Alison Bechdel — Fun Home

Ana,

essa graphic novel de Alison (ainda não tenho certeza com que gênero ela se define 😦 ) foi mais uma indicação da mesma amiga que me indicou Hibisco Roxo e Feras de Lugar Nenhum. E ela acertou mais uma vez 😛

Fun Home (uma piadinha envolvendo funerária) é a autobiografia  de Alison Bechdel (a mesma do Teste de Bechdel) e sua relação com seu pai (também homossexual, um tanto quanto neurótico e com uma queda por rapazes mais novos).

Não há muito o que falar. Qualquer coisa em relação a uma autobiografia é, por definição, spoiler 😛 Alison abarca questões como (homos)sexualidade, relações familiares, os TOCs do pai com limpeza e organização e a suspeitíssima vontade dele de ver a filha (a única mulher) sempre impecavelmente “feminina”. Após a morte do pai — que todos suspeitam ter sido suicídio — Alison revisita pontos da sua vida e da vida do pai, e vamos percebendo como sua personalidade neurótica era intrinsecamente parte do fato dele nunca ter se assumido (talvez nem pra si mesmo).

Como você já leu, sabe que vale muitíssimo a pena. E, como eu nunca tinha lido nada da Bechdel, aumentou minha curiosidade 🙂

 

—Anna

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Moacyr Scliar – A Mulher que Escreveu a Bíblia

Ana,

pro desafio de março eu escolhi A Mulher que Escreveu a Bíblia porque, além de estar na minha fila de cabeceira mental (mas não mais tão mental assim) — por indicação de um colega de trabalho —, Moacyr Scliar é um autor que eu estava querendo reler há muito já. Lembro de ter lido muitos contos dele no período pré-faculdade e ter gostado bastante (pretendo reler J. J. Veiga também, outro autor com quem tive um contato rápido e de quem guardei ótimas lembranças).

O romance (ou novela?) é narrado em primeira pessoa por uma mulher que descobre, em sessões de terapia de vidas passadas, que foi esposa de Salomão (o rei bíblico). Aliás, uma das setecentas. E, embora a mais culta, inteligente e a única que sabia ler, ela era a mais feia. Aliás, a feiúra da personagem é uma constante em todo livro, tratada pela mesma, na maioria das vezes, com muito humor (característica do autor, aliás).

Digamos que na escala de zero a dez ele [Deus] se tenha autoconferido um oito, a imperfeição correndo por conta dos répteis e da feia.

(…)

Tenho belas mãos (aliás tenho belos seios, belos quadris — sou da variedade paradoxal conhecida como feia-de-cara-mas-boa-de-corpo), mas de há muito aprendera a conter minhas emoções. Já me bastava com ser feia; chorosa, eu ficaria um espanto.

A personagem (sem nome) é apaixonante! E, vamos dizer, até feminista ;D Já no prefácio, é dito sobre ela, pelo próprio autor, que

Não era um escriba profissional, mas antes uma pessoa altamente sofisticada, culta e irônica, destacada figura da elite do rei Salomão […]; uma mulher, que escreveu para seus contemporâneos como mulher.

A questão da mulher naquelas épocas pré-bíblicas é sempre lembrada também (os grifos são meus).

(era um varão que meu pai queria para primogênito; aliás, só queria filhos homens, mas Jeová o castigou dando-lhe três filhas, a primeira medonha)

(…)

Uma primogênita era sempre um inconveniente, para dizer o mínimo: não garantia sucessão, não ajudava no trabalho e ainda precisaria de um dote para poder casar. Agora, uma primogênita feia era mais do que isso, era um descalabro cujo destino só poderia ser o precipício.

A personagem vive tranquilamente até os 18 anos sem nunca ter visto um reflexo do próprio rosto. Um dia, descobre que a irmã mais velha tinha um espelho — artigo raro e de luxo — e resolve dar uma olhada.

