Alison Bechdel — Fun Home

Ana,

essa graphic novel de Alison (ainda não tenho certeza com que gênero ela se define 😦 ) foi mais uma indicação da mesma amiga que me indicou Hibisco Roxo e Feras de Lugar Nenhum. E ela acertou mais uma vez 😛

Fun Home (uma piadinha envolvendo funerária) é a autobiografia  de Alison Bechdel (a mesma do Teste de Bechdel) e sua relação com seu pai (também homossexual, um tanto quanto neurótico e com uma queda por rapazes mais novos).

Não há muito o que falar. Qualquer coisa em relação a uma autobiografia é, por definição, spoiler 😛 Alison abarca questões como (homos)sexualidade, relações familiares, os TOCs do pai com limpeza e organização e a suspeitíssima vontade dele de ver a filha (a única mulher) sempre impecavelmente “feminina”. Após a morte do pai — que todos suspeitam ter sido suicídio — Alison revisita pontos da sua vida e da vida do pai, e vamos percebendo como sua personalidade neurótica era intrinsecamente parte do fato dele nunca ter se assumido (talvez nem pra si mesmo).

Como você já leu, sabe que vale muitíssimo a pena. E, como eu nunca tinha lido nada da Bechdel, aumentou minha curiosidade 🙂

 

—Anna

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Keiji Nakazawa – Gen, Pés Descalços

Ana,

comecei a ler Gen, Pés Descalços depois de ouvir esse podcast. Como o mangá era o único dos citados que eu nunca tinha lido (#modéstia #seacha) e como eu li pouquíssimos mangás na vida — tão poucos que nem lembro de outros de cabeça —, resolvi testar essa ~novidade~

E por falar em novidade: eu nunca tinha lido nada em tantos volumes. São 10, d-e-z, tomos, e até hoje eu me pego na dúvida se li tudo porque gostei ou por TOC de começar a coleção e não terminar (eu tenho pavor de coisas em volumes. Pavor. Só comprei o Watchmen depois que eles lançaram a edição em volume único — a anterior eram 12 revistas — e acho que a s únicas coisas que eu assisti até hoje em mais de um volume foram Star Wars LOTR. Tenho os quatro volumes de Do Inferno, do Alan Moore, e ainda não me dignei a ler). E foi uma novela pra encontrar tudo. A Conrad só lançou no Brasil até o vol. 6 e em toda a Internet eu só consegui achar os quatro primeiros digitalizados (como que uma publicação lançada na década de 1970, com filme, ópera e musical baseados nela, é tão difícil de encontrar na rede?). Resultado: os quatro primeiros volumes eu li on-line e comprei dois na Estante Virtual em português e o restante na Amazon, traduzidos para o inglês pelo Projeto Gen.

Gen Nakaoka vive com os pais e cinco irmãos em Hiroshima, e tinha seis anos quando a cidade é destruída pela bomba atômica, em agosto de 1945. Ele perde o pai e dois irmãos na tragédia, um dos outros irmãos é mandado para a Marinha japonesa e a mãe e uma irmã acabam por morrer mais tarde devido a doenças relacionadas à bomba. A história vai ficando melhor de volume pra volume, mas ainda assim não é uma história fácil.

Gen é altamente autobiográfico. Aliás, é classificado como autobiografia, apesar de não ser fiel. Nele são mostrado os horrores da guerra e a forma cruel com as decisões de governos e impérios afeta a vida da população. Gen é um personagem muito otimista (sério, até irrita tanto always look to the bright side of life), mas não deixa de sofrer com a destruição da própria vida. O medo da morte e a perda de pessoas queridas está sempre presente, e Gen acaba por ser uma história muito violenta. Crianças apanham dos pais (o próprio Gen era amarrado pelo pai e espancado, mas isso não era visto como violência e sim como correção) e de professores, as cenas horrorosas do incidente com a bomba e de pessoas deformadas e morrendo são sempre recorrentes, pessoas querendo tirar proveito uma das outras mesmo nas piores situações e o governo americano (e antes disso as forças armadas japonesas) sacaneando o povo são exemplos que te deixam com um nó na garganta frequentemente.

