David Benatar – Better Never to Have Been: The Harm of Coming to Existence

Anna,

não sei onde o Sky ouviu falar deste livro, mas nos pareceu interessante e resolvemos ler. Foi uma leitura longa e por vezes maçante (um bom editor teria facilmente cortado metade do texto!), mas achei relevante e o resultado final foi bastante bom Logo de cara, uma coisa que achei engraçada e bacana: o autor reconhece que nem todo mundo vai ter tempo/saco de ler o livro inteiro, e na introdução ele faz um guia do que é essencial! Do tipo “no capítulo 5, os seis primeiros parágrafos da seção ‘Four kinds of interest'”. 😀

A tese do livro é relativamente simples. Para seres existentes, dois cenários são possíveis (e ambos ocorrem ao longo da vida): (1) presença de sofrimento (ruim) e (2) presença de prazer (bom). Para não-existentes, dois cenários: (3) ausência de sofrimento (bom) e (4) ausência de prazer (não ruim). Após refutar logicamente (e longamente ¬¬) as outras gradações dos cenários 3 e 4, o autor chega à conclusão de que não existir é sempre melhor do que existir.

No life is without hardship. […] We infrequently contemplate the harms that await any newborn child – pain, disappointment, anxiety, grief, and death. For any given child we cannot predict what form these harms will take or how severe they will be, but we can be sure that at least some of them will occur. None of this befalls the non-existent. Only existers suffer harm.

Esta frase é dramática, e deve ser entendida sob o seguinte contexto: uma vez que você já exista, o melhor caminho é continuar existindo (e buscar prazer, etc), visto que a sua não-existência (por morte natural ou por suicídio) trará sofrimento para os demais. Entretanto, para quem ainda não existe, é melhor não vir a existir. O autor refuta LONGAMENTE o argumento do prazer líquido (mais prazer que sofrimento = vida que vale a pena existir).

“Whereas […] we rightly are sad for inhabitants of a foreign land whose lives are characterized by suffering, when we hear that some island is unpopulated, we are not similarly sad for the happy people who, had they existed, would have populated this island. Similarly, nobody really mourns for those who do not exist on Mars, feeling sorry for potential such beings that they cannot enjoy life. Yet, if we knew that there were sentient life on Mars but that Martians were suffering, we would regret this for them.”

Como todos os seres existentes experimentam sofrimento, procriar é  causar sofrimento. Além disso, não há como se obter autorização do “não-existente” para infligir a ele tal sofrimento antes que ele venha a existir, e nem podemos presumir um consentimento hipotético. Esta visão em particular é compartilhada por outros autores, citados longo do texto. E, adivinhe? Ele refutou ca-da-um dos argumentos contrários a esta tese. 😛

Although it is obviously too late to prevent our own existence, it is not too late to prevent the existence of future possible people. Creating new people is thus morally problematic. […] Some anti-natalist positions are founded on either a dislike of children or on the interests of adults who have greater freedom and resources if they do not have and rear children. My anti-view is different. It arises, not from a dislike of children, but instead from a concern to avoid the suffering of potential children and the adults they would become, even if not having those children runs counter to the interests of those who would have them.

Quando o assunto é a moralidade de procriar, o livro fica BASTANTE interessante. Benatar reconhece que a extensão lógica do seu raciocínio levaria à extinção da raça humana. Que, pra ele, não é uma má ideia. 😉 E, por fim, admite que suas ideias são excêntricas, e que a maioria das pessoas vai ignorá-las ou tentar negá-las. Mas estas atitudes não podem ser encaradas como filantrópicas, porque causarão sofrimento.

Ficou com muita cara de fichamento, né? Juro que não era a minha intenção, mas achei muito difícil fazer de outra maneira… Ajuda se eu colocar a tirinha da Mafalda que me veio à mente durante toda a leitura? 😀

tirinha mafalda post cortada

Ernest Hemingway – The Old Man and the Sea [2]

Anna,

entre um (épico) projeto de arrumação de arquivos e outro, criei coragem para começar o desafio dos clássicos. E a sua resenha me empolgou para começar por The Old Man and the Sea. Mas depois de ler, vi que dei mole e poderia ter usado este livro no desafio do Nobel! 😀

De novo citando South Park, tinha vontade de ler este livro desde a primeira vez que vi D-Yikes!. 🙂

Everything about him was old except his eyes and they were the same color as the sea and were cheerful and undefeated.

Não vou contar a história, porque você (e o link do SP) já fez isso! 🙂

Como você bem resumiu, é um livro muito bonito. Também me emocionei pela relação entre o menino e o velho, e as reflexões durante a longa pescaria são lindas também. Mas acho que o que mais me comoveu foi a dedicação (obstinação, talvez) do velho, e a lenta aceitação de que ele precisa sim de ajuda. Reconhecer sua própria falibilidade é sempre duro, e foi belamente narrado.

