Scott Westerfeld – Uglies

Anna,

Mais um livro do Humble Ebook Bundle! Quando comprei, não prestei a mínima atenção ao Uglies. Nem lembrava que ele estava lá, na verdade! Ao olhar a lista do Goodreads, vi e pensei “ah, ok, vamos logo ler esse livro que já estamos bem atrasadas com tudo isso!”. Uma ótima surpresa me esperava.

Uglies se passa em algum momento do futuro. A vida é dividida em fases: “littlies” (dos 0 aos 12 anos, quando os filhos vivem com os pais); “uglies” (dos 12 aos 16 anos, onde as pessoas vivem em uma espécie de internato); e finalmente, “pretties” (dos 16 anos em diante). Ao completar 16 anos, as pessoas são submetidas a uma brutal cirurgia, que as transforma em seres humanos perfeitamente lindos, prontos para viver uma vida extremamente feliz. É uma sociedade extremamente igualitária, auto-sustentável e harmônica, onde todos são felizes. E lindos. Ótimo, né?

Tally está prestes a completar 16 anos. Seu melhor amigo, Peris, acabou de fazer a cirurgia, por ser 3 meses mais velho, e já está morando em Prettyville. Tally, agora sozinha, mal pode esperar pela cirurgia.

The mansion was full of brand-new pretties – the worst kind, Peris always used to say. They lived like uglies, a hundred or so together in a big dorm. But this dorm didn’t have any rules. Unless the rules were Act Stupid, Have Fun, and Make Noise.

Neste intervalo, Tally conhece Shay – uma ugly diferente, que até hoje não fez o desenho de como quer ser após a cirurgia. Estranho, já que todos fazem isso desde que são littlies! A nova amiga apresenta uma teoria inusitada: os Rusties (a sociedade anterior, que explorou a natureza até o limite e teoricamente havia morrido em guerras contra si mesmos – ou seja, nós) ainda existem. E que talvez não seja tão ruim ser feio a vida inteira. Às vésperas de fazer 16 anos, Shay foge.  É o que posso contar sem muitos spoilers!

It was hard to think of the Rusties as actual people, rather than as just an idiotic, dangerous, and sometimes comic force of history.

A crítica ao culto da beleza é extremamente óbvia, mas por alguma razão não se torna sacal. Após a fuga de Shay, você aprende muito sobre os Rusties, a cirurgia e o segredo da sociedade perfeita. É uma pena que eu não possa comentar mais nada – os trechos que destaquei após a fuga de Shay são tão mais interessantes! ENGOLI o livro em uma tarde e já estou planejando ler os demais. Fiquei um pouco decepcionada, ao final do livro, quando descobri que ainda haveriam mais três – pareceu exagero, ao estilo da divisão do Hobbit em três filmes… veremos.

– Making ourselves feel ugly is not fun.

– We are ugly!

– This whole game is just designed to make us hate ourselves.

– Ana

Desafio Literário 2013/ 2014 – Abril

E depois de muitos debates via e-mail, “o que é que a gente disse que era futurismo mesmo?” (Resposta: livros ambientados no futuro, dãã), vamos ao desafio de abril!

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana vai ler Uglies, de Scott Westerfeld

Anna vai ler A Morte da Luz, de R. R. Martin

Reinaldo Moraes – Tanto Faz

Anna,

Esta vai ser uma resenha curtinha. O livro não merece muito mais do que isso. O título é bastante preciso, já que tanto faz ler ou não.

Final da década de 1970. O narrador, Ricardo, é enviado a Paris por um ano, com uma bolsa de pesquisa pra estudar economia. Mas o que ele quer é curtir.

Talvez em 1981 este tema tenha sido revolucionário, interessante e cool, contando de forma glamurizada a história de pessoas de 20 e muitos, 30 e poucos anos que não são “adultas” no sentido tradicional de casado-com-dois-filhos, usam drogas, transam sem muito compromisso, blá blá blá.  Em 2014…. bitch, please. Todo mundo é mais ou menos assim! Então você está no fundo lendo a história de pessoas irritantemente comuns e desinteressantes.

Algumas tiradas são bacanas, algumas “aventuras sexuais” (estou me sentindo a Veja!) são ótimas e me fizeram rir. Mas nada que me faça recomendar, nada que me faça querer ler outro livro do autor, etc. Estaria eu ficando velha? Ou é só fruto do meu mau humor causado você-sabe-por-quem? Embora às vezes eu me lembrasse de Naked Lunch, Tanto Faz é mil vezes melhor. O que realmente não quer dizer muito.

“Para mim, a angústia é um gato vira-lata com patas de pluma e corpo de chumbo. Sinto suas andanças dentro da caixa do peito, mas nunca sei onde ele está exatamente”

 – Ana

Moacyr Scliar – A Mulher que Escreveu a Bíblia

Ana,

pro desafio de março eu escolhi A Mulher que Escreveu a Bíblia porque, além de estar na minha fila de cabeceira mental (mas não mais tão mental assim) — por indicação de um colega de trabalho —, Moacyr Scliar é um autor que eu estava querendo reler há muito já. Lembro de ter lido muitos contos dele no período pré-faculdade e ter gostado bastante (pretendo reler J. J. Veiga também, outro autor com quem tive um contato rápido e de quem guardei ótimas lembranças).

O romance (ou novela?) é narrado em primeira pessoa por uma mulher que descobre, em sessões de terapia de vidas passadas, que foi esposa de Salomão (o rei bíblico). Aliás, uma das setecentas. E, embora a mais culta, inteligente e a única que sabia ler, ela era a mais feia. Aliás, a feiúra da personagem é uma constante em todo livro, tratada pela mesma, na maioria das vezes, com muito humor (característica do autor, aliás).

