Chuck Palaniuk – Clube da Luta [2]

Anna,

depois que você ROUBOU meu livro (:D), resolvi que era hora de ler Clube da Luta. E não me arrependi! Mas fiquei com uma grande dúvida: será que eu teria entendido os primeiros capítulos se não tivesse visto o filme? Ou teria achado o começo nonsense demais e largaria de mão?

Como você comentou na sua resenha, o livro é muito mais denso que o filme, o que é natural. Achei que por ter visto o filme, a leitura seria rápida. Não foi. É pesada, e tive que ir de pouquinho.

Você não é um floco de neve, bonito e único. É a matéria orgânica em decomposição como todo mundo e todos fazemos parte da mesma composteira.

Já calejada da abordagem em relação ao consumismo e tudo o mais (que é ótima), achei que Clube da Luta não iria me surpreender muito. Provavelmente foi por isso que gostei muito mais do aspecto psicológico da história. Percebemos que há algo de estranho na relação Protagonista Sem Nome (!)/Tyler desde o começo, com a repetição do bordão “Eu sei disso porque Tyler sabe disso”.

O processo que leva o protagonista dos grupos de auto-ajuda para pacientes de doenças crônicas (que ele finge ter para curar sua insônia) até a aceitação de que ele é Tyler Durden é intenso e empolgante. Escrevendo esta frase percebi que é por isso que o narrador não tem nome!

Se não conseguirmos chamar a atenção de Deus, não teremos a menor chance de condenação ou de redenção. O que é pior, o inferno ou nada?

Quem gostou do filme deveria REALMENTE ler o livro! E um pequeno comentário em off: reparou que todas as resenhas deste livro na internet começam com “a primeira regra do clube da luta…”? É a tiodopavêação do clube da luta. ¬¬

– Ana

Chuck Palahniuk – Clube da Luta

Ana,

Acho que não é novidade que eu adooooro Clube da Luta (o filme). Na verdade, eu tenho uma super queda por esses temas de autodrestruição, violência gratuita etc (Trainspotting, Requiem for a Dream, Funny Games, Death Proof, Laranja Mecânica, Natural Born Killers e por aí vai) e pela filosofia meio anárquica que perpassa essas histórias. Então, quando falamos em ler algo que fosse adaptação pro cinema, pensei logo nele! (e você também, eu sou uma voca roubona de livros 😦 ).

Fazendo um adendo: eu sempre discordei desse papo de que “o livro é melhor que o filme”. Acho que temos vários exemplos de bons (e até ótimos) filmes que são adaptações de livros. Tem uns péssimos, mas por favor! Senhor dos Anéis, O Silêncio dos Inocentes, Watchmen, e muitos, muitos outros são ótimas adaptações de livros que não deixam a desejar ao livro original. Claro, as pessoas esperam ver uma leitura dramatizada – e de acordo com o que elas próprias acharam dos livros –, aí é demais … (dsclp, Alan Moore).

ANFAN. Clube da Luta (o livro) é um daqueles que você para e pensa: por que eu não li antes? O filme faz muito jus ao livro, só que o livro – como era de se esperar – é muito mais extenso e cheio de detalhes. Em meio a receitas de napalm e formas de se estourar uma fechadura sem que a polícia descubra, o livro leva a autodestruição aos limites, a anarquia ao ápice. Ele questiona todo e qualquer aspecto das nossas vidas, do que somos e do que fazemos.

Você se sente como um desses macacos do espaço que só fazem aquilo que são treinados para fazer. Puxe a alavanca. Aperte o botão. Você não entende nada e, depois, simplesmente morre.

E critica fortemente a nossa sociedade de consumo, claro.

Você tem uma classe de mulheres e homens jovens e fortes que estão dispostos a dar a vida por alguma coisa. A publicidade persegue essa gente com carros e roupas desnecessários. As gerações vêm trabalhando em empregos que odeiam, comprando o que não têm a menor necessidade.

(…)

Você compra móveis. E pensa, este é o último sofá que vou comprar na vida. Compra o sofá, e por um par de anos fica satisfeito porque, aconteça o que acontecer, ao menos tem o seu sofá. Depois precisa de um bom aparelho de jantar. Depois de uma cama perfeita. De cortinas. E de tapetes. Então cai prisioneiro de seu adorável ninho, e as coisas que antes lhe pertenciam passam a possuir você.

(…)

Conheço pessoas que já se sentaram na privada com uma revista de sacanagem e hoje se sentam com um catálogo da IKEA.

(…)

Eu tinha uma coleção de mostardas especiais, algumas granuladas, outras em pasta como nos pubs ingleses. Tinha catorze sabores de molho para salada sem óleo e sete espécies de alcaparras. Eu sei, eu sei, uma casa repleta de condimentos e nenhuma comida de verdade.

(…)

Quem não sabe o que quer acaba tendo o que não quer.

