Alison Bechdel — Fun Home

Ana,

essa graphic novel de Alison (ainda não tenho certeza com que gênero ela se define 😦 ) foi mais uma indicação da mesma amiga que me indicou Hibisco Roxo e Feras de Lugar Nenhum. E ela acertou mais uma vez 😛

Fun Home (uma piadinha envolvendo funerária) é a autobiografia  de Alison Bechdel (a mesma do Teste de Bechdel) e sua relação com seu pai (também homossexual, um tanto quanto neurótico e com uma queda por rapazes mais novos).

Não há muito o que falar. Qualquer coisa em relação a uma autobiografia é, por definição, spoiler 😛 Alison abarca questões como (homos)sexualidade, relações familiares, os TOCs do pai com limpeza e organização e a suspeitíssima vontade dele de ver a filha (a única mulher) sempre impecavelmente “feminina”. Após a morte do pai — que todos suspeitam ter sido suicídio — Alison revisita pontos da sua vida e da vida do pai, e vamos percebendo como sua personalidade neurótica era intrinsecamente parte do fato dele nunca ter se assumido (talvez nem pra si mesmo).

Como você já leu, sabe que vale muitíssimo a pena. E, como eu nunca tinha lido nada da Bechdel, aumentou minha curiosidade 🙂

 

—Anna

George R. R. Martin — A Morte da Luz

Ana,

mais um da série “posts atrasados do Desafio” :(, o primeiro romance de George R. R. Martin, A Morte da Luz parece ter causado grande ansiedade entre os fãs de GoT. Eu comecei a ler As Crônicas de Gelo e Fogo e… bem, não é muito o meu tipo de leitura, então fui pra esse sem grande expectativas.

Não é um livro “oh, tem que ler”, mas é um bom passatempo. Num futuro não nomeado, raças de diferentes civilizações e mundos convivem (não lá em muita harmonia).  Em Worlon, um planeta que está morrendo, Dirk t’Larien atende a um chamado de uma antiga namorada, Gwen Delvano. O planeta havia sido palco de um grande Festival que reuniu vários povos, mas agora está abandonado e se afastando de sua órbita e condenado ao eterno inverno (winter is coming, oi?). Os terráqueos não são o povo  mais evoluído; pelo contrário, o que sobrou deles vive em cavernas e sobrevive da pesca.

Colônia Esquecida, que algumas vezes é chamada de Cidade Esquecida pelos habitantes dos mundos exteriores, sempre foi chamada de Terra por seu próprio povo. Em Alto Kavalaan, essas pessoas são chamadas de Povo Perdido.

Quando chega no país, Dirk descobre que Gwen, além de não estar muito feliz em encontrá-lo, está casada com um alto-senhor kavalariano, Jaantony Vikary. O foco principal do livro é no choque de culturas e costumes, e ele é extrema e exaustivamente detalhado. Há um tipo de relação, a teyn-e-teyn que me lembrou muito o que Marylin Frye fala (e que eu já citei em outro post), da relação entre homens:

Os padrões se mantiveram em duas formas mutantes; os fortes laços emocionais que cresceram entre os parceiros de caça masculinos se tornaram a base da relação total e intensa de teyn-e-teyn, enquanto aqueles homens que desejavam um laço semiexclusivo com uma mulher criaram as betheyns

Gwen é betheyn de Jaan e cro-betheyn de seu teyn. A relação entre os homens é muito mais próxima do que nós consideraríamos uma relação afetiva, e a relação com mulheres é quase que exclusivamente carnal. Há vários personagens interessantes, mas o casal principal, Gwen e Dirk, são ex-tre-ma-men-te chatos. Por duas vezes eu me peguei torcendo pra que morressem hauehauehauhea

Uma coisa que me irrita, não sei ainda se no autor ou na tradução, é o uso de palavras como Jadeferro, Açorrubro, Pedrardente, Lobodeinverno etc. Sério, acho MEGA PNC. Há uma nave chamada Mao Tsé-Tung e uma cidade chamada Ávalon, o que eu também acho dispensável (não sei como essas coisas funcionam tão bem em alguns casos — como em Matrix haver uma nave chamada Nabucodonosor e um Morpheus —, mas no caso do livro foi só lame mesmo).

