Amy Poehler – Yes Please

Desafio 2015: Livro ambientado em um lugar que você queira visitar


Anna,

Este livro iria originalmente para a categoria “engraçado” do desafio 2015. Veja bem: escrito pela hilária Amy Poehler, vencedor do GoodReads Choice Awards 2014 na categoria “Humor”… parece fácil, né?

Não foi. Tive que me virar para encontrar outra categoria para o livro e encaixá-lo no desafio, para manter o momentum, sabe? Acabei decidindo colocá-lo na “ambientado em um lugar que você queira visitar”, porque boa parte dele se passa em Nova York. Não queria botar na categoria “livro escrito por uma mulher”, para não desperdiçar uma ótima categoria! 😀

Vamos ao livro, que mistura memórias da carreira da atriz com conselhos sobre a vida, “o que eu aprendi”, etc. Não é exatamente ruim, mas é aquela coisa: nasceu em uma cidadezinha, mudou pra Nova York, ralou pra cacete, conseguiu um trabalho, conseguiu outro, sucesso! Casou, teve dois filhos que são o amor da vida dela, divorciou e é triste, mas agora tem outro namorado. Sabe? Nada de excepcional. Por outro lado, a visão “pé no chão” dela sobre tudo isso é bem bacana. Não tem o deslumbre de “nossa, eu sou uma celebridade, deixe-me iluminá-la com o meu saber e minha superioridade”.

People don’t want to hear about the fifteen years of waiting tables and doing small shows with your friends until one of them gets a little more famous and they convince people to hire you and then you get paid and you work hard and spend time getting better and making more connections and friends. Booooring. It’s much more interesting to believe that every person who makes it in show business just wrote a check to their mother when they were eighteen for a million dollars with an instruction to “cash in a year.”

Ela passa muito tempo falando sobre como é difícil escrever e sobre como ela é pequena (fisicamente) e por isso tem medo de multidões. No começo é engraçado, mas, como toda piada repetida inúmeras vezes, cansa. O capítulo sobre drogas e o capítulo “Treat Your Career Like a Bad Boyfriend” são bem divertidos, e alguns pontos da parte “olha o que eu aprendi durante a vida” são bacanas e até úteis.

Change is the only constant. Your ability to navigate and tolerate change and its painful uncomfortableness directly correlates to your happiness and general well-being. See what I just did there? I saved you thousands of dollars on self-help books. If you can surf your life rather than plant your feet, you will be happier.

No fundo, acho que se não tivesse lido How to Be a Woman (acabei de perceber que nunca fiz resenha dele pro blog, só você!) e Just a Geek, talvez tivesse gostado bastante deste livro. É aquela coisa: Caitlin Moran é muito melhor ao falar de empoderamento feminino de uma forma engraçada, e Wil Wheaton é muito mais interessante ao falar de memórias do show business.

Yes Please talvez seja um bom livro de praia, mas não mais do que isso.

– Ana

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Desafio Literário 2013/ 2014 – Fevereiro

Falei que a gente ia cumprir! 🙂 Mas olha… o desafio desse mês é HARD.

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana vai ler O Alquimista, de Paulo Coelho.

Anna vai ler Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus, de John Gray. 

[GENTE, até escrever os nomes dos livros sem rir foi difícil!]

Chimamanda Ngozi Adichie – Hibisco Roxo

Ana,

você já chorou tanto com um livro que sua cabeça doeu? Eu já havia chorado por causa de livros (inclusive no ônibus, hehehe), mas geralmente isso acontece num trecho ou em outro. Com Hibisco Roxo, o choque passa para o choro com uma frequência tão rápida que você nem termina de digerir uma parte e já está chorando por outra.