O Clube da Luta – e todos os outros clubes de maldades, mentiras, destruição que se desenrolam a partir dele – é praticamente um outro mundo, uma sociedade à parte:

No clube da luta não sou a mesma pessoa que meu patrão conhece. Depois de uma noite no clube da luta, o mundo real não é mais o mesmo.

(…)

Antes, se eu chegasse em casa nervoso, vendo que a vida não estava de acordo com meus planos, bastava limpar o apartamento ou lustrar o carro. Um dia eu morreria sem nenhuma cicatriz e deixaria um apartamento e um carro muito bons. Muito bons mesmo, até juntar poeira ou mudar de dono. Nada é estático. Até a Mona Lisa está se desintegrando. Desde que o clube da luta começou, tenho metade dos dentes moles na boca.

A solução talvez seja a autodestruição.

E, de todas as quebras de certezas feitos no livro, os meus preferidos:

Só se pode ressuscitar depois do desastre. — Só depois de perder tudo você vai fazer o que quiser.

Nada é eterno. Nada é estático. Tudo está desmoronando.

Talvez devêssemos pensar sempre no pior.

Pense na possibilidade de Deus não gostar de você. É possível que Deus odeie a gente. Não é a pior coisa que pode acontecer.

Você não é o que faz para viver. Você não é a sua família e não é quem pensa que é.

Você não é o seu nome.

Você não é os seus problemas.

Você não é a idade que tem.

Você não é suas esperanças.

Vamos todos morrer um dia.

Fomos ensinados pela televisão a acreditar que um dia seremos milionários, astros de cinema e do rock, mas é mentira.

– Anna

Miss Minimalist: Inspiration to Downsize, Declutter, and Simplify – Francine Jay

Ana,

semana passada terminei de ler o Miss Minimalist: Inspiration to Downsize… É um livro empolgante! Me identifiquei com muitos posicionamentos da autora (que mantém o blog missminimalist.com) e ele me inspirou mais ainda em continuar lendo e “praticando” (não sei se essa seria a palavra) o minimalismo. Ele é menor que o The Joy of Less, A Minimalist Living Guide: How to Declutter, Organize, and Simplify Your Life, também dela (e que eu já baixei — livros grátis da Amazon, eu amo vocês). Mas é um livro l-i-n-d-o!

A ideia de que não precisamos acumular coisas, seguir a moda, trocar de TV todo ano e de carro a cada três é realmente um alívio. Diminuir nossas obrigações com as coisas que temos (pesquisar preços, comprar, guardar, limpar, manter, consertar etc. etc. etc.) é aumentar nosso tempo para as coisas que realmente gostamos e que acrescentam à nossa vida. A ideia de que não precisamos ter objetivos estritamente definidos na vida e vivermos pra eles, como numa corrida pra não sei onde (o capítulo sobre a beleza das flores selvagens é um amor), de que não precisamos viver pra trabalhar, que nós não somos o que nós temos… tudo isso é realmente uma libertação.

Acho que meus impulsos minimalistas começaram quando eu assisti Clube da Luta pela primeira vez (apesar de o filme não ser especialmente sobre minimalismo). A frase “Only after you lost everything that you free to do anything” nunca saiu da minha cabeça. E o Edward Norton passando as páginas de um catálogo e pensando “que tipo de jogo de jantar me define como pessoa?” para, lá na frente, ouvir de Tyler Durden “Você não é o seu emprego. Você não é quanto dinheiro você tem no banco. Você não é o carro que você dirige. Você não é o conteúdo da sua carteira. Você não é as calças cáqui que veste” é um choque de realidade (pra ficar bem no clichê).

Graças ao Kindle, consegui marcar umas coisinhas que eu volta e meia releio e acho que, sim, me identifico cada dia mais com o minimalismo. O principal, o que eu queria escrever numa camiseta, imprimir, fazer pôster, distribuir na rua, é esse:

“We’re sick of being slaves to debt and keeping up with the Joneses. We’re tired of working long hours at jobs we don’t like, to pay for things we don’t need. We’re unhappy with the clutter in our homes, and the commercialization of our holidays. We’re angry that human rights are violated to fill our stores with cheap clothes and plastic gizmos. We’re worried that our children and grandchildren won’t have the clean air and water that should be their birthright.

(…)

“Well, we declare “Enough!” We refuse to spend the better part of our lives desiring, acquiring, and paying for things. We are neither Consumers, nor Anti-Consumers, but Minsumers: we seek to minimize the role of consumption in our lives.

“We are an invisible army, and our offense is our absence: the empty spaces in the parking lot, the shorter checkout lines, the silence at the cash registers.

“We regard with a critical eye their attempts to make us feel unattractive, unsafe, and unsatisfied. We turn off the television, cancel our magazine subscriptions, and use ad-blocker in our web browsers.

“Most importantly, by not buying, we redefine ourselves: by what we do, what we think, and who we love, rather than what we have. And in the process, we rediscover the meaning in our lives. “