Depois de cinco meses e 2500 páginas (hooray!), a mensagem que Gen me deixou é que a intenção do autor era a de  fazer um manifesto a favor da paz e contra guerras e governos. E, como o pai de Gen não cansava de repetir, devemos ser como o trigo, que mesmo pisoteado, batido e queimado pelo sol e pelo gelo, sempre renasce forte e pronto pra dar frutos — o que cai como uma luva quando pensamos na história de Hiroshima e Nagasaki.

Nicolai Lilin – Siberian Education

Dignified criminals introduce themselves, exchange greetings and wish each other every blessing even before they start killing each other.

Ana,

dando continuidade ao “olha como finalmente nos reorganizamos e agora vamos ler tudo direitinho e até pagar as resenhas atrasadas” (todos os direitos reservados), meu livro sobre Máfia foi o Siberian Education. Também tentei fugir dos livros batidos, o que não foi fácil! (já passei por isso em outras categorias do desafio, e acho super legal evitar os clichês :D), e acabei escolhendo esse por ser diferente da polaridade que é a máfia italiana na literatura e no cinema (depois, lendo a biografia de Lilin, vi que ele se mudou pra Itália e o livro, inclusive, foi escrito em italiano originalmente, o que me confundiu nas tags ali em cima: ele é um escritor russo? italiano? why not both? :D) .

Comecei com um prologozinho 1) porque eu sou frexca  e 2) porque nessa frase cabe toda a essência da comunidade descrita pelo livro. Nicolai Lilin, chamado no livro por seu apelido de infância — Kolima —, foi criado em Bender, no distrito de Transnístria, onde hoje é a Moldávia, um lugar pra onde eram mandados os criminosos expulsos da Sibéria na década de 1930, e siberian education é como era chamado o tipo de educação dado às crianças. No livro são mostrados todos os rituais e crenças da comunidade, tão bem organizada — imagino ser esse um ponto comum nas comunidades mafiosas — que funcionava como uma grande família (como se família fosse algo organizado, né. Mas dá pra pegar o sentido :P). Uma coisa muito bacana é que eles não obedeciam a nenhum tipo de regime: nem o do tsar, nem o regime comunista que se instalou depois.

O livro conta como foi a infância de Kolima até ele ser obrigado a entrar no exército, aos 18 anos. Nesse ponto, ele já havia matado uns tantos, se enfiado em MUITA enrascada e cumprido três penas em reformatórios juvenis (nada, é claro, fora do que era preconizado pela comunidade).

Uma coisa interessante é que ele mostra que a única facção mafiosa daquela região que era corrupta e fazia negócios com a polícia e com o governo é a única que sobrevive até hoje, depois de instalar uma guerra entre as outras máfias e fazer com que elas acabassem umas com as outras.

Black Seed is the only caste that is protected by the police. They are hated by everyone else, but no one can do anything about it. They are in charge now; they control all the prisons and all criminal activities.

(…)

They finally succeeded in doing this [acabar com as outras comunidades] five years later, when they set many young criminals against the old ones and sparked off a bloody war. That was the beginning of the end of our community, which no longer exists as it did at the time of this story.