— Resumindo, era isso o que eu via: a) assimetria flagrante; b) carência de harmonia; c) estrabismo (ainda que moderado); d) excesso de sinais.  Falta dizer que o conjunto era emoldurado (emoldurado! Essa é boa, emoldurado! Emoldurado, como um lindo quadro é emoldurado! Emoldurado!) por uns secos e opacos cabelos, capazes de humilhar qualquer cabeleireiro.

O que eu estava vendo era a feiúra arcaica, a feiúra ancestral, uma feiúra consolidada pelos anos, pelos milênios, talvez.

(…)

por que cedi à maldita curiosidade, à maldita vaidade? Por que não me arrancou Jeová da mão aquele revelador, mas funesto objeto? Hein, Jeová? Por que não tomaste alguma providência, tu que sabes tudo, tu que podes tudo? Podias ter reduzido o espelho a pó, com o simples ato de tua vontade. Por que não o fizeste? Será que não existes, amigo? Hein? Será que não passas de uma abstração, uma ilusão da ótica emocional? Aquilo, sem dúvida, era a resposta a um pecado, a um crime. Agora eu era a feia, e tudo em minha vida seria condicionado por essa feiúra.

Ainda assim, por ser a filha mais velha de um chefe de aldeia, ela é designada para se casar com o rei, por quem se apaixona profundamente. Salomão é descrito como um homem lindo, educado, inteligente mas… um pouco mané. Ao chegar no harém e ver a situação daquelas mulheres — confinadas o dia inteiro e vivendo totalmente para satisfazer o rei (a quem talvez só vissem uma vez durante toda a vida) — ela resolve dar um jeito nas coisas (e, claro, reinvindicar que o Salomão consume o casamento, coisa que não tinha acontecido até então)

O objetivo final do movimento seria, não acabar com a instituição harém — muitas mulheres nem saberiam viver em liberdade —, mas pelo menos estabelecer uma pauta de direitos.

Numa tentativa de fuga do palácio, Salomão descobre que a esposa — como pode? — sabe ler e escrever. O escriba de seu pai a havia ensinado escondido por ter visto nela uma grande inteligência e inadequação com a situação reservada à mulher naqueles tempos. E, pela primeira vez, ela é chamada ao quarto do marido à noite.

Em vez de uma declaração de amor, uma proposta editorial.

Salomão queria escrever seus feitos e de seus ancestrais. Aliás, porque não escrever sobre a criação do mundo? sobre Deus? ora, ele era Salomão, claro que ele podia. Mas os escribas designados para isso vinham falhando já há muito, e ele vê na mulher a oportunidade de ter sua grande obra (maior em importância até mesmo que o Templo de Salomão) finalmente ser acabada. Mas ela estava muito mais pendida a escrever ficção, hahaha! Sobre Adão e Eva (e a vida sexual dos dois), ela escreve

Todas as posições eram usadas, todas as variantes experimentadas, isso sob o olhar curioso das cabras e dos ornitorrincos e, mais, sob o olhar benévolo de Deus.  Que, na minha versão, não os expulsava do Paraíso; ao contrário, encorajava-os: agora que descobristes o amor, podeis enfrentar a vida como ela é, a vida cheia de som e de fúria.

Sua versão da Bíblia — muito melhor, aliás 😛 — é altamente censurada, claro. Ela enche os escribas de questionamentos (mas como Caim se casou com uma mulher de outra tribo se só sua família havia sido criada até então?), mas, com o tempo, ela vai ganhando mais e mais a admiração de Salomão, que a trata diferente das outras esposas (mas não ainda como esposa, mas como amiga, ou conselheira. Ou como um homem a quem admira, o que me lembrou aquele trecho de uma fala da Marylin Frye, de 1983

“Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais [fode] exclusivamente com [ou submete sexualmente] o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens héteros reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens.”)

Algumas vezes, em momentos de revolta (a vida com certeza é mais fácil pros estúpidos), a personagem maldiz a condição de inteligente (#quemnunca #modéstia)

Já não bastava tua feiúra, tinhas de bancar a inteligente?

