O Diabo Veste Prada – Lauren Weisberger

Ana,

DELS, que desafio mais desafio do mundo! Achei, pela primeira vez, que não ia conseguir terminar o tal do livro.

Eu tinha visto o filme e não lembro de quase nada — só da Meryl Streep perfeita. Que, aliás, é a grande diferença entre o livro e o filme.

Miranda Priestly é a chefe que inferniza a vida da sua assistente Andrea Sachs – uma menina recém saída da faculdade, procurando se encontrar no mercado editorial e que vai parar na maior revista de moda do mundo, a Runway (referência à revista Vogue). A Miranda do filme é aquele tipo de vilã tão bem montado, tão bem feito que todo mundo gosta. A do livro é uma VACA com todas as letras, e te faz morrer de raiva dela em todas as páginas.

O início do livro foi muito sofrido. De um tanto que, se não fosse pelo desafio, eu não teria lido (que o diga essa resenha SUPER atrasada). Chato, arrastado, água com açúcar, repetição de “fulana usava bolsa Prada, óculos Gucci etc.” até dar vontade de enfiar agulha nos olhos. O restante do livro não melhora muito, como era de se esperar, mas dá pra aguentar depois que já fomos tão longe. Já lá pra metade eu entendi a proposta da autora: fazer a gente ver que inferno de vida a menina leva. Ela passa páginas e páginas tomando esporro e levando a roupa da chefe pra lavar, ouvindo que tá gorda, que 38 (oh, god) é acima do padrão, que como assim ela usa tênis e moletom. Perde a amiga, perde o namorado, perde o nascimento do primeiro sobrinho. É feita de escrava por uma mulher completamente mimada e infeliz, e tem que ficar ouvindo que “mil garotas dariam a vida pelo seu emprego”.

A leitura não é imperdível, não indico pra ninguém, mas não mata. Exatamente como o filme.

O livro está um degrauzinho acima do filme porque, no meio de um desfile de moda esperadíssimo por todas, em Paris, na frente de todos e depois de sofrer uma pressão dos infernos durante 11 meses, em crise com os pais, o namorado e com a melhor amiga em coma depois de um acidente de carro, Andrea vira pra Miranda e diz “foda-se”. Virou heróia. Coisa que cortaram do filme, que consegue ter um final mais bobo que o do livro (que é bem mongo).

Carlos Ruiz Zafón – Marina

Anna,

No dia que terminei de ler Bridget Jones, reclamei no twitter e disse que precisava ler uma coisa BOA, pra destraumatizar. Minha querida amiga Camis (@MissCamilaD) me sugeriu Marina, e eu prontamente aceitei.

Óscar Drai é um garoto de 15 anos que estuda em um internato de Barcelona no fim da década de 70. Todos os dias, ele dribla a portaria ao final das aulas e passeia a pé, descobrindo a vizinhança. Até que um dia, ao escurecer, ele vê um gato atrase um portão de uma mansão aparentemente abandonada, e por instinto entra na propriedade. Vê uma silhueta de mulher, e, em pânico, pega um relógio e sai correndo.

Alguns dias depois, cheio de remorso, vai devolver o relógio. É assim que ele conhece Marina, que tem sua idade e vive no casarão com Germán, seu pai (e dono do relógio). Aos poucos, Óscar adota Marina e Germán como sua família, visitando-os sempre. Um dia, Marina e Óscar saem para passear e acabam no cemitério do bairro.

“O cemitério de Sarriá é um dos lugares mais escondidos de Barcelona. Quem procurar no mapa, não vai achar nada. […]. Os poucos que conhecem o segredo de sua localização suspeitam que, na verdade, o velho cemitério não seja mais do que uma ilha do passado que aparece e desaparece a seu bel-prazer”.

No cemitério, observam uma senhora vestida completamente de negro, com um capuz escondendo seu rosto. A senhora visita um túmulo sem nenhuma inscrição, apenas uma borboleta negra com asas abertas. E, CLARO, resolvem seguir a misteriosa senhora.

Só que nem em livros de fantasia isso é uma boa ideia… 😀 Não posso dar mais detalhes sem fazer spoiler terrível! 🙂

A trama, que até então estava normalzinha, toma um rumo interessante. Marina e Óscar têm um mistério em suas mãos, e resolvem ir atrás, com a curiosidade normal dos adolescentes entendiados que precisam dar um sentido à vida. A investigação é surreal (no sentido literal), e os personagens novos que esta investigação traz são bem interessantes e bem desenvolvidos.

Sem querer espoilear, mas já espoileando…. a transformação da percepção do leitor sobre o personagem principal da investigação, Mijail Kolvenik, é impressionante. Ele tem uma história trágica, que vai sendo descoberta aos poucos. O livro termina triste, e a cena final arrancou uma lagriminha disfarçada.