Os membros da comunidade são conhecidos como “honest criminals”, e o respeito pela vida humana e animal é imenso — a menos que você (ou seu bairro, sua família ou qualquer dos seus amigos) faça por onde merecer. Assim, é engraçado quando Kolima vai procurar um dos criminosos mais violentos e lendários do grupo pra pedir um conselho e diz  que “he was at his table, as usual; he was having tea with cake and reading a book of poems“. Não é bem a ideia que a gente tem de mafioso, né? 😀

Um criminoso honesto não pode falar com policiais, governo nem tocar em dinheiro. E ele também não pode ostentar riqueza — esqueça o gangster; ser chamado de humble brother é o maior orgulho que um criminal pode ter. Todo o dinheiro ou coisa que o valha, fruto de roubos ou tráfico (no caso de alguns criminosos de Transnítria, o tráfico de bebidas), vai para o obshchak, um fundo comum da sociedade. O princípio básico aqui é que nada é seu: por isso, você tem a obrigação de ajudar seus vizinhos no que falta a eles. Quando jovens perdem os pais, eles são automaticamente adotados por outra família no distrito. A mesma coisa acontece com pais que perdem seus filhos, eles procuram adotar mesmo crianças de outros distritos.

Outra característica interessante: eles são muito, muito, muito estrito com regras. Mesmo quando o assunto é assassinato, você se torna a pior das criaturas se matar alguém sem que a pessoa saiba quem o está matando, por quê e pior ainda se for pelas costas. O respeito pelos mais velhos também é incontestável e você não deve nunca — nunca — insultar ou xingar alguém:

An insult is regarded by all communities as an error typical of people who are weak and unintelligent, lacking in criminal dignity. To us Siberians, any kind of insult is a crime; in other communities some distinctions can be made, but in general an insult is the quickest route to the blade of a knife. (…)

Insults are forgiven if they are uttered in a state of rage or desperation, when a person is blinded by deep grief – for example, if his mother or father or a close friend dies. In such cases the question of justice is not even mentioned; he is judged to have been ‘beside himself’, and there the matter ends. Insults are not approved, however, in a quarrel that arises from gambling or criminal activities, or in matters of the heart, or in relations between friends: in all these cases the use of swear-words and offensive phrases usually means certain death.

A figura da religião (ortodoxa), da “mãe Rússia” e da mãe biológica é tão altamente misturada que chegam a ser uma só. Blasfemar contra uma delas é morte na certa. Apesar disso, eles são em grande parte misóginos: um homem ser tratado por algum adjetivo feminino é muito humilhante (a polícia só se refere aos criminosos no feminino, pois sabe disso) e um criminoso só pode falar com um policial ou com um inimigo através de uma mulher — porque ela não representa nada. Apesar disso [2]… 😀

The phenomenon of a woman leading a gang was quite common in Siberia: women with a criminal role are affectionately called ‘mama’, ‘mama cat’ or ‘mama thief’, and are always listened to; their opinion is considered to be a perfect solution, a kind of pure criminal wisdom.

Um criminal também não tem o direito de julgar outro, nem os atos de alguém. E quando a coisa é séria, você é levado a um conselho de elders e julgado da forma mais imparcial possível.

Tem um capítulo todo a respeito das tatuagens da máfia (Kolima foi tatuador na sua comunidade), que contam a história de vida do cara. É importante que os membros da comunidade saibam ler as tatuagens; dessa forma, assim que conhecem alguém, eles já sabem de quem se trata e o que esperar daquela pessoa (uma tatuagem que minta sobre você é motivo mais que suficiente pra ela ser arrancada a sangue frio e você, depois, morto).

O livro é rapidinho de ler (certeza que você o terminaria em um dia ou dois!) e eu SUPER indico. Sério, todo mundo tem que ler! Estou seriamente pensando em ler Sniper, que é a continuação da biografia (não necessariamente a segunda parte, pelo que vi), e que conta como foi o período de dois anos que ele passou no exército. Ele começa exatamente no ponto em que Siberian Education termina (quando Kolima é mandado pros saboteurs por um coronel, quando ele se recusou a entrar pro exército):

He [um soldado] paused, then asked me in alarm: ‘The sabouteurs? Holy Christ, what’s he got against you? what have you done to deserve this?’ ‘I’ve received a Siberian education,’ I replied, as he closed the door.

