António Lobo Antunes – Auto dos Danados

(com o atraso mais descarado de todos os tempos, lá vamos nós:)

Ana,

como é difícil encontrar algo da literatura portuguesa pra ler sem que serja o Saramago! Eu fiquei completamente sem saber por onde começar a procurar, falta total de referências :/

Ainda assim, acho que fiz uma boa descoberta com Auto dos Danados. Cada capítulo do livro é narrado por um personagem diferente, quase todos sem nome (ele fala de “o dentista”, “a mongoloide”, “a casada com o dos bondes”, “o engenheiro” etc) e sem qualquer introdução — você tem que pescar depois de iniciado o capítulo quem é mesmo que está falando. Conta de uma família portuguesa falida, que se reúne durante as festas do povoado porque o avô está moribundo. A partir desse reencontro, vai se desenrolando as misérias da família: um casamento falido, onde ambos os cônjuges sabem dos amantes um do outro; um tio que já dormiu com todas as mulheres da família — e do povoado —, incluindo sua cunhada débil mental (de quem tem uma filha, e com quem acaba também tendo uma filha); casamentos por interesse; o patriarca que forjou a morte da própria esposa porque esta o abandonara; a mãe que abandona os filhos e o marido e vai morar no Rio de Janeiro com um surfista e por aí vai.

O realismo e o exagero com que as misérias da família são narradas de forma crua e seca mostra como gerações e gerações podem se manter sem amor, sem cuidados e sem nada a se apegar, a não ser o dinheiro que eles esperam depois da morte do velho. Mas o que resta da fortuna que o velho mesmo dilapidou em anos de jogos, bebidas e mulheres acaba sendo gasto em tratamentos para os dois filhos com problemas mentais e no tratamento do próprio pai. Com a aproximação da Revolução dos Cravos, a família, afogada em dívidas e com medo dos comunistas, foge na mesma noite da morte do velho para a Espanha.

A cena da morte do patriarca é narrada em conjunto com a cena da morte do touro (está havendo uma tourada, que fecha os festejos que estão ocorrendo na vila) e, pra mim, é o ponto alto do romance, onde todos os personagens vão se mostrando profundamente aliviados com isso. Não há máscaras para cair, todos estão ali com suas misérias e usuras expostas, sem esconder nada de ninguém. O período narrado é de grande catarse pra todos, onde não têm nada a esconder nem jogos a jogar. É tudo exposto, de forma feita, na sua miséria psicológica e mesmo material, de gente vivendo em subúrbios fedorentos e no meio de relações de traição e descontentamento.

“Está morto, disse eu à família a compor a gola do pijama do velho, a arrecadar os instrumentos, a preparar-me para abandonar o quarto, descer as escadas, enfrentar os perdigueiros, tornar a Reguengos na ambulância do hospital. Está morto, disse eu, arrastem-no da arena pelos cabos que lhe seguram os cornos, amarrem-lhe as patas e levem-no e dividam-lhe a carne e vendam-na no talho, podem embebedar-se dois ou três dias com o dinheiro do finado, esse bicho enteiriçado e grosso, sem majestade alguma, que sangrava e que sangrava ainda.”

Li a versão que achei na Internet, mas estou muito interessada em comprar o livro físico pra ler de novo.

Desafio Literário 2013/ 2014 – Outubro

Olha, não vou nem falar nada porque a gente é descarada/desorganizada mesmo. Vamos virar gente, quem sabe, um dia.

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana vai ler Wiseguy, de Nicholas Pileggi.

Anna vai ler Siberian Education, de Nicolai Lilin.

José Saramago – A Viagem do Elefante

Ou: um post descarado, no meio do mês seguinte, sobre um livro que forcei a barra para terminar de ler. Ou ainda: desafio quase fail.

Anna,

Desta vez achei que não ia conseguir. Foi duro terminar de ler o livro de “chick lit”, lá no desafio passado. Mas, por mais inacreditável que pareça, foi duro terminar “A Viagem do Elefante”.

Quando pensei no livro a ler para o desafio, parecia óbvio e quase infalível recorrer a Saramago. Uma chance de ler mais um livro deste autor fabuloso, assim, fácil? Logo depois de ler o excepcional Caim? Não poderia perder! Não sei bem o que me levou a escolher esta obra em particular. Talvez o fato da minha mãe adorar elefantes, e a perspectiva de viajar novamente com ela na semana passada? Honestamente, acho que foi isso. E isso obviamente NÃO é motivo para escolher um livro. (“I’ll only buy a book for the way it looks, then I’ll stick it on the shelf again”).

O livro narra a história do elefante Salomão, comprado pelo rei Dom João III de Portugal, para impressionar seus súditos, e depois presenteado ao arquiduque da Áustria, já que o elefante não impressionava mais nenhum português e tinha virado um belo estorvo. A viagem entre os dois países europeus é longa e tem seus momentos interessantes e poéticos. As criticas à humanidade, sempre tão presentes na obra de Saramago, também são vistas aqui, de forma contundente.

Não é que o livro seja RUIM. Algumas passagens são verdadeiramente brilhantes, como seria de se esperar do autor. Mas…. a verdade é que achei chato. A história de fundo, ainda que não seja importante, é tão besta que irrita. A metáfora da vida humana é talvez evidente demais, e a falta de sutileza me entediou. Não sou de reclamar de tamanho do livro, óbvio, mas este poderia ter 100 páginas a menos. Fácil. E provavelmente ainda seria… blé.

Desafio Literário 2013/ 2014 – Setembro

Um parabéns todo especial às blogueiras profissionais (hahahaha) que já começaram a ler os livros e ESQUECERAM DE POSTAR! (clap clap clap)

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana já está lendo A Viagem do Elefante, de José Saramago.

Anna já está lendo Auto dos Danados, de António Lobo Antunes