José Mauro de Vasconcelos — O Veleiro de Cristal

Desafio 2015: Livro ambientado em um lugar que você queira visitar


Ana,

No início da minha adolescência, eu relia muito (sim xD) O Veleiro de Cristal e O Menino do Dedo Verde, então fiquei na dúvida de qual deles reler pro desafio do ano passado — e que acabei não postando.

(note to self: ainda quero reler O Menino do Dedo Verde)

Apesar de ter relido esse livro várias vezes naquela época, eu não lembrava nada da história além de uma parte em que o  menino fica preso numas cordas no quintal, então foi como ler um livro novo. Devemos lembrar que é um livro voltado pro público juvenil e, dito isso, tenho duas críticas,

a) à linguagem; b) à pieguice.

A linguagem usada no livro, e pelos personagens, é muito formal e deixa tudo muito artificial. E, também por causa disso, o livro tem umas partes mega bregas e melosas (e também um tanto artificiais).

O personagem principal é Eduardo, um menino de 13 anos que nasceu com espinha bífida e hidrocefalia. Sua família deixa claro que não gosta dele e o quão seus outros dois irmãos são perfeitos e lindos e etc. Ele é cuidado por sua tia Anna (rá!), a quem é muito apegado. A tia é muito bonita, bondosa e rica (olha aí uma das artificialidades), e ama o menino como se fosse seu filho.

Eduardo precisa fazer uma cirurgia muito delicada no coração, e a tia o leva pra passar uns dias na casa de praia de um amigo antes da operação. É lá que ele conhece um sapo chamado Bolitrô (de Bolitreau), uma coruja empalhada aficcionada por assuntos mórbidos e um tigre chinês de bronze, Gakusha.

O livro é curtinho, triste e, embora não me arrependa de ter relido, acho que ele era muito maior e mais complexo (e também mais triste) na minha pouca lembrança dele. Desde essa época eu tinha vontade de ler outras coisas do autor, mas acho que a vontade passou.

-Anna

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Christopher Hitchens – The Missionary Position 

Anna,

Enquanto lia Deus, um Delírio, marcava vários dos livros citados para ler também. Resolvi começar por The Missionary Position: Mother Theresa in Theory and in Practice, simplesmente porque o Sky já tinha lido e me dito que era interessante. Aliás, as palavras dele foram “só leia se você quiser reforçar suas crenças, não acho que ele vá te surpreender”.

Those prepared to listen to criticism of Mother Teresa’s questionable motives and patently confused sociological policy are still inclined to believe that her work is essentially humane. Surely, they reason, there is something morally impressive in a life consecrated to charity. If it were not for the testimony of those who have seen the shortcomings and contradictions of her work firsthand, it might be sufficient argument, on the grounds that Mother Teresa must have done some genuine good for the world’s suffering people. However, even here the record is somewhat murky and uneven, and it is qualified by the same limitations as apply to the rest of Mother Theresa’s work: that such work is undertaken not for its own sake but to propagandise one highly subjective view of human nature and need, so that she may one day be counted as the beatific founder of a new order and discipline within the Church itself.

Madre Teresa de Calcutá é cercada de histórias e lendas que são difíceis de engolir se você não for um completo crédulo que acredita em absolutamente qualquer coisa que te digam. Como, por exemplo, a história do “milagre” da filmagem de 1969 no completo escuro que ficou clara e nítida devido à “luz interna” da Madre Teresa. Sério mesmo, gente? O mito, espalhado por Malcolm Muggeridge em seu livro “Something Beautiful for God”, vai além e diz que este é o primeiro milagre realizado por alguém vivo! E o pobre do cameraman que filmou a cena, Ken Macmillan, achando que era um milagre da Kodak!