–Anna

J. M. Coetzee – Youth

Anna,

Estes dois últimos meses foram bem complicados. Entre blues e fase da água (só os fortes entenderão) e Coursera, não li nem metade dos livros que gostaria de ler. Para piorar, uma maré de azar literária: comecei três ou quatro livros que pareciam bacanas pelo título/número de estrelinhas no Goodreads, mas eram todos uma belíssima chatice e foram devidamente largados. Cansada e decidida a mudar de rumo, apelei. Apelei forte. Escolhi um livro do Coetzee. Youth foi escolhido no chute, quase… mamãe-mandou-eu-escolher-este-daqui. E que chute! 😉

E, sem saber, acabei escolhendo outra autobiografia. Ou autrebiography, como Coetzee diz, uma autobiografia vista à distância, em terceira pessoa, recontando eventos do passado no tempo presente. Youth começa na África do Sul do fim dos anos 1950. O personagem (é difícil dizer “o autor” neste caso) quer ser poeta, termina a graduação em matemática e sonha com a vida na Europa, onde acredita que finalmente poderá viver as experiências que despertarão nele a arte.

He would like to be attractive, but he knows he is not. There is something essential he lacks, some definition of feature. Something of the baby still lingers in him. How long before he will cease to be a baby? What will cure him of babyhood, make him into a man? (…) What will cure him, if it were to arrive, will be love. He may not believe in God but he does believe in love and the powers of love.

Com o apartheid, que novamente nunca é mencionado de forma direta, e com a ameaça de serviço militar, e com aquela sensação de que “este país é muito pequeno para mim”, John entra em um navio rumo a Londres.

There are two, perhaps three places in the world where life can be lived at its fullest intensity: London, Paris, perhaps Vienna. Paris comes first: city of love, city of art. But to live in Paris one must have gone to the kind of upper-class school that teaches French. As for Vienna, Vienna is for Jews coming back to reclaim their birthright: logical positivism, twelve-tone music, psychoanalysis. That leaves London, where South Africans do not need to carry papers and where people speak English.

Mas a vida em Londres não é vivida ao máximo por ele. Seu emprego de programador na IBM (que, segundo ele, o está transformando em um zumbi), sua vidinha, sua postura passiva em relação às mulheres – ele sonha com a musa que um dia o irá inspirar, mas as mulheres de Londres são intangíveis -,  não são exatamente um estímulo ao talento artístico. O que vemos é um jovem de 20 e bem poucos anos perdido entre o que poderia-ser-se… e a opção do combo casa-trabalho-esposa.  Como é uma autrebiography, acho que é óbvio qual o caminho que o autor parece escolher 😀

In fact, he would not dream of going into therapy. The goal of therapy is to make one happy. What is the point of that? Happy people are not interesting. Better to accept the burden of unhappiness and try to turn it into some thing worthwhile, poetry or music or painting: that is what he believes.

Normal people find it hard to be bad. Normal people, when they feel badness flare up within them, drink, swear, commit violence. Badness is to them like a fever: they want it out of their system, they want to go back to being normal. But artist have to live with their fever, whatever its nature, good or bad. The fever is what makes them artists; the fever must be kept alive. That is why artists can never be wholly present to the world: one eye has always to be turned inwards.

O livro é excelente, Coetzee é excelente, etc. Como em Disgrace, Coetzee parece que não quer que você goste do personagem principal. O leitor provavelmente se identificará com o personagem, mas será com aquele desconforto que sentimos quando vemos nossos defeitos por escrito. Youth não tem a dor e o impacto chocante de Disgrace (embora tenha muito desconforto), mas isso é uma enorme vantagem: poderei ler o próximo logo! 🙂

 – Ana

Charlotte von Mahlsdorf – I Am My Own Wife

Ana,

(fingindo que não sei que tô anos atrasada no post) quando a gente colocou a categoria autobiografia no desafio, o primeiro livro que me passou pela cabeça foi esse. Há alguns anos fui ao Teatro da Caixa assistir a uma peça chamada Eu Sou Minha Própria Mulher, não lembro se escolhi por causa do nome. A peça era um monólogo autobiográfico baseado na vida de Charlotte von Mahlsdorf (nascida Lothar Berfelde), alemã que fundou o Museu Gründerzeit, dedicado à coleções de objetos e móveis de uso doméstico.

