Albert Camus – O Estrangeiro

Ana,

lendo O Estrangeiro eu tive a mesma sensação de que tudo é absurdo que eu tive quando li O Processo, do Kafka, mas talvez essa seja uma associação comum.

Meursault vive em Argel e leva uma vida mediana, da qual é muito satisfeito. Trabalha muito, mora sozinho e às vezes vai à praia ou visita sua mãe no asilo. Já no primeiro parágrafo, antológico, ele recebe um telegrama do asilo avisando que sua mãe havia morrido.

Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei.

Atordoado pelo calor e pelo constante sentimento de “tanto faz” que lhe é típico (ele responde isso quando seu chefe lhe oferece um emprego em Paris, quando uma amiga o pede em casamento, quando o advogado pergunta se ele quer passar a vida inteira na cadeia…), ele participa meio indiferente do velório e enterro da mãe, fato que, lá na frente, vai ser usado contra ele no tribunal, pra onde é levado por uma torrente de acontecimentos que variam entre o casual, o banal e o inevitável e terminam com ele matando um árabe (lembra da música do The Cure?), irmão de uma moça com quem seu vizinho se envolvera.

Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes, e era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça.

No julgamento, o fato de não ter aparentemente sofrido com a morte da mãe volta-se contra ele, o que no início não faz o mínimo sentido…

— Afinal, ele é acusado de ter enterrado a mãe ou de matar um homem?

…mas acaba fazendo com que ele passe a ser considerado um sociopata pelos juízes e advogados.

Assim, Meursault é condenado à morte, o que fecha o ciclo do absurdo. Mas, como ele mesmo diz, citando a mãe, não há nada com que um homem não se acostume. Com as tentativas do capelão da igreja de fazê-lo aceitar a Deus para ser perdoado (Meursault se considera ateu), ele chega à conclusão de que o universo não é bom nem ruim com e para a vida humana. Ele é simplesmente indiferente.

Como se essa grande cólera tivesse lavado de mim o mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de signos e estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Ao percebê-la tão parecida a mim mesmo, tão fraternal, enfim, eu senti que havia sido feliz e que eu era feliz mais uma vez. Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, restava-me apenas desejar que houvesse muitos espectadores no dia de minha execução e que eles me recebessem com gritos de ódio.

–Anna

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Simone de Beauvoir – A Very Easy Death

Anna,

Eu não tinha dúvidas de que leria algo da Simone de Beauvoir para este desafio de autores franceses – ainda mais depois do trauma de Sartre! Ao escolher o título para o desafio de dezembro (em dezembro mesmo, olha isso!), esbarrei em um problema comum. Não o encontrava – quer dizer, 8 doletas na Amazon para o Kindle, que eu já estava até disposta a pagar #murrinha. Na pesquisa, descobri o Open Libraryum site que EMPRESTA ebooks de graça e possui um catálogo substancial. É aquela chatice de DRM, tem que abrir naquela feiúra do Adobe Digital Editions, e o livro fica disponível pra você por duas semanas apenas – o que na verdade é uma coisa boa, porque nos impede de enrolar. Apesar disso, achei bacana e fiquei empolgada!

Voltando ao livro. Simone de Beauvoir recebe uma ligação em Roma: sua mãe, uma senhora de 77 anos que já não andava muito bem, teve um acidente em casa e quebrou o fêmur. Alguns exames depois, os médicos descobrem um câncer, que será provavelmente fatal nas próximas horas. Como Mme. Françoise sempre temeu esta doença, as filhas e os médicos optam por não contar a verdade.

 She had told my sister of a nightmare that she often had. ‘I am being chased: I run, I run, and I come up against a wall; I have to jump over this wall, and I do not know what there is behind it; it terrifies me.’ She also said to her, ‘Death itself does not frighten me; it is the jump I am afraid of.’

Após uma cirurgia, a mãe acha que está convalescendo – suas filhas sabem que ela está morrendo. Simone (olha a íntima) entra em uma série de reminiscências a respeito da mãe. E, com o passar dos dias, indas e vindas de hospital, começa a estabelecer uma nova relação com ela. Um resgate do que parecia completamente perdido.

 For me, my mother had always been there, and I had never seriously thought that some day, that soon I should see her go. Her death, like her birth, had its place in some legendary time.

I had grown very fond of this dying woman. As we talked in the half-darkness I assuaged an old unhappiness; I was renewing the dialogue that had been broken off during my adolescence and that our differences and our likeness had never allowed us to take up again. And the early tenderness that I had thought dead for ever came to life again, since it had become possible for it to slip into simple words and actions.

Como o título já entrega, Mme. Françoise morre. E com a morte vem a reflexão filosófica que encerra o livro – e ela é tão bonita, tão direta, precisa e ah, tão bem escrita.

There is no such thing as a natural death: nothing that happens to a man is ever natural, since his presence calls the world into question. All men must die: but for every man his death is an accident and, even if he knows it and consents to it, an unjustifiable violation.

O livro é maravilhoso. Li em duas sentadas, mas porque “economizei” (e alternei com o Naked Lunch, que já estava me enchendo o saco). Ao contrário daquele livro, que também é considerado “obra-prima” do respectivo autor, foi fácil enxergar em “A very easy death” todo o brilhantismo, sutileza e precisão de Simone de Beauvoir.. Recomendo a leitura para todas as pessoas que conheço. Até para as que não gosto, pra você ver.  😀

– Ana

Desafio Literário 2013/ 2014 – Dezembro

Já estamos quase alcançando! 😀

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana já leu A Very Easy Death, de Simone de Beauvoir.

Anna já leu O Estrangeirode Albert Camus.