Um editor do The Lancet (a maior revista médica do mundo) foi visitar a “Home for the Dying” em Calcutá em 1994, para avaliar os cuidados médicos lá oferecidos. E voltou horrorizado. Por orientação de Madre Teresa, analgésicos fortes não eram permitidos. Também não eram permitidos exames laboratoriais ou mesmo algoritmos simples para determinar se a doença é curável ou não. A desculpa não era falta de dinheiro, já que a fundação recebia há três décadas um volume considerável de doações em materiais e espécie (e que boa parte foi desviada para a construção de um convento e outros trabalho missionários). Sente o drama da desculpa: “Such systematic approaches are alien to the ethos of the home. Mother Teresa prefers providence to planning; her rules are designed to prevent any drift towards materialism: the sisters must remain on equal terms with the poor.

Hitchens entra em interessantes minúcias sobre esta instituição, citando várias fontes que trabalharam diretamente com Madre Teresa – não vou entrar em detalhes, obviamente, para não simplesmente copiar o livro inteiro. Fica claro que o objetivo não era curar ninguém. Até mesmo porque a “Santa” Madre Teresa preferiu buscar os melhores e mais caros hospitais do ocidente quando ela mesma ficou doente.

O nome de Madre Teresa também aparece em várias histórias de corrupção, como a carta que ela mandou para uma corte americana pedindo clemência para Charles Keating, que desviou depósitos de pequenos investidores no Estados Unidos no início da década de 1980. No auge de seu sucesso, Keating doou 1,250,000 dólares para as instituições de Madre Teresa, deixou-a usar seu jatinho privado, e ela em troca permitiu que ele usasse seu prestígio em ocasiões relevantes (além de dar-lhe um crucifixo personalizado). Um dos advogados de acusação respondeu a ela em uma carta bem articulada, explicando a natureza dos crimes e pedindo que ela fizesse o que Jesus faria se soubesse que havia recebido os frutos de um crime. O advogado achava que Jesus devolveria o dinheiro aos seus legítimos donos. Madre Teresa, provavelmente, interpretou de outra maneira. O advogado jamais recebeu uma resposta, e o dinheiro obviamente jamais foi devolvido. Finalmente, Hitchens detalha as (sórdidas) incursões políticas de Madre Teresa, especialmente no Haiti e em sua Albânia natal.  Spoiler: é de dar nojo.

Sky estava errado. O curto livro me surpreendeu sim. Eu sabia que ela não era a santa que tentou demonstrar ser, sabia que as operações em Calcutá eram ridiculas, e sabia do desvio de dinheiro. Não sabia da profundidade do aspecto político. Fiquei com nojo.

– Ana

H.G.Wells – The Island of Dr. Moreau

 

Ana,

Por coincidência, assim que terminei de ler A Ilha do Dr. Moreau eu assisti ao filme Tusk, uma comédia de horror (?) onde um marinheiro louco serial-killer transforma pessoas em… morsas.

A coincidência está no fato que ambos tratam de vivissecção, aquela técnica linda de dissecar um animal vivo pra propósitos variados (o mais cruel deles, no teste de cosméticos). Nas obras, a vivissecção é utilizada pra transformar animais em seres humanos (em Wells) e um humano em animal (uma morsa, no caso do filme).

Dr. Moreau é um médico britânico expulso da comunidade científica por seus experimentos cruéis com animais. Ele vive numa ilha com seu ajudante, o médico Montgomery, e muitos “nativos” que se descobre serem resultado dos experimentos de Moreau com animais.

O narrador (Prendick) é um inglês que foi resgatado por Montgomery em alto-mar e levado para a ilha. Enquanto espera um navio que o possa levar pra casa, ele vai tomando conhecimento dos experimentos que são feitos na ilha, bem como de seus habitantes.

Um aspecto que eu achei muito interessante na obra é o fato de Montgomery e Moreau terem criado uma espécie de religião (The Law) para manter o povo da ilha sob controle (tá-dá!). Há uma House of Pain, onde os seres seriam castigados por alguma corrupção à Lei, e a figura dos dois tem um quê de divino e deve ser respeitada. A Lei proíbe, inclusive, que se coma carne, para que os seres (muitos deles combinações entre animais, alguns carnívoros) não desenvolvam interesse pelo gosto de sangue, dentre outros hábitos próximos ao comportamento animal.