Eu CHOREI que nem uma condenada a peça inteira (não lembro quem era o ator), e o livro foi parar na minha lista de to-read até esse mês (eu não sou muito proativa, é verdade), embora eu goste muito mais do nome dado à primeira edição, I Am My Own Woman 🙂

Charlotte era uma travesti, filha de nazista e vinda de um lar violento.

After their wedding, my parents moved into the upper floor of the cottage. It was a very unhappy marriage because my father was a brutal tyrant with a riding-crop mentality.

(…)

Even as a child I thought my father a fiend, although I was too young to know how brutally he was abusing my mother. (…) I recall him giving me a horrible beating over some trifle, screeching barrack obscenities all the while. When I cried, he roared “BOYS DON’T CRY!” and hit me harder. That was my father, Max Berfelde.

Apesar do pai – que Charlotte diz duvidar que tenha alguma vez notado que o filho era, na verdade, uma menina – ela encontrou apoio no tio, Josef Brauner, o mesmo que tinha criado sua mãe e dado todo o apoio pra família até a sua morte (ele inclusive nunca se opôs ao fato de Charlotte usar roupas femininas, e durante a ocupação nazista ia com ela até os locais de distribuição de roupas e alimentos e muito naturalmente pedia por casacos femininos ou saias pra sobrinha), e numa tia, lésbica e travesti, que morava numa fazenda. A mãe de Charlotte dizia “não concordar” com a filha, mas respeitar seus posicionamentos.

My aunt told me that from the first time she sat astride a horse when she was six years old, she knew she was a boy. She confessed this to her father who, without further ado, informed his surprised wife that Louise should really have been called Luis.

É muito bonito ver como os dois são aceitos e apoiados pela família, apesar de tudo. Não obstante, Charlotte foi obrigada pelo pai a entrar pra Juventude Hitlerista e, com a evacuação da cidade onde moravam, ela vai com a mãe e os irmãos pra longe do pai. Este, numa visita de Charlotte pra buscar algumas coisas em casa que eles precisavam, ameaça a menina a ficar com ele, dizendo que se ela não aceitasse, mataria toda a família. Charlotte, então, no meio da noite, mata o pai a pauladas (ela tinha só 15 anos!).

It was not, and could not have been, done in the heat of passon. I had resolved to act. I kenw there was no other choice. When the police came, I felt free in the knowledge that this monster could no longer hurt my mother. His murder was a kind of preventive “self-defense”.

O livro todo é muito sensível, e da mesma forma que Charlotte narra o assassinato do pai ou os episódios horrorosos da guerra, ela narra como começou sua coleção – que formaria o museu – e como encheu a casa do tio de cacarecos (hahaha), ou como andava quilômetros pra buscar um relógio ou pra encontrar quem consertaria um gramofone. Em muitos pontos há até uma certa graça nas coisas, como quando o tio chega em casa e Charlotte está vestida de empregadinha doméstica arrumando a casa, ou quando o professor de Educação Física pergunta porque ela não gosta das aulas e ela responde que “preferia estar em casa tirando o pó dos móveis”, atitudes até, de certa forma, ingênuas (e o tom não muda, seja falando de um sofá ou das festas BDSM que aconteciam no porão do seu museu :P).

I admit that is completely absurd to regret the destruction of a scalloped edge, but that’s how I am.

(…)
This house is my fate. It called out to me in its greatest need, and I was there for it. Here, my dream of having my own museum became reality. But more than that: this house is my home. Museusm guide, tenant, and housekeeper all in one, I have furnished the house the way a middle-class housewife would have furnished her home around 1900.