Pensei muito sobre o que faz um livro ser considerado “clássico”. Há várias razões (qualidade, relevância histórica, atemporalidade, etc), mas para mim, a mais importante deve ser aquela sensação, quase um desejo, que várias pessoas, ao terminarem de ler o livro, ficaram de que todos deveriam ler também. E foi exatamente assim que me senti ao final de The Old Man and the Sea.

Ondjaki – A Bicicleta que Tinha Bigodes

Ana,

Li um pouco antes do feriado de Carnaval o livro A Bicicleta de Tinha Bigodes, de Ondjaki. É um livro fininho, rapidinho de ler (li na ida e na volta do trabalho e da academia, em quatro viagens de ônibus #diferenciada). É um livro com as mesmas características dos livros anteriores: uma escrita fluida, uma história linda e um narrador queridíssimo.

Só que dessa vez o livro não é mais um livro infantil para adultos, ele é direcionado justamente para o público infantil. Por isso, temos direito a sonhos de ganhar uma bicicleta com as cores da bandeira de Angola no concurso nacional para dividir com os amigos, enterro de sapos, comida de vó, uma visão mágica da realidade e até uma carta endereçada ao Camarada Presidente. E a importante descoberta de que meninas gostam tanto de andar de bicicleta quanto os meninos! 😀

E não temos como não nos apaixonarmos pelo Tio Rui, o escritor da rua de “livros bem internacionais” que tem um bigode onde ficam presos restos de letras e acentos brilhantes e que sua mulher tem que toda noite recolher e guardar numa caixa.

Preciso nem dizer que TEMQUE ler, né? 😀

PS: comecei a ler logo depois dA Bicicleta… o livro Quantas Madrugadas tem a Noite, que eu sempre fui louca pra ler (também do Ondjaki), mas, por algum motivo, a leitura não fluiu 😦 Mas ele está quietinho na prateleira, uma hora chega a vez dele 😀

Julie Powell – Julie & Julia

Anna,

Finalmente descobrimos o que é um livro gastronômico! 😀

Começo a resenha fazendo um pequeno e honesto disclaimer. ADORO cozinhar, adoro ler blogs de receitas, adoro ver reality cooking shows (todos do Gordon Ramsay), e ODEIO com todas as forças vídeos do youtube de receita. Exceto, claro, os vídeos do Gordon Ramsay. Me deixem.

Então, foi com bastante boa vontade que peguei Julie & Julia pra ler. Julie, ao perceber que sua vidinha era um tanto quanto patética, resolveu (instigada pelo marido), cozinhar em um ano todas as receitas do livro clássico da Julia Child “Mastering the Art of French Cooking” e relatar a experiência em um blog, na época em que blogs não eram mainstream #hipster.

“Julia Child quer que você – isso mesmo, você, que mora num dos milhares de conjuntos residenciais dos subúrbios da cidade, que tem um empreguinho sem futuro numa empresa qualquer e só dispõe de um supermercado Stop and Shop num raio de vários quilômetros – saiba como fazer uma boa massa e também como fazer para que aquelas vagens enlatadas fiquem saborosas. Julia quer que você se lembre de que é gente e, como tal, deve usufruir do mais básico dos direitos humanos: o direito de comer bem e gozar a vida.”

Foi meio complicado pra mim ler a descrição do “day job” de Julie em uma repartição pública, simplesmente porque o tédio e a falta de sentido que ela descreve é exatamente o que vivi antes de declarar “basta” (ou, mais adequadamente: “screw you guys, I’m going home”). 😉

Quando o livro está narrando o processo de cozinhar, o drama para achar um OSSO para fazer bife com tutano ou as hilárias discussões sobre assassinato de lagostas, é bem legal. Quando o livro traz cenas semi-fictícias da vida da Julia Child em Paris, é bem bacaninha também. Mas quando a narradora começa a falar dos seus insights sobre as mudanças em sua vida pós-Julia, o livro fica quase tão insuportável quanto os chick-lits que nos obrigamos a ler em outubro! :S

Li Julie & Julia em duas sentadas, assim que acabei o Cortázar. Aí me perguntei: esse livro é “Masterchef” ou é vídeo de receita do youtube? A única resposta honesta é “não sei”. Me diverti lendo a maior parte do livro, é verdade. Mas não achei nada de mais. Não recomendo fortemente a leitura, mas também não falo “saia correndo”.

Ernest Hemingway – The Old Man and The Sea

Ana,

como primeiro livro da listinha efetiva de clássicos, eu li O Velho e o Mar. Acho que nunca tinha terminado um livro do Hemingway, e esse foi o motivo de ter escolhido esse pra ser o primeiro da lista – além dele ser uma novela curta. Outro fato foi a minha meta de ler pelo menos um livro (ou algo maior, como artigo) em inglês pra mais ou menos dois ou três que leio em português (plano que tenho posto em prática desde o ano retrasado ou o anterior, porque um dia caí na real que depois de 6 anos de CIL eu tava perdendo a manha por pura preguiça e descuido. E que, OLEA, tem dado certo horrores. Venci a preguiça horrorosa de ler em inglês que eu tinha – sim, eu odiava).