“Not to go on all-fours; that is the Law. Are we not Men?

“Not to suck up Drink; that is the Law. Are we not Men?

“Not to eat Fish or Flesh; that is the Law. Are we not Men?

“Not to claw the Bark of Trees; that is the Law. Are we not Men?

“Not to chase other Men; that is the Law. Are we not Men?”

(…)

“‘His is the House of Pain. His is the Hand that makes. His is the Hand that wounds. His is the Hand that heals.'”

Vou deixar essa citação da Lei pra você tirar suas próprias conclusões 😀

-Anna

Rainbow Rowell – Eleanor & Park 

Desafio 2015: Ambientado no Ensino Médio


 Anna,

decidi ler Eleanor & Park por uma única razão: ele apareceu em uma das listas de melhores do ano do Goodreads, na categoria “Young Adult”.

Eleanor é uma garota estranha. Ela é nova na escola, gorda, cabelos vermelhos e se veste de uma forma muito estranha. Parks é um garoto meio-coreano, “cool” o suficiente para ter seu próprio assento no ônibus da escola, mas não a ponto de ser popular. Eleanor entra no ônibus. Acaba tendo que sentar ao lado de Parks. Eles nem se olham. Óbvio. No ônibus e no colégio, temos a garota-totalmente-popular-e-bitch Tina, o garoto-sou-adulto-porque-tomo-cerveja Steve, e obviamente também, o bullying vai começar. Eleanor acabou de voltar para casa. Uma casa pequena, com quatro irmãos mais novos, uma mãe submissa e um padrasto cruel.  Aos poucos, Park e Eleanor vão se aproximando.

She was reading his comics. At first Park thought he was imagining it. He kept getting this feeling that she was looking at him, but whenever he looked over her, her face was down (…). Park didn’t say anything. He just held his comics open wider and turned the pages more slowly.

E, também aos poucos, se apaixonam. O livro é contado em terceira pessoa, mas alterna o foco entre Eleanor e Park. O que é ótimo, porque você entende os dois personagens em conjunto. E essa identificação me levou às lágrimas várias vezes. E essa identificação, como você pode imaginar, me fez ler o livro em uma sentada. E quis reler.

Because if she was going to cry about something, it was going to be the fact that her life was complete shit – not because some cool, cute guy didn’t like her like that. Especially when just being Park’s friend was pretty much the best thing that had ever happened to her.

Holding Eleanor’s hand was like holding a butterfly. Or a heartbeat. Like holding something complete, and completely alive. (…) Maybe I’m not attracted to real girls, he’d thought at the time. Maybe I’m some sort of perverted cartoon-sexual. Or maybe, he thought now, he just didn’t recognise all those other girls. The way a computer drive will spit out a disk if it doesn’t recognise the formatting. When he touched Eleanor’s hand, he recognised her. He knew

Quando tudo está indo relativamente bem, a situação na casa de Eleanor piora brutalmente.  E depois da piora, o plot-twist que você sabe que vai acabar acontecendo, mas realmente queria que não acontecesse.

Sem querer espoilear, mas o livro termina como um segundo filme de uma trilogia, ou como terminou o sexto livro do Harry Potter: “quem é R.A.B.?”. Lembro que (antes de sair o sétimo livro) saí gritando pra minha mãe e irmã quando descobri, no meio da noite: “CARA, é Regulus ‘qualquer coisa com A’ Black, certeza!”.

Neste caso, a pergunta é “quais foram as três palavras?”, e eu quero sair gritando a resposta.  Só pode ser uma, porque eu me apaixonei por Eleanor e por Park.

– Ana

PS: Quando escrevi a resenha, tinha escrito que “vou procurar ler mais da Rainbow Rowell”. Li logo em seguida “Fangirl”, e achei bem mais ou menos – tão mais ou menos que não vai nem ganhar resenha. Pois é, Cath e Wren realmente não são Eleanor e Park.