Algumas questões são bem abordadas, como o papel da mulher (o que ele faz também em Game of Thrones). Aliás, um dos povos, os Jadeferro, até apagou da história que sua fundadora tinha sido uma mulher. Valem alguns destaques:

O que eles têm contra as mulheres? Por que é tão crítico que a fundadora de Jadeferro seja uma mulher?

(…)

Jamis-Leão Taal, ao vagar pela face do mundo muitas gerações mais tarde, havia sido tão filho de sua cultura que era incapaz de conceber um mundo no qual as mulheres tivessem um status diferente daquele que ele via; e quando foi forçado a pensar de outra maneira pelo folclore que coletara, achou a idéia perversamente intolerável.

(…)

Na verdade, não falaram muito de você, a maior parte do tempo a conversa girou em torno de Dirk. Afinal, você é apenas uma mulher.

Como era de se esperar, a trama não é nada previsível, o que pra mim é o grande mérito do autor.

—Anna

Keiji Nakazawa – Gen, Pés Descalços

Ana,

comecei a ler Gen, Pés Descalços depois de ouvir esse podcast. Como o mangá era o único dos citados que eu nunca tinha lido (#modéstia #seacha) e como eu li pouquíssimos mangás na vida — tão poucos que nem lembro de outros de cabeça —, resolvi testar essa ~novidade~

E por falar em novidade: eu nunca tinha lido nada em tantos volumes. São 10, d-e-z, tomos, e até hoje eu me pego na dúvida se li tudo porque gostei ou por TOC de começar a coleção e não terminar (eu tenho pavor de coisas em volumes. Pavor. Só comprei o Watchmen depois que eles lançaram a edição em volume único — a anterior eram 12 revistas — e acho que a s únicas coisas que eu assisti até hoje em mais de um volume foram Star Wars LOTR. Tenho os quatro volumes de Do Inferno, do Alan Moore, e ainda não me dignei a ler). E foi uma novela pra encontrar tudo. A Conrad só lançou no Brasil até o vol. 6 e em toda a Internet eu só consegui achar os quatro primeiros digitalizados (como que uma publicação lançada na década de 1970, com filme, ópera e musical baseados nela, é tão difícil de encontrar na rede?). Resultado: os quatro primeiros volumes eu li on-line e comprei dois na Estante Virtual em português e o restante na Amazon, traduzidos para o inglês pelo Projeto Gen.

Gen Nakaoka vive com os pais e cinco irmãos em Hiroshima, e tinha seis anos quando a cidade é destruída pela bomba atômica, em agosto de 1945. Ele perde o pai e dois irmãos na tragédia, um dos outros irmãos é mandado para a Marinha japonesa e a mãe e uma irmã acabam por morrer mais tarde devido a doenças relacionadas à bomba. A história vai ficando melhor de volume pra volume, mas ainda assim não é uma história fácil.

Gen é altamente autobiográfico. Aliás, é classificado como autobiografia, apesar de não ser fiel. Nele são mostrado os horrores da guerra e a forma cruel com as decisões de governos e impérios afeta a vida da população. Gen é um personagem muito otimista (sério, até irrita tanto always look to the bright side of life), mas não deixa de sofrer com a destruição da própria vida. O medo da morte e a perda de pessoas queridas está sempre presente, e Gen acaba por ser uma história muito violenta. Crianças apanham dos pais (o próprio Gen era amarrado pelo pai e espancado, mas isso não era visto como violência e sim como correção) e de professores, as cenas horrorosas do incidente com a bomba e de pessoas deformadas e morrendo são sempre recorrentes, pessoas querendo tirar proveito uma das outras mesmo nas piores situações e o governo americano (e antes disso as forças armadas japonesas) sacaneando o povo são exemplos que te deixam com um nó na garganta frequentemente.

Depois de cinco meses e 2500 páginas (hooray!), a mensagem que Gen me deixou é que a intenção do autor era a de  fazer um manifesto a favor da paz e contra guerras e governos. E, como o pai de Gen não cansava de repetir, devemos ser como o trigo, que mesmo pisoteado, batido e queimado pelo sol e pelo gelo, sempre renasce forte e pronto pra dar frutos — o que cai como uma luva quando pensamos na história de Hiroshima e Nagasaki.