O livro é lindo, a história é emocionante e Charlotte decerto era uma vozinha muito querida (pelo menos é o que parece nas fotos dela :P). E, sobretudo, uma mulher forte, decidida e empoderada. Ela entrou definitivamente pra minha lista de seres humanos fabulosos! 🙂

Wil Wheaton – Just a Geek

Anna,

para o primeiro mês do Desafio 13/14, eu estava bem perdida. Não tinha ideia de quem queria ler (e só pensava na do Steve Jobs). Enquanto isso, tentava terminar um livro – que ainda não terminei. Então o email do Humble Bundle (com a autobiografia do WIl Wheaton para quem pagasse acima da média) foi quase um sinal do universo! 😀

Eu não gosto de Star Trek. Tentei, em diversos momentos, ver tanto a série original quanto TNG. Não deu. Eu sei que isso é uma falha na minha educação geek, mas sério, não dá. Oh, well. Mas eu gostava do Wil Wheaton por causa do ótimo blog – e depois Twitter, e  a hilária participação em The Big Bang Theory, quando TBBT ainda fingia ser nerd.

O livro começa da melhor maneira possível: Neil Gaiman (“If you are a true geek, I’m pretty much as cool as Patrick Stewart”) escreve o prólogo, e explica: “In an era of people blogging as pseudo-celebrities, this is the story of a celebrity blogging as a person”.

Se você for uma espécie de não nerd que não sabe quem é o Wil Wheaton, vamos lá: ele foi um ator mirim de grande sucesso, e interpretou Wesley Crusher em Star Trek: The Next Generation por quatro temporadas. E, no meio da angústia/rebeldia adolescente – e depois de uma convenção Trekkie com atores da série original que não fizeram absolutamente nada depois de Star Trek -, Wheaton decidiu largar o mega sucesso para se tornar um “famoso ator de cinema”. Como você nunca ouviu falar de um filme com ele, já sabemos que essa estratégia foi FAIL. O blog existe desde 2001, e trechos do blog ilustram parte da história, que abrange da sua saída de TNG até meados da década passada. Sim, bem antes de TBBT. 😀

When I was in drama school, I passed on several film opportunities, among them, Primal Fear. You may know it as the movie that started Ed Norton’s career. I know it as The Huge Opportunity That I Completely Fucked Up.

Basicamente, o livro conta a luta de Wheaton contra dois fantasmas que habitavam sua mente, Prove To Everyone That Quitting Star Trek Wasn’t A Mistake e a Voice of Self Doubt, enquanto ele batalhava para pagar as contas, indo a vários testes e nunca sendo chamado para nenhum papel.

But the insistent voice of the collectors was nothing compared to the Voice of Self Doubt and my good friend Prove To Everyone That Quitting Star Trek Wasn’t A Mistake. They were the real reason I went on the auditions, which didn’t result in any work, because the part I was “in the mix for” went to someone who was – wait for it – edgy, and the other was already cast when I got there

O livro é também a história de como ele se redescobriu – hoje, Wheaton é um escritor antes de ser um ator. E ele é ótimo!!! O livro é muito bem escrito. A leitura flui, e eu achei impossível desgrudar enquanto não terminei. Claro que parte disso pode muito bem ter sido a ENORME identificação com os fantasmas de Wil – e com a forma como ele lidou com eles -, mas o talento para uma escrita convincente e comovente é inegável.

“The deeper that sorrow carves into your being, the more joy you can contain”

 – Ana

Julia Child & Alex Prud’Homme – My Life in France

Ana,

eu também vou começar minha resenha com um disclaimer. Aliás, com um testemunho (Igreja Mode On): DELS, como eu detesto cozinhar. Eu entendo o prazer que as pessoas devem sentir ao fazê-lo, eu entendo a empolgação – até porque uma das coisas mais bacanas de se fazer na vida é comer, e poucas coisas são tão prazerosas quanto uma comida bem-feita. Mas não me faça ir à cozinha.

