José Saramago – A Viagem do Elefante

Ou: um post descarado, no meio do mês seguinte, sobre um livro que forcei a barra para terminar de ler. Ou ainda: desafio quase fail.

Anna,

Desta vez achei que não ia conseguir. Foi duro terminar de ler o livro de “chick lit”, lá no desafio passado. Mas, por mais inacreditável que pareça, foi duro terminar “A Viagem do Elefante”.

Quando pensei no livro a ler para o desafio, parecia óbvio e quase infalível recorrer a Saramago. Uma chance de ler mais um livro deste autor fabuloso, assim, fácil? Logo depois de ler o excepcional Caim? Não poderia perder! Não sei bem o que me levou a escolher esta obra em particular. Talvez o fato da minha mãe adorar elefantes, e a perspectiva de viajar novamente com ela na semana passada? Honestamente, acho que foi isso. E isso obviamente NÃO é motivo para escolher um livro. (“I’ll only buy a book for the way it looks, then I’ll stick it on the shelf again”).

O livro narra a história do elefante Salomão, comprado pelo rei Dom João III de Portugal, para impressionar seus súditos, e depois presenteado ao arquiduque da Áustria, já que o elefante não impressionava mais nenhum português e tinha virado um belo estorvo. A viagem entre os dois países europeus é longa e tem seus momentos interessantes e poéticos. As criticas à humanidade, sempre tão presentes na obra de Saramago, também são vistas aqui, de forma contundente.

Não é que o livro seja RUIM. Algumas passagens são verdadeiramente brilhantes, como seria de se esperar do autor. Mas…. a verdade é que achei chato. A história de fundo, ainda que não seja importante, é tão besta que irrita. A metáfora da vida humana é talvez evidente demais, e a falta de sutileza me entediou. Não sou de reclamar de tamanho do livro, óbvio, mas este poderia ter 100 páginas a menos. Fácil. E provavelmente ainda seria… blé.

Anúncios

José Saramago – Caim

Anna,

para o último mês do desafio, resolvi ler um livro que me foi muito recomendado…. por você! 😀 Estava “guardando” Caim justamente para o desafio, e me arrependi de não ter lido antes!

 A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.

Como o título já entrega, Caim conta a história de Caim (jura?), aquele que matou Abel, etc. Caim é protagonista (ou talvez “o mocinho”), e só matou o irmão porque Deus fez pouco-caso de suas oferendas. Deus o amaldiçoa, coloca uma marca em sua testa e condena Caim a uma vida de nômade.

 Estava claro, o senhor desdenhava Caim. Foi então que o verdadeiro carácter de Abel veio ao de cima. Em lugar de se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele, e, como se isto ainda fosse pouco, desatou a enaltecer a sua própria pessoa, proclamando-se, perante o atónito e desconcertado Caim, como um favorito do senhor, como um eleito de deus.

Caim viaja não apenas no espaço, mas também no tempo. Visita Abraão – aquele que ia matar o filho – e se envolve romanticamente com Lilith. Passeia pelo Jardim do Éden, Sodoma, Gomorra e a Torre de Babel. Conhece Lot e (a melhor parte) Noé e sua arca. E vai descobrindo que Deus é um tirano mimado e um tanto quanto incoerente (“o bandido”).

O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim.

Quem nunca leu Saramago (e como está perdendo quem nunca leu Saramago!) pode muito bem começar por Caim. A leitura é rápida e divertida, especialmente depois que você se (re)acostuma à pontuação inusitada. Isso, claro, se o leitor não for carola! 😀

 Quanto à mulher de lot, essa olhou para trás desobedecendo à ordem recebida e ficou transformada numa estátua de sal. Até hoje ainda ninguém conseguiu compreender por que foi ela castigada desta maneira, quando tão natural é querermos saber o que se passa nas nossas costas. É possível que o senhor tivesse querido punir a curiosidade como se tratasse de um pecado mortal, mas isso também não abona muito a favor da sua inteligência, veja-se o que sucedeu com a árvore do bem e do mal, se eva não tivesse dado o fruto a comer a adão, se não o tivesse comido ela também, ainda estariam no jardim do éden, com o aborrecido que aquilo era

Fazer esta resenha foi bem difícil. Eu queria simplesmente copiar os 100 trechos que destaquei durante a leitura, colar aqui e dizer para o nosso um leitor: “LEIA, olha só como é bacana, provocador, um tanto ofensivo, mas principalmente gostoso de ler!”. MAS, como a cara de pau ainda não chegou nesse nível…. fiz só quase. 😛

Ok, o livro não mudou minha vida/ a forma como penso sobre divindades em geral/ minha visão sobre o Antigo Testamento. Mas um livro não precisa mudar sua vida pra ser bacana! Concluo com uma reflexão de Caim:

Sempre ouvi dizer aos antigos que as manhas do diabo não prevalecem contra a vontade de deus, mas agora duvido de que as coisas sejam assim tão simples, o mais certo é que satã não seja mais que um instrumento do senhor, o encarregado de levar a cabo os trabalhos sujos que deus não pode assinar com seu nome.

– Ana