Eu poderia falar eternamente desse livro, ou citá-lo inteiro. Mas vai lá na Dropbox, pra facilitar as coisas 😉

–Anna

Susie Orbach – A Gordura é uma Questão Feminista

Ana,

quando a Lola postou um tumbrl com um post só com links de livros feministas pra baixar,  um dos que me chamaram atenção logo de cara foi o A Gordura é uma Questão Feminista. Uma coisa eu já desconfiava, e que foi dito pela autora, Susie Orbach: a mulher gorda, mais do que o homem, é segregada e anulada, me lembrou uma entrevista com o Antônio Fagundes que eu li há muito tempo, onde a entrevistadora perguntava pra ele qual era o segredo do “charme” dele e se ele se achava mais bonito agora que estava mais velho. A resposta dele, que eu não lembro ipsis litteris, era algo mais ou menos assim: mais bonito? eu fumo, bebo, tenho olheiras e cabelos brancos. Estou pelo menos 10kg acima do peso. Por que pro homem isso é sinônimo de charme e beleza e pra uma mulher da minha idade seria questão de derrota? Não estamos usando vários pesos e várias medidas aí? — não tem como não respeitar alguém com uma opinião dessas, né? ❤ Eu achei de uma coerência fantástica. Porque essa cobrança com as mulheres?

a gordura é uma questão feminista. Ela é um problema social, nada tem a ver com a falta de controle ou de força de vontade da mulher, mas pode se tornar uma curiosa forma de protesto (…) aos papéis sociais opressores que, de saída, levam as mulheres a comer compulsivamente e, em seguida, à gordura.

O livro não trata de perder aqueles “últimos quilos que faltam antes do verão” ou “pra entrar naquele vestido”, apesar do subtítulo idiota de como perder peso pra sempre sem fazer dieta. Ele traz, principalmente, a questão da compulsão por comida — que pode se refletir em obesidade (e todas as suas consequências sociais) ou mesmo em anorexia (a mulher que se recusa a comer pode também ser uma compulsiva; interessante, né?). A autora busca entender por quais mecanismos essa compulsão acontece, e por que a enorme maioria de comedores compulsivos é composta por mulheres. Ela parte do princípio de que existe um desejo interno e inconsciente de ser gordo, e que a comedora compulsiva faz uso da gordura por algum motivo. Mas, pera. Por que? Tudo não seria muito mais fácil se fôssemos todas magras e lindas e não teríamos que nos preocupar com pré-julgamentos sociais e tudo mais? Por que alguém teria um desejo interno e inconsciente de ser gordo? Bem, se a resposta fosse fácil, estaria no Fantástico, e não num livro de uma psicoterapeuta e psicanalista feminista (já falei que eu tenho uma super queda por psicanálise?). 😛

Pois bem. Sabe aquela amiga magra que vive de dieta e que come como se fosse uma diabética?

as pessoas são, muitas vezes, induzidas a emagrecer quando não estavam anteriormente com excesso de peso. Deste modo tem início um ciclo de privação de comida e de compulsão de comer. As mulheres são especialmente suscetíveis a esses apelos em favor da perda de peso porque são educadas para adaptar-se a uma imagem de feminilidade que confere importância ao peso e à forma.

Começa aí: o que é ser mulher? O que nos é ensinado quanto a ser mulher?  Delicadeza, feminilidade, fragilidade, doçura, aceitação… autonegação!

as próprias palavras “mãe” e “esposa” evocam autonegação, enquanto que as imagens alternativas de mulheres — mulheres que fazem carreira, mães solteiras, lésbicas — provocam hostilidade e marginalização.

