Naomi Wolf – O Mito da Beleza

Anna,

comecei a ler O Mito da Beleza logo após uma conversa que tivemos sobre a estética da magreza – que culminou com a conclusão de que uma indústria que chama Liv Tyler de gorda realmente não tem nenhuma credibilidade e é, de certa forma, criminosa.

Estamos em meio a uma violenta reação contra o feminismo que emprega imagens da beleza feminina como uma arma política contra a evolução da mulher: o mito da beleza. (…) À medida que as mulheres se liberaram da mística feminina da domesticidade, o mito da beleza invadiu esse terreno perdido, expandindo-se enquanto a mística definhava, para assumir sua tarefa de controle social.

Esta premissa baseia o livro, e Wolf descreve como o mito da beleza oprime as mulheres em seis campos: trabalho, cultura, religião, sexo, violência e fome. É importante destacar que Wolf não está atacando a beleza em si, mas sim o padrão de beleza cada vez mais inatingível que a sociedade tenta nos impor – o padrão que diz que Liv Tyler (Liv Tyler, gente!) está acima do peso e, portanto, “errada”.

Quando li o capítulo “O Trabalho”, confesso que estava achando a discussão um pouco datada. Afinal, o livro foi escrito em 1992, e muita coisa mudou de lá pra cá, assédio sexual é crime e as mulheres, apesar de ainda ganharem menos que os homens, estão revertendo esta situação em vários locais. Até que Wolf fala sobre o “mito da feminista feia”, e eu me vi obrigada a pensar que o livro continua brutalmente atual. Principalmente, quando ela aborda o duplo padrão de beleza aplicado aos homens e as mulheres no ambiente de trabalho. Um exemplo (que ela cita no livro quase literalmente :D) é o William Bonner, que continua à frente do Jornal Nacional com seus cabelos brancos e suas “charmosas ruguinhas”, mas sua mulher foi substituída “pra seguir outros rumos” (entenda-se: estava ficando muito velha para o trabalho de âncora de telejornal em horário nobre).

As mulheres não passam de “beldades” na cultura masculina para que essa cultura possa continuar sendo masculina. Quando as mulheres na cultura demonstram personalidade, elas não são desejáveis, em contraste com a imagem desejável da ingênua sem malícia. Uma linda heroína é uma espécie de contradição, pois o heroísmo trata da individualidade, é interessante e dinâmico, enquanto a “beleza” é genérica, monótona e inerte. […] Já as obras escritas por mulheres viram o mito de cabeça pra baixo. Os maiores expoentes da literatura feminina têm em comum a procura pela beleza radiante, uma beleza com significado.

A seção sobre a evolução das revistas femininas – e como elas ajudam a aprofundar e perpetuar o mito da beleza – é interessantíssima. Achei esta passagem intensamente verdadeira:

 A eliminação dos sinais da idade dos rostos femininos tem a mesma ressonância política que seria provocada se todas as imagens de negros fossem costumeiramente clareadas. Essa atitude faria o mesmo julgamento de valor com relação aos negros que essa manipulação faz quanto ao valor da vida da mulher, ou seja, que menos vale mais. Eliminar os sinais de idade do rosto de uma mulher equivale a apagar a identidade, o poder e a história das mulheres.

Wolf compara de forma brilhante as “seitas de controle de peso” às religiōes. O capítulo sobre sexo é ainda mais interessante/relevante/revelador, embora eu queira acreditar que ele esteja datado. E conclui:

 A verdadeira questão não tem a ver com o fato de nós mulheres usarmos maquiagem ou não, ganharmos peso ou não, nos submetermos a cirurgias ou as evitarmos, transformarmos nosso corpo, rosto e roupas em obras de arte ou ignorarmos totalmente os enfeites. O verdadeiro problema é a nossa falta de opção. (grifo no original)

É impossível passar metade das idéias do livro em uma resenha, e nem é esse meu objetivo. O Mito da Beleza é uma leitura longa e densa (ao contrário de How to be a woman, que li e muito cara de pãomente ainda não resenhei). Mas é uma leitura indispensável pra quem quer entender porquê o feminismo ainda é necessário, e infelizmente continuará sendo por um bom tempo.

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3 respostas em “Naomi Wolf – O Mito da Beleza

  1. Mega amei a resenha! Já separei o arquivo pra colocar no Kindle, assim que ele chegar do Correio 😀

    Tenho achado esse assunto muito sério. Estamos numa época em que a tal da falta de opção está se tornando uma tortura.

  2. Pingback: O Mito da Beleza | Itinga - Lauro de Freitas

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