“Às vezes, as coisas mais reais só acontecem na imaginação, Óscar – disse ela [Marina]. – A gente só se lembra do que nunca aconteceu.”

Gostei muito da história e do estilo do autor. E eu, que nunca tinha lido nada do Zafón (se é modinha eu demoro mesmo #hipster), já quero ler os famosos! 🙂

Helen Fielding – Bridget Jones’s Diary

Anna,

acho que agora fizemos jus ao nome “Desafio”! QUE PARTO DE TRIGÊMEOS SEM ANESTESIA A FÓRCEPS que foi terminar este livro!!!! Antes de mais nada, quero declarar que não vi o filme, então não sabia onde estava me metendo… 😀

Bridget é uma mulher de trinta e poucos anos, com um emprego razoável, beleza média, que mora sozinha e…… é extremamente insegura e está desesperada pra “achar um namorado”. (Lembra a vibe do insuportável festival de vergonha alheia que era Sex and the City). Mas vamos que vamos. É um diário, certo? A adorável (not, mega not) personagem principal começa cada entrada diária listando peso, unidades de álcool, cigarros e calorias consumidas, bilhetes de raspadinha comprados, etc.

Seu drama é uma paixão por Daniel Cleaver, seu chefe, com quem ela troca SMSs picantes (eu sei, essa expressão foi breguérrima). Depois de muita enrolação, logo no primeiro encontro ele diz: “This is just a bit of fun, OK? I don’t think we should start getting involved“. Lógico, ela já está completamente envolvida, então (GRAÇAS!) ela se revolta e responde: “That is just such crap […] How dare you be so fraudulently flirtatious, cowardly and dysfunctional? I am not interested in emotional fuckwittage. Goodbye”.

(Neste momento criei uma certa esperança de que o livro iria melhorar drasticamente. Em vão.)

Esta revolta inicial não a impede de esperar flores e chocolates no dia dos namorados (oi??), nem de surtar. E nem, claro, de sair com ele de novo no futuro. E, mais claro ainda, nem de sofrer com outras “emotional fuckwittages”. E, em agosto, Daniel faz uma IMENSA e absolutamente previsível fuckwittage. Com o ódio que fui criando pela personagem, achei quase merecido.

“I shall be poised and cool and remember that I am a woman of substance and do not need men in order to be complete”.

Esta, e outras frases pseudo-feministas, também serviram pra me irritar completamente. Uma teria sido excelente se tivesse sido dita ironicamente, mas não foi:

“Wise people will say Daniel should like me just as I am, but I am a child of Cosmopolitan culture, have been traumatized by super-models and too many quizzes and know that neither my personality nor my body is up to it if left to its own devices.”

[Ok, eu ri da “filha da cultura da NOVA” – cabe um link pro Macarrão com Salsicha?]

Sendo justa, o livro menospiora (“melhora” é exagero) a partir do capítulo “Setembro”. A trama final, no entanto, é MUITO mal escrita, “far-fetched”, e de certa forma previsível. O resuminho do ano ao final (11 milhões e tantas calorias consumidas, etc) foi a última pá de cal.

Eu tinha escrito um parágrafo sobre como concordava com Bridget que pessoas que estão sempre perguntando “quando você vai (emagrecer, arrumar namorado, casar, ter filhos, ter um trabalho “decente”, etc etc etc)?” são insuportáveis, mas desisti. Nunca senti tão pouca empatia (leia-se: nenhuma) pelo personagem principal de um livro!

Resumindo: péssimo livro, preguiçosamente escrito, personagem principal sem nenhum carisma e absolutamente patética, uma tortura de ler, passe longe e queime cópias que encontrar por aí. 😀

Ondjaki – Bom Dia Camaradas

Anna,

como você percebeu pela minha resenha anterior, apaixonei-me pelo Ondjaki. Por isso resolvi ler outro dele! 🙂 E já quero ler o Agualusa também…

De novo, o autor trata de memórias da infância em Luanda, durante a guerra civil angolana.

“Então também percebi que, num país, uma coisa é o governo, outra coisa é o povo”. 

O menino, que claramente é de classe média, descobre as desigualdades. Enquanto os professores cubanos ficam perplexos com a abundância de comida, com crianças usando “sofisticados” relógios de pulso, o menino fica surpreso com a tia de Portugal que trouxera tantos presentes. Como ela conseguiu comprar tantas coisas? Como não há “cartão de abastecimento” (de racionamento, em português claro) em Portugal? Então as pessoas em Portugal vão às lojas e compram o que querem?