À mulher, desde muito cedo, é ensinado a ser o outro, porque o outro é diferente das pessoas normais — que são os homens. O ser humano standard é o homem. À mulher é guardado o papel do outro, do oposto; é esperado dela que seja esposa, mãe e objeto sexual. Para qualquer um desses papéis, a mulher precisa, voilà, do homem. Não é à toa que logo esses papéis sejam impostos. O papel de boa profissional ou de ótima estudante é colocado a ela por ela mesma. A sociedade patriarcal não espera que a mulher seja uma executiva de sucesso ou uma cientista brilhante. E muito da identidade da mulher se forma e depende da forma como ela se vê a partir das perspectivas do outro. Assim, a compulsão de comer talvez seja uma adequação à pressão sexista da sociedade contemporânea. Para muitas mulheres, comer compulsivamente e ser gorda tornou-se um meio de evitar ser vista como mercadoria ou como a mulher ideal. A gordura seria uma tentativa de evitar ser vista pelos outros com frivolidade, como mercadoria. Seria a tentativa da mulher de neutralizar suas características femininas. Uma das moças tratadas pela autora nos diversos grupos sobre compulsão que ela montou dizia que “A gordura fazia com que me sentisse como um dos rapazes” (não sei se tem algo na vida mais triste que essa declaração, pqp).

Como psicanalista, a autora coloca os vários fatores que levam a mulher a inconscientemente ser gorda (ou muito magra, no caso das anoréxicas): desejo de não ser notada (o que, ironicamente, se torna o oposto); desejo de se sentir mais firme, sólida e segura (a gordura seria uma espécie de escudo e a mulher não estaria mais na categoria de enfeite, mas de um ser humano capaz); desejo de não demonstrar fragilidade (sem a gordura a mulher tem a preocupação inconsciente de que seus sentimentos ficarão à mostra); desejo de dizer não e de expressar raiva/ ódio (as mulheres são energicamente desencorajadas a manifestar raiva, ódio, ressentimento e hostilidade, já que somos criadas para sermos recatadas e aceitar o que nos é dado. Como colocado pela autora, “Manifestar raiva é um ato de afirmação. A afirmação para as mulheres é difícil”); para algumas mulheres, o excesso de peso é uma forma de cumprir seu papel de provedora: ela é a mãe, a amigona, a que ajuda (papéis completamente dessexualizados), para outras, é uma rejeição a esse papel, é como se a gordura servisse pra manter os outros afastados para que não dependam dela nem lhe peçam nada; proteção sexual (tanto por medo de fracassar na vida sentimental como para não expressar sua sexualidade e se retirar da competição sexual que acontece a partir da puberdade); e pode ser uma manifestação das complexas relações entre mães e filhas (afinal, é com a mãe que a gente aprende nosso papel na sociedade).

Eu poderia falar muito mais do livro (e deveria, se eu não fosse uma preguiçosa), mas acho que duas citações fecham justamente o que eu tô tentando te dizer (que pode ser traduzido por: LEIA!):

o corpo da mulher não lhe pertence. O corpo da mulher, do jeito que é, não satisfaz. Tem de ser magro, sem pêlos supérfluos, desodorizado, perfumado e vestido. Deve adequar-se a um tipo físico ideal. A família e a socialização escolar ensinam as meninas a se enfeitar do modo certo. Além disso, o trabalho não tem fim, pois essa imagem muda a cada ano.

Fica claro desde o início que a autora não defende a compulsão por comida. Pelo contrário, ela coloca que, apesar de ser uma adaptação das mulheres às mensagens confusas que recebemos de como devemos ser e nos portar — mensagens que colocam os direitos conquistados e por conquistar do movimento feminista em conflito com o que a sociedade ainda espera de nós —, a gordura é, antes de tudo uma solução pessoal insatisfatória e um ataque político ineficaz.

Engordar continua sendo uma tentativa insatisfatória e infeliz de solucionar esses conflitos. É um preço muito penoso a se pagar, esteja a mulher tentando amoldar-se às expectativas da sociedade, ou tentando formar uma nova identidade.

 

Anna

Naomi Wolf – O Mito da Beleza

Anna,

comecei a ler O Mito da Beleza logo após uma conversa que tivemos sobre a estética da magreza – que culminou com a conclusão de que uma indústria que chama Liv Tyler de gorda realmente não tem nenhuma credibilidade e é, de certa forma, criminosa.

Estamos em meio a uma violenta reação contra o feminismo que emprega imagens da beleza feminina como uma arma política contra a evolução da mulher: o mito da beleza. (…) À medida que as mulheres se liberaram da mística feminina da domesticidade, o mito da beleza invadiu esse terreno perdido, expandindo-se enquanto a mística definhava, para assumir sua tarefa de controle social.

