence, people think this means we don’t want to obey our fathers, brothers or husbands. But it does not mean that. It means we want to make decisions for ourselves. We want to be free to go to school or to go to work. Nowhere is it written in the Quran that a woman should be dependent on a man. The word has not come down from the heavens to tell us that every woman should listen to a man.

– Ana

Desafio Literário 2013/ 2014 – Janeiro

E você não acreditou que a gente finalmente ia deixar de ser cara de pão! 😀

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana já leu I am Malala, de Malala Yousafzai.

Anna já leu Hibisco Roxode Chimamanda Ngozi Adichie.

Albert Camus – O Estrangeiro

Ana,

lendo O Estrangeiro eu tive a mesma sensação de que tudo é absurdo que eu tive quando li O Processo, do Kafka, mas talvez essa seja uma associação comum.

Meursault vive em Argel e leva uma vida mediana, da qual é muito satisfeito. Trabalha muito, mora sozinho e às vezes vai à praia ou visita sua mãe no asilo. Já no primeiro parágrafo, antológico, ele recebe um telegrama do asilo avisando que sua mãe havia morrido.

Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei.

Atordoado pelo calor e pelo constante sentimento de “tanto faz” que lhe é típico (ele responde isso quando seu chefe lhe oferece um emprego em Paris, quando uma amiga o pede em casamento, quando o advogado pergunta se ele quer passar a vida inteira na cadeia…), ele participa meio indiferente do velório e enterro da mãe, fato que, lá na frente, vai ser usado contra ele no tribunal, pra onde é levado por uma torrente de acontecimentos que variam entre o casual, o banal e o inevitável e terminam com ele matando um árabe (lembra da música do The Cure?), irmão de uma moça com quem seu vizinho se envolvera.

Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes, e era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça.

No julgamento, o fato de não ter aparentemente sofrido com a morte da mãe volta-se contra ele, o que no início não faz o mínimo sentido…

— Afinal, ele é acusado de ter enterrado a mãe ou de matar um homem?

…mas acaba fazendo com que ele passe a ser considerado um sociopata pelos juízes e advogados.

Assim, Meursault é condenado à morte, o que fecha o ciclo do absurdo. Mas, como ele mesmo diz, citando a mãe, não há nada com que um homem não se acostume. Com as tentativas do capelão da igreja de fazê-lo aceitar a Deus para ser perdoado (Meursault se considera ateu), ele chega à conclusão de que o universo não é bom nem ruim com e para a vida humana. Ele é simplesmente indiferente.

Como se essa grande cólera tivesse lavado de mim o mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de signos e estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Ao percebê-la tão parecida a mim mesmo, tão fraternal, enfim, eu senti que havia sido feliz e que eu era feliz mais uma vez. Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, restava-me apenas desejar que houvesse muitos espectadores no dia de minha execução e que eles me recebessem com gritos de ódio.

–Anna

Simone de Beauvoir – A Very Easy Death

Anna,

Eu não tinha dúvidas de que leria algo da Simone de Beauvoir para este desafio de autores franceses – ainda mais depois do trauma de Sartre! Ao escolher o título para o desafio de dezembro (em dezembro mesmo, olha isso!), esbarrei em um problema comum. Não o encontrava – quer dizer, 8 doletas na Amazon para o Kindle, que eu já estava até disposta a pagar #murrinha. Na pesquisa, descobri o Open Libraryum site que EMPRESTA ebooks de graça e possui um catálogo substancial. É aquela chatice de DRM, tem que abrir naquela feiúra do Adobe Digital Editions, e o livro fica disponível pra você por duas semanas apenas – o que na verdade é uma coisa boa, porque nos impede de enrolar. Apesar disso, achei bacana e fiquei empolgada!

Voltando ao livro. Simone de Beauvoir recebe uma ligação em Roma: sua mãe, uma senhora de 77 anos que já não andava muito bem, teve um acidente em casa e quebrou o fêmur. Alguns exames depois, os médicos descobrem um câncer, que será provavelmente fatal nas próximas horas. Como Mme. Françoise sempre temeu esta doença, as filhas e os médicos optam por não contar a verdade.