Não que isso seja um qualificador. Acho que ser tocado por alguma obra (de arte, literária, música etc) é bem pessoal, e às vezes as pessoas me dizem que choraram por causa de alguns livros que me criam um preconceito instantâneo. Mas, em Hibisco Roxo, eu chorei da minha cabeça doer. Li o início do livro e fiquei espantada com a violência e a hipocrisia (ou fanatismo?) de Eugene, pai da protagonista (Kambili, uma menina de 15 anos), um nigeriano convertido ao catolicismo que chegou a um ponto tal de extremismo religioso que não fala com o próprio pai, um senhor já idoso que não abre mão da ancestralidade de seu povo. Quando retomei a leitura, não consegui parar até terminar tudo.

O choque do pai queimar os pés da própria filha por ter passado a noite na mesma casa que o avô (pagão) é maior quando você sabe que esse mesmo pai é dono do único jornal que se opõe ao governo militar cruel que tomou a Nigéria. Como pode? Como pode um homem riquíssimo que recebe filas e filas de pessoas famintas na sua porta não comprar remédio para o próprio pai? Como alguém que compra casa e carro pra amigos em dificuldade financeira vê a própria irmã cozinhando em fogão à querosene e se irrita quando sua esposa sugere que ele dê um botijão de gás de presente a ela? Como um cara que se penitencia e se confessa todos os fins de semana e sustenta uma igreja praticamente sozinho bate na mulher até ela abortar?

A família é riquíssima, e Kambili é chamada de patricinha na escola, onde não tem amigas. Seu melhor amigo é o irmão Jaja, de quem é muito próxima, e é quem começa a contestar o pai e tenta proteger a menina de seus maus tratos. Com o endurecimento da ditadura na Nigéria, o jornal do pai (que também é industrial) recebe ameaças do governo, e alguns de seus amigos e jornalistas começam a sumir ou a ser assassinados. O pai martiriza a família de uma forma que acaba por destruir a vida de todos, levando a caminhos que a gente sequer imaginava.

Não tem como não se apaixonar pela tia de Kambili, Ifeoma, irmã do pai e professora universitária, viúva e que cria os filhos de outra forma, apesar de também serem católicos. Não tem como não se apaixonar pelo Padre Amadi, por quem todas as meninas do bairro são apaixonadas, inclusive Kambili (e fica claro que ela é correspondida). Não tem como não ficar um pouco desesperada como Kambili e Jaja quando a única saída da tia, há meses sem salário e trabalhando numa universidade sucateada que recebe ameaças de “informantes” do governo militar o tempo todo, resolve se mudar para os Estados Unidos, e quando o Padre Amadi é transferido para a Alemanha. Você entra tanto na história que chora inclusive quando o visto da tia sai.

A timidez de Kambili (que ela descreve como “bolhas de ar na garganta”) e o pavor inflingido pelo pai fazem com que ela se veja sempre numa posição confusa de buscar a aprovação paterna a qualquer custo e se culpando por ter ficado em segundo lugar na turma, ou achando que realmente merece apanhar por ter feito uma oração, segundo o pai, “muito curta” antes do almoço. A mãe, também sempre acossada, não toca no assunto com ninguém e se restringe a cuidar dos ferimentos próprios e dos filhos depois das surras colossais.

O desespero de estar sem saída, de ver as únicas pessoas com quem se sentem bem irem embora, de uma religião opressora e de uma vida doméstica insuportável vai levando a vida dos personagens a decisões sérias.

Há muitas coisas a serem faladas sobre o livro. O amadurecimento da menina, o papel feminino (marcado pelo contraponto entre sua mãe e sua tia), as contradições do pai, a valoração da cultura europeia sobre a cultura africana, os medos e suas várias caras, o apoio e amor que ela encontra na casa da tia… mas acho que não conseguiria abarcar tudo. Esse é um daqueles livros que têm que ser lidos, talvez mais de uma vez. Eu ainda não tenho coragem suficiente pra ler uma próxima

– Anna

Malala Yousafzai – I am Malala

Anna,

I am Malala: The Story of the Girl Who Stood Up for Education and Was Shot by the Taliban estava na minha lista semi-imaginária de leituras (quando eu crescer eu vou ser organizada no Goodreads) desde que foi lançado. Lembro da indignação que senti em um nível muito pessoal quando ela foi baleada, e o meu desprezo pelo Talibã, que eu achava até então que já havia atingido o máximo.

