Susie Orbach – A Gordura é uma Questão Feminista

Ana,

quando a Lola postou um tumbrl com um post só com links de livros feministas pra baixar,  um dos que me chamaram atenção logo de cara foi o A Gordura é uma Questão Feminista. Uma coisa eu já desconfiava, e que foi dito pela autora, Susie Orbach: a mulher gorda, mais do que o homem, é segregada e anulada, me lembrou uma entrevista com o Antônio Fagundes que eu li há muito tempo, onde a entrevistadora perguntava pra ele qual era o segredo do “charme” dele e se ele se achava mais bonito agora que estava mais velho. A resposta dele, que eu não lembro ipsis litteris, era algo mais ou menos assim: mais bonito? eu fumo, bebo, tenho olheiras e cabelos brancos. Estou pelo menos 10kg acima do peso. Por que pro homem isso é sinônimo de charme e beleza e pra uma mulher da minha idade seria questão de derrota? Não estamos usando vários pesos e várias medidas aí? — não tem como não respeitar alguém com uma opinião dessas, né? ❤ Eu achei de uma coerência fantástica. Porque essa cobrança com as mulheres?

a gordura é uma questão feminista. Ela é um problema social, nada tem a ver com a falta de controle ou de força de vontade da mulher, mas pode se tornar uma curiosa forma de protesto (…) aos papéis sociais opressores que, de saída, levam as mulheres a comer compulsivamente e, em seguida, à gordura.

O livro não trata de perder aqueles “últimos quilos que faltam antes do verão” ou “pra entrar naquele vestido”, apesar do subtítulo idiota de como perder peso pra sempre sem fazer dieta. Ele traz, principalmente, a questão da compulsão por comida — que pode se refletir em obesidade (e todas as suas consequências sociais) ou mesmo em anorexia (a mulher que se recusa a comer pode também ser uma compulsiva; interessante, né?). A autora busca entender por quais mecanismos essa compulsão acontece, e por que a enorme maioria de comedores compulsivos é composta por mulheres. Ela parte do princípio de que existe um desejo interno e inconsciente de ser gordo, e que a comedora compulsiva faz uso da gordura por algum motivo. Mas, pera. Por que? Tudo não seria muito mais fácil se fôssemos todas magras e lindas e não teríamos que nos preocupar com pré-julgamentos sociais e tudo mais? Por que alguém teria um desejo interno e inconsciente de ser gordo? Bem, se a resposta fosse fácil, estaria no Fantástico, e não num livro de uma psicoterapeuta e psicanalista feminista (já falei que eu tenho uma super queda por psicanálise?). 😛

Pois bem. Sabe aquela amiga magra que vive de dieta e que come como se fosse uma diabética?

as pessoas são, muitas vezes, induzidas a emagrecer quando não estavam anteriormente com excesso de peso. Deste modo tem início um ciclo de privação de comida e de compulsão de comer. As mulheres são especialmente suscetíveis a esses apelos em favor da perda de peso porque são educadas para adaptar-se a uma imagem de feminilidade que confere importância ao peso e à forma.

Começa aí: o que é ser mulher? O que nos é ensinado quanto a ser mulher?  Delicadeza, feminilidade, fragilidade, doçura, aceitação… autonegação!

as próprias palavras “mãe” e “esposa” evocam autonegação, enquanto que as imagens alternativas de mulheres — mulheres que fazem carreira, mães solteiras, lésbicas — provocam hostilidade e marginalização.

À mulher, desde muito cedo, é ensinado a ser o outro, porque o outro é diferente das pessoas normais — que são os homens. O ser humano standard é o homem. À mulher é guardado o papel do outro, do oposto; é esperado dela que seja esposa, mãe e objeto sexual. Para qualquer um desses papéis, a mulher precisa, voilà, do homem. Não é à toa que logo esses papéis sejam impostos. O papel de boa profissional ou de ótima estudante é colocado a ela por ela mesma. A sociedade patriarcal não espera que a mulher seja uma executiva de sucesso ou uma cientista brilhante. E muito da identidade da mulher se forma e depende da forma como ela se vê a partir das perspectivas do outro. Assim, a compulsão de comer talvez seja uma adequação à pressão sexista da sociedade contemporânea. Para muitas mulheres, comer compulsivamente e ser gorda tornou-se um meio de evitar ser vista como mercadoria ou como a mulher ideal. A gordura seria uma tentativa de evitar ser vista pelos outros com frivolidade, como mercadoria. Seria a tentativa da mulher de neutralizar suas características femininas. Uma das moças tratadas pela autora nos diversos grupos sobre compulsão que ela montou dizia que “A gordura fazia com que me sentisse como um dos rapazes” (não sei se tem algo na vida mais triste que essa declaração, pqp).