 She had told my sister of a nightmare that she often had. ‘I am being chased: I run, I run, and I come up against a wall; I have to jump over this wall, and I do not know what there is behind it; it terrifies me.’ She also said to her, ‘Death itself does not frighten me; it is the jump I am afraid of.’

Após uma cirurgia, a mãe acha que está convalescendo – suas filhas sabem que ela está morrendo. Simone (olha a íntima) entra em uma série de reminiscências a respeito da mãe. E, com o passar dos dias, indas e vindas de hospital, começa a estabelecer uma nova relação com ela. Um resgate do que parecia completamente perdido.

 For me, my mother had always been there, and I had never seriously thought that some day, that soon I should see her go. Her death, like her birth, had its place in some legendary time.

I had grown very fond of this dying woman. As we talked in the half-darkness I assuaged an old unhappiness; I was renewing the dialogue that had been broken off during my adolescence and that our differences and our likeness had never allowed us to take up again. And the early tenderness that I had thought dead for ever came to life again, since it had become possible for it to slip into simple words and actions.

Como o título já entrega, Mme. Françoise morre. E com a morte vem a reflexão filosófica que encerra o livro – e ela é tão bonita, tão direta, precisa e ah, tão bem escrita.

There is no such thing as a natural death: nothing that happens to a man is ever natural, since his presence calls the world into question. All men must die: but for every man his death is an accident and, even if he knows it and consents to it, an unjustifiable violation.

O livro é maravilhoso. Li em duas sentadas, mas porque “economizei” (e alternei com o Naked Lunch, que já estava me enchendo o saco). Ao contrário daquele livro, que também é considerado “obra-prima” do respectivo autor, foi fácil enxergar em “A very easy death” todo o brilhantismo, sutileza e precisão de Simone de Beauvoir.. Recomendo a leitura para todas as pessoas que conheço. Até para as que não gosto, pra você ver.  😀

– Ana

Desafio Literário 2013/ 2014 – Dezembro

Já estamos quase alcançando! 😀

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana já leu A Very Easy Death, de Simone de Beauvoir.

Anna já leu O Estrangeirode Albert Camus.

Anton Tchékhov – A Dama do Cachorrinho

Ana,

outro livro que não foi fácil achar. Quando escolhemos essa categoria, eu imaginei que iam me pipocar na cabeça milhares de títulos e que eu ficaria na dúvida na hora de escolher. Errei feio. Como A Dama do Cachorrinho foi o mais recorrente (e mais rápido de ler, confesso) na mini-lista que consegui criar, foi ele o escolhido.

Quando eu vi O Leitor (Stephen Daldry, 2008) — contra a minha vontade, porque nunca fui com a cara da Kate Winslet — saí do cinema com aquela autoilusão de “vou ler esse livro assim que chegar em casa”. O conto do Tchékhov (o nome com mais grafias que eu já vi na vida) é um dos que Michael Berg lê para sua amante, Hanna Schmitz (entre outros, como a Odisseia, Huckleberry Finn e As Aventuras de Tin-Tin).

Eu li a edição da LP&M Pocket, que tem mais 11 contos além dele. Dá pra ler numa sentada, e deu pra lembrar o tanto que eu gostava de ler os russos uns anos atrás!

O conto é de 1899 e fala do romance entre o banqueiro Dmitriy Dmitrich Gurov (um mané misógino preso num casamento sem amor com uma mulher que pela descrição você já acha entediante) e a jovem Anna Sergeyevna (a dama do cachorrinho — um lulu da pomerânia xD —, que tem por volta de 20 anos e também é casada). Eles se conhecem quando estão os dois de viagem a Ialta (ele mora em Moscou e ela numa cidade que não é nomeada) e, após um breve romance, Anna vai embora e Dmitriy descobre que está verdadeiramente apaixonad0 pela primeira vez na vida — os russos e suas baranguices —, e chega a viajar pra cidade da moça atrás dela.

Eu gostei muito, como gostei do livro todo (e gostei também da peça As três irmãs e dO Jardim das cerejeiras, também de Tchékhov e que li há alguns anos). Eu sempre fui muito fã de contos, e me peguei pensando por que deabos eu levei tanto tempo pra ler esse livro! Lembro que também gostei muito do filme, apesar de ter ido à contragosto. Como duvidar de um filme que tem o Ralph Fiennes, né? ❤

–Anna