Digamos que na escala de zero a dez ele [Deus] se tenha autoconferido um oito, a imperfeição correndo por conta dos répteis e da feia.

(…)

Tenho belas mãos (aliás tenho belos seios, belos quadris — sou da variedade paradoxal conhecida como feia-de-cara-mas-boa-de-corpo), mas de há muito aprendera a conter minhas emoções. Já me bastava com ser feia; chorosa, eu ficaria um espanto.

A personagem (sem nome) é apaixonante! E, vamos dizer, até feminista ;D Já no prefácio, é dito sobre ela, pelo próprio autor, que

Não era um escriba profissional, mas antes uma pessoa altamente sofisticada, culta e irônica, destacada figura da elite do rei Salomão […]; uma mulher, que escreveu para seus contemporâneos como mulher.

A questão da mulher naquelas épocas pré-bíblicas é sempre lembrada também (os grifos são meus).

(era um varão que meu pai queria para primogênito; aliás, só queria filhos homens, mas Jeová o castigou dando-lhe três filhas, a primeira medonha)

(…)

Uma primogênita era sempre um inconveniente, para dizer o mínimo: não garantia sucessão, não ajudava no trabalho e ainda precisaria de um dote para poder casar. Agora, uma primogênita feia era mais do que isso, era um descalabro cujo destino só poderia ser o precipício.

A personagem vive tranquilamente até os 18 anos sem nunca ter visto um reflexo do próprio rosto. Um dia, descobre que a irmã mais velha tinha um espelho — artigo raro e de luxo — e resolve dar uma olhada.

— Resumindo, era isso o que eu via: a) assimetria flagrante; b) carência de harmonia; c) estrabismo (ainda que moderado); d) excesso de sinais.  Falta dizer que o conjunto era emoldurado (emoldurado! Essa é boa, emoldurado! Emoldurado, como um lindo quadro é emoldurado! Emoldurado!) por uns secos e opacos cabelos, capazes de humilhar qualquer cabeleireiro.

O que eu estava vendo era a feiúra arcaica, a feiúra ancestral, uma feiúra consolidada pelos anos, pelos milênios, talvez.

(…)

por que cedi à maldita curiosidade, à maldita vaidade? Por que não me arrancou Jeová da mão aquele revelador, mas funesto objeto? Hein, Jeová? Por que não tomaste alguma providência, tu que sabes tudo, tu que podes tudo? Podias ter reduzido o espelho a pó, com o simples ato de tua vontade. Por que não o fizeste? Será que não existes, amigo? Hein? Será que não passas de uma abstração, uma ilusão da ótica emocional? Aquilo, sem dúvida, era a resposta a um pecado, a um crime. Agora eu era a feia, e tudo em minha vida seria condicionado por essa feiúra.

Ainda assim, por ser a filha mais velha de um chefe de aldeia, ela é designada para se casar com o rei, por quem se apaixona profundamente. Salomão é descrito como um homem lindo, educado, inteligente mas… um pouco mané. Ao chegar no harém e ver a situação daquelas mulheres — confinadas o dia inteiro e vivendo totalmente para satisfazer o rei (a quem talvez só vissem uma vez durante toda a vida) — ela resolve dar um jeito nas coisas (e, claro, reinvindicar que o Salomão consume o casamento, coisa que não tinha acontecido até então)

O objetivo final do movimento seria, não acabar com a instituição harém — muitas mulheres nem saberiam viver em liberdade —, mas pelo menos estabelecer uma pauta de direitos.

Numa tentativa de fuga do palácio, Salomão descobre que a esposa — como pode? — sabe ler e escrever. O escriba de seu pai a havia ensinado escondido por ter visto nela uma grande inteligência e inadequação com a situação reservada à mulher naqueles tempos. E, pela primeira vez, ela é chamada ao quarto do marido à noite.

Em vez de uma declaração de amor, uma proposta editorial.

Salomão queria escrever seus feitos e de seus ancestrais. Aliás, porque não escrever sobre a criação do mundo? sobre Deus? ora, ele era Salomão, claro que ele podia. Mas os escribas designados para isso vinham falhando já há muito, e ele vê na mulher a oportunidade de ter sua grande obra (maior em importância até mesmo que o Templo de Salomão) finalmente ser acabada. Mas ela estava muito mais pendida a escrever ficção, hahaha! Sobre Adão e Eva (e a vida sexual dos dois), ela escreve

Todas as posições eram usadas, todas as variantes experimentadas, isso sob o olhar curioso das cabras e dos ornitorrincos e, mais, sob o olhar benévolo de Deus.  Que, na minha versão, não os expulsava do Paraíso; ao contrário, encorajava-os: agora que descobristes o amor, podeis enfrentar a vida como ela é, a vida cheia de som e de fúria.

Sua versão da Bíblia — muito melhor, aliás 😛 — é altamente censurada, claro. Ela enche os escribas de questionamentos (mas como Caim se casou com uma mulher de outra tribo se só sua família havia sido criada até então?), mas, com o tempo, ela vai ganhando mais e mais a admiração de Salomão, que a trata diferente das outras esposas (mas não ainda como esposa, mas como amiga, ou conselheira. Ou como um homem a quem admira, o que me lembrou aquele trecho de uma fala da Marylin Frye, de 1983

“Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais [fode] exclusivamente com [ou submete sexualmente] o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens héteros reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens.”)

Algumas vezes, em momentos de revolta (a vida com certeza é mais fácil pros estúpidos), a personagem maldiz a condição de inteligente (#quemnunca #modéstia)

Já não bastava tua feiúra, tinhas de bancar a inteligente?

Eu poderia falar eternamente desse livro, ou citá-lo inteiro. Mas vai lá na Dropbox, pra facilitar as coisas 😉

–Anna