Esta premissa baseia o livro, e Wolf descreve como o mito da beleza oprime as mulheres em seis campos: trabalho, cultura, religião, sexo, violência e fome. É importante destacar que Wolf não está atacando a beleza em si, mas sim o padrão de beleza cada vez mais inatingível que a sociedade tenta nos impor – o padrão que diz que Liv Tyler (Liv Tyler, gente!) está acima do peso e, portanto, “errada”.

Quando li o capítulo “O Trabalho”, confesso que estava achando a discussão um pouco datada. Afinal, o livro foi escrito em 1992, e muita coisa mudou de lá pra cá, assédio sexual é crime e as mulheres, apesar de ainda ganharem menos que os homens, estão revertendo esta situação em vários locais. Até que Wolf fala sobre o “mito da feminista feia”, e eu me vi obrigada a pensar que o livro continua brutalmente atual. Principalmente, quando ela aborda o duplo padrão de beleza aplicado aos homens e as mulheres no ambiente de trabalho. Um exemplo (que ela cita no livro quase literalmente :D) é o William Bonner, que continua à frente do Jornal Nacional com seus cabelos brancos e suas “charmosas ruguinhas”, mas sua mulher foi substituída “pra seguir outros rumos” (entenda-se: estava ficando muito velha para o trabalho de âncora de telejornal em horário nobre).

As mulheres não passam de “beldades” na cultura masculina para que essa cultura possa continuar sendo masculina. Quando as mulheres na cultura demonstram personalidade, elas não são desejáveis, em contraste com a imagem desejável da ingênua sem malícia. Uma linda heroína é uma espécie de contradição, pois o heroísmo trata da individualidade, é interessante e dinâmico, enquanto a “beleza” é genérica, monótona e inerte. […] Já as obras escritas por mulheres viram o mito de cabeça pra baixo. Os maiores expoentes da literatura feminina têm em comum a procura pela beleza radiante, uma beleza com significado.

A seção sobre a evolução das revistas femininas – e como elas ajudam a aprofundar e perpetuar o mito da beleza – é interessantíssima. Achei esta passagem intensamente verdadeira:

 A eliminação dos sinais da idade dos rostos femininos tem a mesma ressonância política que seria provocada se todas as imagens de negros fossem costumeiramente clareadas. Essa atitude faria o mesmo julgamento de valor com relação aos negros que essa manipulação faz quanto ao valor da vida da mulher, ou seja, que menos vale mais. Eliminar os sinais de idade do rosto de uma mulher equivale a apagar a identidade, o poder e a história das mulheres.

Wolf compara de forma brilhante as “seitas de controle de peso” às religiōes. O capítulo sobre sexo é ainda mais interessante/relevante/revelador, embora eu queira acreditar que ele esteja datado. E conclui:

 A verdadeira questão não tem a ver com o fato de nós mulheres usarmos maquiagem ou não, ganharmos peso ou não, nos submetermos a cirurgias ou as evitarmos, transformarmos nosso corpo, rosto e roupas em obras de arte ou ignorarmos totalmente os enfeites. O verdadeiro problema é a nossa falta de opção. (grifo no original)

É impossível passar metade das idéias do livro em uma resenha, e nem é esse meu objetivo. O Mito da Beleza é uma leitura longa e densa (ao contrário de How to be a woman, que li e muito cara de pãomente ainda não resenhei). Mas é uma leitura indispensável pra quem quer entender porquê o feminismo ainda é necessário, e infelizmente continuará sendo por um bom tempo.

“Como Ser Mulher”, ou Feminista tem, sim, senso de humor

Ana,

Vi uma resenha desse livro no mulher alternativa e gostei tanto da ideia do “divertido manifesto feminino” que corri pra comprar (sou dessas).

Caitlin Moran – de quem eu nunca tinha ouvido falar e de quem agora sou fã – é uma jornalista britânica que escreve pro The Times (fiquei morrendo de vontade de ler as colunas dela, mas no way assinar o jornal, né :\). Ela tem um humor muito fantástico, que não cai no clichê, e narra suas experiências de vida sempre pelo viés do feminismo.