Como psicanalista, a autora coloca os vários fatores que levam a mulher a inconscientemente ser gorda (ou muito magra, no caso das anoréxicas): desejo de não ser notada (o que, ironicamente, se torna o oposto); desejo de se sentir mais firme, sólida e segura (a gordura seria uma espécie de escudo e a mulher não estaria mais na categoria de enfeite, mas de um ser humano capaz); desejo de não demonstrar fragilidade (sem a gordura a mulher tem a preocupação inconsciente de que seus sentimentos ficarão à mostra); desejo de dizer não e de expressar raiva/ ódio (as mulheres são energicamente desencorajadas a manifestar raiva, ódio, ressentimento e hostilidade, já que somos criadas para sermos recatadas e aceitar o que nos é dado. Como colocado pela autora, “Manifestar raiva é um ato de afirmação. A afirmação para as mulheres é difícil”); para algumas mulheres, o excesso de peso é uma forma de cumprir seu papel de provedora: ela é a mãe, a amigona, a que ajuda (papéis completamente dessexualizados), para outras, é uma rejeição a esse papel, é como se a gordura servisse pra manter os outros afastados para que não dependam dela nem lhe peçam nada; proteção sexual (tanto por medo de fracassar na vida sentimental como para não expressar sua sexualidade e se retirar da competição sexual que acontece a partir da puberdade); e pode ser uma manifestação das complexas relações entre mães e filhas (afinal, é com a mãe que a gente aprende nosso papel na sociedade).

Eu poderia falar muito mais do livro (e deveria, se eu não fosse uma preguiçosa), mas acho que duas citações fecham justamente o que eu tô tentando te dizer (que pode ser traduzido por: LEIA!):

o corpo da mulher não lhe pertence. O corpo da mulher, do jeito que é, não satisfaz. Tem de ser magro, sem pêlos supérfluos, desodorizado, perfumado e vestido. Deve adequar-se a um tipo físico ideal. A família e a socialização escolar ensinam as meninas a se enfeitar do modo certo. Além disso, o trabalho não tem fim, pois essa imagem muda a cada ano.

Fica claro desde o início que a autora não defende a compulsão por comida. Pelo contrário, ela coloca que, apesar de ser uma adaptação das mulheres às mensagens confusas que recebemos de como devemos ser e nos portar — mensagens que colocam os direitos conquistados e por conquistar do movimento feminista em conflito com o que a sociedade ainda espera de nós —, a gordura é, antes de tudo uma solução pessoal insatisfatória e um ataque político ineficaz.

Engordar continua sendo uma tentativa insatisfatória e infeliz de solucionar esses conflitos. É um preço muito penoso a se pagar, esteja a mulher tentando amoldar-se às expectativas da sociedade, ou tentando formar uma nova identidade.

 

Anna

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6 respostas em “Susie Orbach – A Gordura é uma Questão Feminista

  1. An(n)as, não entendo nada de psicanálise e menos de feminismo. Ainda assim acho que o bom senso dita que qualquer que seja o motivo ou pecado qualquer exagero deve ser evitado (rimou! :P). Nesse caso então, é uma questão de saúde.

    No entanto, lendo o texto lembrei de um episódio em que ouvi um disco e curti pra caramba. Um dia a artista veio fazer um show gratuito na livraria cultura… saí de lá com a triste certeza de que ela não iria emplacar no mainstream. Acho que a Adele é exceção, mas é nítido que tentam “melhorar” a imagem dela, dando mais ênfase em seus cabelos loiros, olhos claros e enquadramentos e roupas “apropriadas”. Mas nem isso é possível para os marqueteiros da Tulipa Ruiz (a do show gratuito), que só vi na tv aberta num Som Brasil (madrugada de sexta). Aqui como no caso Bolsonaro, acho que é besteira culpar o marqueteiro (ou o deputado). Eles são representantes da maioria.

    • Alexandre, a questão de saúde tem sido bastante contestada, até. Principalmente com a criação de falsas imagens. Quantas mulheres magras você conhece que não se consideram magras? Quantas bonitas que não se consideram bonitas? Inteligentes etc.
      Quanto à mídia, a gente vê muito isso de “melhorar” a imagem do artista mesmo. Como se não se encaixar num determinado padrão fosse defeito.

      • Anna, quando falei em saúde e exagero pensei na questão da compulsão que você citou bastante no texto. Soa-me como um oxímoro compulsão saudável.

  2. A questão da saúde é sempre uma novela. Nos dois extremos (muito magro/muito gordo) há problemas de saúde, mas a verdade é uma só: não é porque a pessoa é gorda que ela é sedentária, se alimenta mal e tem as artérias entupidas. Tem até umas que vão pra academia quase todos os dias! (eu! :D) E não é porque a pessoa é magra que ela se alimenta bem, faz exercícios e está com os exames 100%. Quem come uma alface o dia inteiro vai estar com deficiência nutricional tanto quanto quem come junk food. Mas um padrão doentio é implicitamente glorificado, enquanto o outro é execrado.

    Quanto à mídia/marqueteiro: a Virginia Wolf fala muito disso no “O mito da beleza”. O marqueteiro é produto da cultura do “só magro é bonito”, mas é um produto perpetuador do padrão opressivo.

    Pela resenha da Anna (ainda não li o livro), eu discordo de alguns pontos do argumento da Susie Orbach. Vou ler e quando terminar continuo o debate!

  3. Ah, sim, Alexandre! A questão da compulsão é muito falada mesmo. Agora entendi bem seu comentário. Nesse caso, é questão de saúde até mesmo psicológica sim. 🙂

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