Bem, eu cozinho porque tenho que. Moro perto do trabalho, só entro na agência às 14h, então não faria muito sentido eu comer fora todos os dias, ou pedir delivery (é uma atitude meio burra e antiminimalista, penso eu), até porque eu sou uma pessoa até bem comportadinha na hora de comer (brigada, mãe) – não troco almoço/ jantar por McDonalds no dia-a-dia, não sou muito de junk food e comida light etc. (falarei mais disso em outro post ~ sempre quis dizer isso!!!! *fabulous & famous*). Então imagina meu drama ao ir pra cozinha: quero comer, quero comer direito (não fico feliz comendo gororoba), mas não tenho o mínimo “dom”. E nem vontade, essa é a verdade. Não é que eu não saiba cozinhar, é que eu não gosto de cozinhar, então fica meio difícil aprender a fazer algo direito.

Dito isso, vamos ao livro.

QUE AMÔ que é a Dona Julia Child! O livro é uma autobiografia lançada pouco depois da morte dela (chuif) pelo jornalista Alex Prud’Homme e narra o período em que ela e o marido, Paul Child, viveram na França – boa parte em Paris e um ano em Marseille –, entre 1948 e 1954. Esse foi o período em que Julia, que “até então só comia”, aprendeu a cozinhar e se tornou uma das autoras de livros de culinária mais conhecidas dos EUA (ela também tinha um programa de televisão #ChupaAnaMaria). Seu marido trabalhava para as Relações Exteriores, então eles moraram um bom tempo fora, na Europa (coisa horrorosa, gente).

Julia tem um estilo bem descomprometido (não quer dizer descuidado ou ruim) de narrar, e é muito bem-humorada. Adorei essa parte quando eles se mudam pra Paris e passam seu primeiro inverno num apartamento alugado:

The building had no central heating and was as cold and damp as Lazarus’s tomb. Our breath came out in great puffs indoors. So, like true Parisians, we installed an ugly little potbellied stove in the salon and sealed ourselves off for the winter. We stoked that bloody stove all day, and it provided a faint trace of heat and a strong stench of coal gas. Huddled there, we made quite a pair: Paul, dressed in his Chinese winter jacket, would sit midway between the potbellied stove and the forty-five-watt lamp, reading. I, charmingly outfitted in a thick padded coat, several layers of long underwear, and some dreadfully huge red leather shoes, would sit at a gilt table attempting to type letters with stiff fingers. Oh, the glamour of Paris!

Ela e o marido são extremamente apaixonados pela França (como não, né, gente), e ela não se cansa de rasgar seda pra cidade, é ótimo.

I felt a lift of pure happiness every time I looked out the window.

I had come to the conclusion that I must really be French, only no one had ever informed me of this fact. I loved the people, the food, the lay of the land, the civilized atmosphere, and the generous pace of life.

It seemed that in Paris you could discuss classic literature or architecture or great music with everyone from the garbage collector to the mayor.

(…)

In Cannes the sun was hot and the champagne was cold, and it was extremely pleasant just to sit and look around.

Gostei super do livro, mais do que imaginei que gostaria. Deu até vontade de ver algum episódio do programa dela (dizem que ela era desastrada horrores). Mas confesso que fiquei assustada com essa parte da carta que o marido dela envia pro irmão dele, sobre os progressos culinários de Julia:

She’s becoming an expert plucker, skinner and boner. It’s a wonderful sight to see her pulling all the guts out of a chicken through a tiny hole in its neck and then, from the same little orifice, loosening the skin from the flesh in order to put in an array of leopard-spots made of truffles. Or to watch her remove all the bones from a goose without tearing the skin. And you ought to see [her] skin a wild hare—you’d swear she’d just been Comin’ Round the Mountain with Her Bowie Knife in Hand.