 One year ago I left my home for school and never returned. I was shot by a Taliban bullet and was flown out of Pakistan unconscious. Some people say I will never return home but I believe firmly in my heart that I will. To be torn form the country that you love is not something to wish on anyone.

Para contar como foi baleada, é preciso explicar o contexto.  Malala conta a história do Paquistão, desde antes de sua fundação oficial, passando pelos golpes militares, até o momento atual. Após 11 de setembro, o movimento muçulmano fundamentalista ganhou força naquele país. Nesta fase, ela passa a narrar não apenas baseada em relatos ou livros, mas também no que viveu em sua aldeia. E é impossível não se revoltar com as atrocidades que uma mentalidade obcecada, pronta para deturpar um livro e dizer que “Deus mandou” é capaz de fazer –  e com naturalidade. Assim… de querer esmurrar os livros (tanto o Corão/Bíblia quanto o I am Malala), como se a culpa fosse deles. Em um pequeno disclaimer, acredito que a mentalidade que levou ao nazismo tinha um forte caráter ‘religioso’ neste sentido, entendam como quiserem. Não quero contar muitos detalhes para não fazer uma resenha gigante. Você PRECISA ler este livro. Sério.

 The Quran teaches us sabar – patience – but often it feels that we have forgotten the word and think Islam means women sitting at home in purdah or wearing burqas while men do jihad.

Mullahs often misinterpret the Quran and Hadith when they teach them in our country as few people understand the original Arabic. Fazlullah exploited this ignorance.

O pai de Malala fundou uma escola, e sonhava em educar toda a população. Quando o Talibã proibiu que meninas frequentassem a escola, ele saiu a público para protestar, e tentou de todas as formas reverter a proibição. E, junto com sua única filha (ela tem apenas dois irmãos, mais novos), deu entrevistas para rádios e televisões do mundo inteiro, chamando a atenção para o problema.

Life isn’t just about taking in oxygen and giving out carbon dioxide. You can stay there accepting everything from the Taliban or you can make a stand against them.

Lógico que isso não ia dar certo. Mas por um breve momento, você acha que tudo vai acabar bem, porque o Talibã é banido da área.  Então, duas coisas acontecem. Primeiro, você lembra que sabe que ela foi baleada pelo Talibã, ou seja, não vai acabar bem e eles não foram realmente banidos. Depois, Malala recebe uma ameaça formal .

I don’t know why, but hearing I was being targeted did not worry me. It seemed to me that everyone knows they will die one day. My feeling was that nobody can stop death; it doesn’t matter if it comes from a talib or cancer. So I should do whatever I want to do.

Muitas coisas ficam na mente depois de ler este livro. Medo do quão rapidamente uma coisa boa pode desaparecer porque algum religioso acha que está errado. Desprezo pela misoginia escancarada pregada pelo Talibã, desprezo pela má interpretação deliberada de qualquer livro, especialmente se o tal livro tiver como objetivo guiar o comportamento humano. Mas também fica o orgulho. Malala e seu pai são pessoas iluminadas, que fazem você esquecer a misantropia por alguns momentos. Ou pelo menos torná-la seletiva…   Mais uma vez, minha tese de que religião, embora possa ser bastante benéfica no âmbito pessoal, é extremamente prejudicial no ambiente público, é reforçada, à pauladas.

Já falei que você precisa ler este livro?

In Pakistan when women say they want independence, people think this means we don’t want to obey our fathers, brothers or husbands. But it does not mean that. It means we want to make decisions for ourselves. We want to be free to go to school or to go to work. Nowhere is it written in the Quran that a woman should be dependent on a man. The word has not come down from the heavens to tell us that every woman should listen to a man.

– Ana

Desafio Literário 2013/ 2014 – Janeiro

E você não acreditou que a gente finalmente ia deixar de ser cara de pão! 😀

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana já leu I am Malala, de Malala Yousafzai.

Anna já leu Hibisco Roxode Chimamanda Ngozi Adichie.