Esse livrinho foi uma surpresa pra mim, porque na metade dele, a caminho da academia, eu me dei conta que nunca tinha lido um romance inteiro em inglês depois que parei de estudar (ou seja, nunca tinha escolhido um romance pra ler, era sempre indicação de professores). Já tinha lido livros da faculdade, a maioria dos livros sobre minimalismo e contos, mas romance, nunca! 😀

O início foi uma saga: coloquei os arquivos em português e em inglês no Kindle e , no começo, eu estava completamente perdida por causa do vocabulário. Nome de barcos, peças de barcos, de peixes… :S Aí eu desisti e resolvi ler em português. MAS… a edição que eu tinha era em português de Portugal, e a leitura continuou travada (ou piorou, viu). Então eu resolvi voltar pra edição original.

É um livro l-i-n-d-o.  E triste (eu e essa minha mania de achar coisas triste linda). Santiago é um velho pescador que mora numa vila de pescadores (em Cuba, imagino) sozinho, depois da sua mulher ter falecido. Ele tem um amigo, um garoto chamado Manolin, que é a pessoa que o velho mais ama. Santiago ensinou Manolin a pescar quando este tinha 5 anos de idade, e desde então eles sempre saem juntos, antes do amanhecer, pra pescarem. Mas depois de mais de 80 dias sem pescar nenhum peixe, os pais de Manolin não o deixam mais sair com Santiago pra pescar, e os colocam em seu próprio barco (afinal, eles precisam do dinheiro do peixe para sobreviver). No 85º dia sem pegar nenhum peixe, Santiago fisga alguma coisa que o arrasta por dias, sem que ele consiga pescá-la. É um peixe-espada, o maior que o velho já viu na vida, e ele só consegue fisgá-lo depois de dois ou três dias em alto-mar.

Durante esse período, o velho fica pensando na vida (juro que é menos clichê do que parece), sobre como ela se organiza e no mar e relembrando seu tempo de marinheiro, quando ele conheceu a África. É desse livro aquela frase do Hemingway, A man can be destroyed but not defeated. 

Como eu disse, é um livro muito bonito. Tanto pelas reflexões do personagens quanto pela sua saudade do menino (não são raras as vezes que ele, por estar passando por alguma dificuldade ou por ter visto algo muito estraordinário, deseja que o menino estivesse ali com ele), ou suas reflexões meio senis sobre o baseball (muitas vezes ele se pega pensando em como Joe DiMaggio ficaria orgulhoso dele por ter pescado um peixe tão grande, ou se perguntando se outros jogadores famosos conseguiriam pescar com ele), ou mesmo suas descrições da paisagem ou de seus sonhos com a África e os leões que ele avistou na praia. O cuidado do menino com o velho é outro aspecto que me emocionou bastante, e o choro dele quando vê o velho de volta. É um daqueles livros que eu penso: cara, por que eu não li antes? 🙂

Aqui, um curtinha super legal baseado no livro, valeu o clique 😀

Novo desafio, ou quase isso

Depois de lermos esse link do The Guardian, tivemos uma leve coradinha de vergonha: quantos livros ali nós já tínhamos pensado “vou ler” e nunca nem ousamos abrir?

Resolvemos, então, tirar os livros chatos (porque, né, muuuita coisa chata entra sempre em lista de clássicos), os que já tínhamos lido e os que seriam impossíveis de ler (Ulysses, beijo) e chegamos a uma lista de mais ou menos 20 livros entre os que cada uma queria ler e os que as duas tinham vontade de ler.

A brincadeira vai ser a seguinte: vamos, cada uma, sem pré-definições, tentar ler um livro dessa listinha raspa-de-tacho por mês e postaremos aqui a resenha. Só temos a ganhar, já que poderemos desistir com a consciência tranquila de alguma leitura no meio do caminho por ter percebido que não valia a pena, ou podemos achar aquele livro-da-vida-meldels-como-não-li-isso-antes.

Eu já li o meu,  e a resenha vem dacapoco 🙂

Carreguem seus Kindles e um-do-la-si-já!

Desafio Literário – Fevereiro

Finalmente descobrimos o que diabos é um “livro gastronômico”, então vamos ao desafio de fevereiro!

Janeiro Escritores latino-americanos
Fevereiro Livros gastronômicos
Março Adaptação para o cinema
Abril Nobel
Maio Escritores asiáticos
Junho Nome próprio
Julho Serial killer
Agosto Ficção científica
Setembro Escritores africanos
Outubro Chick lit
Novembro Literatura Pop
Dezembro Contos

Ana lerá Julie & Julia, de Julie Powell.

Anna lerá My Life in France, de Julia Child.