Jean-Paul Sartre – Entre Quatro Paredes [2]

Anna,

Não tinha nenhum interesse (nem desinteresse) em ler este livro até você resenhar. O que é engraçado, porque você falou claramente que o livro era chato! 😀 Não sei o quê, no meio da sua resenha, me despertou a curiosidade. E a curiosidade matou a Ana de tédio. Mas pelo menos ressuscitou a tag “Eu também li”! 😀

Os três personagens (Inês, Estella e Gavin, que você já descreveu e me economizou um parágrafo! :D) estão mortos, e não restam dúvidas de que estão no inferno. E um inferno muito mais desagradável do que o cristão com suas chamas e diabinhos (e Satanás tendo um caso com Saddam Hussein OH WAIT).

Quero sofrer de verdade! Prefiro cem dentadas, prefiro a chibata a esse sofrimento cerebral, esse fantasma de sofrimento, que roça, que acaricia, e que nunca dói o bastante.

Eu também, Sartre. Eu também. O livro nunca impacta o bastante, nem irrita o bastante. Não achei o livro chato, como você falou. Achei… bobo. Não foi por falta de captar a nuance psicológica, nem por falta de captar o contexto existencialista (que está presente, é bacana, mas meh), nada disso.  Foi só porque os personagens não são bem desenvolvidos, porque a trama é “meh” – e porque consigo imaginar este texto sendo interpretado por um grupo teatral de ensino médio vergonha alheia total. 😀

A melhor parte é realmente o final famoso que todo mundo repete: “o inferno são os outros”. Taí um ponto positivo do livro, já que agora entendi o  contexto desta frase, e posso empregá-la com propriedade. Conta?

– Ana

Jean–Paul Sartre – Entre Quatro Paredes

Ana,

quando eu escolhi Sartre para o desafio do Nobel, eu estava interessada em ler algo dele que não fosse puramente filosofia/ política. Acabei escolhendo Entre Quatro Paredes por ter sido o primeiro que consegui baixar com uma qualidade bacana pra converter pro Kindle 😛

Sartre levou o Nobel de 1964. Aliás, mas legal ainda: Sartre recusou o Nobel de Literatura de 1964  com o argumento de que aceitar um prêmio como esse era transformar o escritor em instituição. Na página dele do site, lemos:

The Nobel Prize in Literature 1964 was awarded to Jean-Paul Sartre “for his work which, rich in ideas and filled with the spirit of freedom and the quest for truth, has exerted a far-reaching influence on our age”.

Jean-Paul Sartre declined the Nobel Prize.

“Não, obg, não quero prêmio”

Entre Quatro Paredes é chato. Três personagens — um publicitário galinha, uma mocinha mimada da alta sociedade e uma funcionária dos Correios lésbica — são colocados numa mesma sala, de decoração demodê , sem janelas, com uma porta que não abre e uma luz que não se apaga nunca. Eles não se conhecem e não têm nada em comum. Daí eles se lembram que morreram e descobrem que estão no inferno. E têm que começar a lidar com várias coisas: a tensão da convivência entre si, o ciúmes que Inês (a funcionária dos Correios) sente de Garcín, pois está interessada em Estelle (a mocinha); os jogos de Estelle, que quer se pegar com Garcín ali na frente de Inês, só pra provocar; a covardia do próprio Garcín.

[Estelle]: Como é vazio um espelho em que não estou! Quando eu falava, sempre dava um jeito para que houvesse um espelho em que eu pudesse me ver. Eu falava e me via falar. Eu me via como os outros me viam. Por isso, ficava acordada. (Com desespero): Meu rouge! Tenho certeza de que pintei mal. Mas não posso ficar sem espelho por toda a eternidade!

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[Inês] (Quase com doçura): Por que a fez sofrer?

[Garcín] – Porque era fácil. Uma palavra bastava para fazê-la mudar de cor. Era uma sensitiva. Ah, nem uma censura! Sou muito implicante. Esperava, esperava sempre, mas nada. Nem um choro, nem uma censura.

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[Inês]: Eu, sim, sou má. Quer dizer, preciso do sofrimento dos outros para existir. Uma tocha. Uma tocha nos corações. Quando estou sozinha, me apago. Durante seis meses, eu ardi no coração dela: queimei tudo. Uma noite ela se levantou, foi abrir a torneira de gás, sem que eu percebesse. Depois voltou e se deitou ao meu lado.

Falando assim, o livro não parece de todo ruim. E não é. Só não é um texto bom, que você recomende. Se eu tivesse ido ver a peça, acharia muito, muito chato (mas temos que incluir o fato de eu não gostar de teatro).

O final é clássico e repetido mil vezes por aí.

[Garcín]: Então, é isso que é o inferno! Nunca imaginei. . Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno.. O inferno são os outros!

– Anna