Pouco a pouco, o cenário de Angola vai se infiltrando na trama. Da praia que só pode ser usada por soviéticos ao forte esquema de segurança para o presidente, passando pelo “Caixão Vazio” (que não posso dizer o que é! :D) e pelos os comícios, Ondjaki nos força a lembrar que o menino, apesar de tudo, vive em um país em guerra.

“Mas quando, por exemplo, o presidente sai ao domingo, vai a casa de algum amigo, já não leva a polícia, às vezes até vai a pé – ela estava mesmo a falar sério, isso é que me deixou impressionado.

– O vosso presidente anda a pé? – até desatei de rir. – Epá, tenho que contar essa aos meus colegas!, ainda querem estigar os presidentes africanos… Presidente em África, tia, só anda já de mercedes, e à prova de balas.”

É sempre triste ver que uma guerra está sempre tão infiltrada na vida das crianças da região, por mais suave e belo que seja o texto.

“Guerra também aparecia sempre nas redacções, experimenta só mandar um aluno fazer uma redacção livre pra ver se ele num vai falar da guerra, até vai já aumentar, vai contar a estória do tio dele […]. Guerra vinha nos desenhos (as akás, os canhões monacaxito), vinha nas conversas (“tou a dizer, é verdade…”), […] vinha nos anúncios da tv (“ó Reagan, tira a mão de Angola…!”), e até vinha nos sonhos (“dispara, Murtala, dispara porra!”)

O menino cresce com tudo isso. Ao terminar o livro, fiquei de novo com aquela sensação de coração quente, de quase saudade de um personagem.

E como já é regra em resenha de livros angolanos, há que se falar sobre o idioma, um português tão mais lindo e sonoro. Adorei não somos só nós que nos deparamos com uma barreira idiomática! 🙂

 “- Mas espera… Vou te contar já outras estórias mais quentes…

– Mais “quentes”? – esse era o problema de falar com pessoas de Portugal, havia palavras que eles não entendiam.”

Ondjaki – Os da minha rua [2]

Estamos inaugurando a tag “Eu também li”, já que tanto eu como a Ana temos lido livros que a outra leu e recomendou enfaticamente (geralmente com uma ligação ameaçadora de “para o que tá fazendo agora e vai ler”, que só não pode ser obedecida no único caso de estarmos passeando com nossas gatas). E poderá acontecer também de uma ler um livro que a outra já leu no passado (e que poderá ser resenhado ou não), então ela (a tag) será bem usada por aqui! =D

Ana, eu liiiiii!

Gente, que lindeza! Os da minha rua me lembrou muito, muito o Bom dia camaradas, eu ficava recordando passagens do livro e de novo me emocionando!

Só tenho superlativos pra falar dele. Os contos são de uma doçura, de uma graça que fazem a gente rir ou chorar, não tem jeito. A escrita do Ondjaki dá uma inveja dessa infância cheia de amigos e cheiros e sentimentos.

Ah, e eu tenho uma história pra contar de porquê da minha curiosidade inicial com a literatura angolana 😛

Quando eu era criança, não sei em que série, no meu livro de Português tinha a história de uma menina chamada Luanda que morava em Luanda. Eu estava numa série bem inicial mesmo, o livro tinha ilustração e usava palavras bem sonoras pra chamar atenção (acho que por isso que a menina tinha o mesmo nome da cidade). Só que a Luanda dela era meio que uma vila — gente preconceituosa, né — tão bonitinha, tão tudo-bem-tudo-certo, tão feliz, e ela tinha amigos e um cachorro e tinha umas palmeiras em Luanda e ao mesmo tempo tinha praia. Eu não lembro nadica da história, mas lembro dos desenhos e do sentimento que eles e ela me davam. Acho que daí eu criei uma lembrança sentimental com Angola (que se confundia com a cidade, porque pra criança é tudo amesma coisa). E a literatura angolana (ou, pra ser mais precisa, esses dois escritores angolanos, Ondjaki e Agualusa) tem reforçado bastante essa identificação. Tou achando bem legal 🙂

Desafio Literário – Outubro

Outubro, mês afobado e, portanto, mês de chick lit! 🙂

Janeiro Escritores latino-americanos
Fevereiro Livros gastronômicos
Março Adaptação para o cinema
Abril Nobel
Maio Escritores asiáticos
Junho Nome próprio
Julho Serial killer
Agosto Ficção científica
Setembro Escritores africanos
Outubro Chick lit
Novembro Literatura Pop
Dezembro Contos

Esse vai ser desafio MESMO, nenhuma das An(n)as curte este gênero. 😀

Ana lerá Bridget Jones’ Diary, de Helen Fielding.

Anna lerá O diabo veste Prada, de Lauren Weisberger.