Art Spielgeman — Maus

Desafio 2015: Livro com personagens não humanos


Ana,

Eu já havia lido Maus (rato, em alemão) havia um tempo, em scan, e resolvi reler depois de ter comprado um volume físico.

A graphic novel surgiu quando o autor resolveu contar a história do seu pai, um judeu polonês sobrevivente do holocausto nazista. No livro, os vários grupos étnicos são retratados como animais: os judeus são mostrados como ratos; os alemães são gatos; os franceses (como a esposa do autor), sapos; os poloneses, porcos; os ingleses como peixes; os ciganos como traças; e os americanos, cachorros.

Como todo relato de guerra, Maus não é fácil de ler e algumas passagens são muito, muito tristes. Eu me emociono toda vez que lembro do amigo do pai do autor que, no campo de concentração, usava um sapato maior que os próprios pés e tinha perdido o cinto e a colher, e por isso tinha que ficar tentando se fazer imperceptível para os nazistas, ou apanhava 😦 (eu me ~emociono~ agora, mas quando tava relendo quase morro de tanto chorar).

O bacana é que o livro mostra tanto as memórias narradas pelo pai quanto a relação atual (na época) nada fácil  entre ele e o filho. Acho que tenho uma vaga lembrança de já termos falado sobre Maus, então imagino que você já tenha lido. Ele, com certeza, tá entre os meus livros favoritos de todos os tempos 🙂

–Anna

Julie Maroh – Azul é a cor mais quente

Desafio 2015: Livro com uma cor no título


Anna,

Que delícia que é estar de volta ao bloguito! Quando estávamos ainda conversando sobre o desafio de 2015, li o post do 9Gag e pensei imediatamente em ler Azul é a cor mais quente para esta categoria.

O livro começa com a morte da protagonista, Clémentine. Em seu leito de morte, ela orientou a mãe a entregar seus diários a sua namorada, Emma. Ao ler os diários, Emma descobre todos os conflitos internos de Clém enquanto esta descobria e aceitava sua sexualidade. E aprendemos como as duas se conheceram e quão bonita é a história delas, mesmo com o final que já sabemos ser triste.

É meio complicado resenhar este livro, porque a história em si não é inusitada, não tem muito o que dizer. O que torna a leitura recomendadíssima é a forma como a história é contada. É fácil se identificar com Clém enquanto ela encara seus próprios preconceitos e tenta descobrir seu lugar em uma sociedade ainda homofóbica. É fácil se identificar com as dores de Emma.

A arte em si é linda e sutil. A cor marca os momentos em que Clémentine já havia se aceito: sépia, todos os momentos de conflito interno. E aos poucos vamos vendo o azul. O azul da camiseta de Thomas, o azul dos olhos e cabelos de Emma.

O amor é abstrato demais, e indiscernível. Ele depende de nós, de como nós o percebemos e vivemos. Se nós não existíssemos, ele não existiria. E nós somos tão inconstantes… Então, o amor não pode não o ser também.

Li este livro e não pude deixar de pensar em Leelah Alcorn, a garota trans que se suicidou no fim do ano por não ser aceita pela família. Leelah não teve a sorte de Clém. Até quando vamos ser assim?

– Ana

Alison Bechdel — Fun Home

Ana,

essa graphic novel de Alison (ainda não tenho certeza com que gênero ela se define 😦 ) foi mais uma indicação da mesma amiga que me indicou Hibisco Roxo e Feras de Lugar Nenhum. E ela acertou mais uma vez 😛

Fun Home (uma piadinha envolvendo funerária) é a autobiografia  de Alison Bechdel (a mesma do Teste de Bechdel) e sua relação com seu pai (também homossexual, um tanto quanto neurótico e com uma queda por rapazes mais novos).

Não há muito o que falar. Qualquer coisa em relação a uma autobiografia é, por definição, spoiler 😛 Alison abarca questões como (homos)sexualidade, relações familiares, os TOCs do pai com limpeza e organização e a suspeitíssima vontade dele de ver a filha (a única mulher) sempre impecavelmente “feminina”. Após a morte do pai — que todos suspeitam ter sido suicídio — Alison revisita pontos da sua vida e da vida do pai, e vamos percebendo como sua personalidade neurótica era intrinsecamente parte do fato dele nunca ter se assumido (talvez nem pra si mesmo).

Como você já leu, sabe que vale muitíssimo a pena. E, como eu nunca tinha lido nada da Bechdel, aumentou minha curiosidade 🙂

 

—Anna

Alan Moore – V de Vingança

Ana,

eu sempre tive uma certa admiração por anarquistas, e vivo me perguntando porque é que eu leio tão pouco a respeito. A noção de liberdade postulada pelo Anarquismo é uma das ideias mais admiráveis com as quais entrei em contato.

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Li V de Vingança a primeira vez em 2008, depois de ter lido a fase do Monstro do Pântano roteirizada pelo Alan Moore (o que, aliás, tá nos meus planos de vida reler) e ter acho OMG QUE FANTÁSTICO ESSE CARA. Desse ano pra cá, já devo ter relido  umas quatro vezes, e percebi que meu pobre gibizão não tá mais naquele estado de juventude que imaginei que deveria estar xD

(Eu não tenho verguenza na cara nenhuma em dizer que, com a banalização da máscara do personagem, eu me sinto como aqueles hipsters que deixam de ouvir uma banda só porque passou na MTV: dá vontade de sair gritando por aí paaaaarem, vocês não entenderam nada :()

Num futuro distópico, após uma guerra nuclear onde parece que o restante do mundo não existe mais, a Inglaterra está sob o domínio fascista. Codinome V, o personagem principal, é sobrevivente de um dos campos de concentração do regime e volta para se vingar dos responsáveis por tudo que ele passou. Yeah, Codinome V é um terrorista, e não o super-herói que quer libertar o povo. Mas ele é, antes, um anarquista, e acredita que somente através do caos, da destruição e da morte é que se pode derrubar um regime político totalitário e que a liberdade e a justiça devem ser prioridades a serem alcançadas tanto individualmente como enquanto regime. V  busca vingança, e não mudança social, mas usa sua vendetta para ensinar ao povo o verdadeiro sentido da liberdade e da ordem (ordem não no nosso sentido positivista).

“Nossa integridade (…) pode não ser muito, mas é tudo o que nos resta. São nossos últimos centímetros, mas neles nós somos livres”

(…)

“Então não há mais como ameaça-la, não é?

Você está livre.”

(…)

“Mas onde estão as respostas?

Quem me aprisionou aqui? Quem me mantém aqui? Quem pode me libertar? Quem está controlando e restringindo a minha vida, a não ser…
… Eu?”

V de Vingança é, com certeza, um dos meus livros prediletos, não porque eu entendi tudo e sei tudo de cor, mas porque eu tenho sempre que voltar a reler e terminar com aquela sensação de “nossa, eu sei tão pouco de tudo”.

– Anna