Ela mostra que as vantagens dos homens sobre as mulheres passam pelos aspectos mais sutis, onde muitas vezes as próprias feministas – ou as mulheres no geral – não atentam a elas: como o direito de ser engraçada, escrachada, de fazer piada, de andar bêbada. Ela conta que começou desde cedo a se fazer a pergunta: ora, se os meninos podem, POR QUE EU NÃO? A bio do Twitter da autora, inclusive, é “A woman, yes, but still funny“. Não sei você, mas eu achei isso revelador. Porque sempre a mulher engraçada é menos “atraente”, porque a mocinha dos filmes/ livros nunca é engraçada, porque fazer graça com as coisas é sempre atrelada à ideia de mulher descolada e independente, mas nunca da sexualmente satisfeita. Ora, por que temos que lidar com essas diferenças? Por que temos que engolir a dicotomia mulher feliz x mulher independente? POR QUE AS MULHERES TÊM QUE SER UMA COISA ou OUTRA? A inteligente não pode ser gostosa, a gostosa nunca é inteligente, a bonita é sempre frívola, a inteligente não pode gostar de maquiagem. E o mais comum: a competente profissionalmente nunca é sexualmente feliz, nunca é uma boa mãe, uma boa esposa etc.

Aliás, ela mexe justamente com os estereótipos. Mulher “de verdade” é a que quer ser mãe, a que “nasceu pra isso”? Por que o cara que não quer ter filhos nunca é visto como “incompleto” e a mulher que optou por isso sempre tem que encarar olhares de “alguma coisa não anda bem com ela”?

Há partes no livro de rolar de rir. Mesmo. Eu gargalhava tanto que assustava a pobre da Frida 😀

Ela conta da sua relação com a irmã, com as calcinhas herdadas da mãe (Jesus, como eu ri), com o trabalho, casamento, bebida, com as filhas, com o Rock, com o feminismo.

Já pro final, ela fala coisas maravilhosas sobre as intervenções cirúrgicas que eu, sinceramente, acho que deveriam ser colocadas em outdoors pelo mundo todo. Porque os caras tão por aí, grisalhos, com rugas, felizes ou não – e essa felicidade nunca está atrelada às rugas ou aos cabelos brancos. E nos é colocada uma pressão de parecer eternamente com 27 anos de idade (o que nunca dá certo, né. É só lembrar das tias da TV hoje em dia). E juventude não é e nunca deveria ter sido mensurada como qualidade (assim como beleza, né. Beleza não é qualidade, a pessoa deu sorte. Não que eu esteja louvando a feiura, mas tratar uma pessoa baseado em quanto ela está ou não dentro desses padrões modernos surreais – magra, alta, loira, cabelo comprido, jovem, dentes brancos, quadris estreitos e peitos grandes – é muita babaquice).

Eu acho, sinceramente, que toda mulher deveria ler esse livro. Eu mesmo já li tudo da Caitlin que consegui encontrar na Internet :D. Meo, ela ensinou as filhas pequenas a gritar “dane-se o patriarcado” quando caíssem, que fantástico! Achei muito a cara da Lola 😀

Pra terminar, tem duas coisas que ela fala das quais eu gostei muito:

“Simplesmente ser sinceras a respeito de quem realmente somos é metade da batalha. Se as coisas que você lê em jornais e revistas fazem com que você fique pouco à vontade e se sinta péssima, não compre! Se você se ofende com o fato de que a diversão corporativa se dá em bares com mulheres de peito de fora, que vergonha para os seus colegas! Se você se sente oprimida pela ideia de um casamento caro, ignore sua sogra e fuja para o cartório! E se você acha que uma bolsa de seiscentas libras é obscena, em vez de dizer, corajosa: “Vou ter que gastar todo o limite do cartão de crédito”, diga baixinho: “Na verdade, não tenho dinheiro pra isso”.

e

 “Ah, humanidade. Como permitimos que nossa estupidez fosse tão óbvia?”