Balanço do Desafio 12/13

Depois de um ano, chegou a hora de fazermos um balanço de como foi o Desafio Literário 2012/2013.

Na verdade, não foi lá muito um desafio: a maior parte dos livros foi muito, muito gratificante de ler (tirando, como esperado, a chick lit). Na verdade, para a Anna, Tom Sawyer foi mais difícil de terminar do que O Diabo veste Prada! E se não fosse o Desafio, a Ana talvez nunca tivesse lido Disgrace, e certamente teria adiado a leitura de Ondjaki por mais um ano, ou dois….

Gostamos muitíssimo do esquema de ter algo pré-determinado pra ler (os temas), o que nos ajudou a diminuir a frequência com que começamos e não terminamos os livros — fila de to-read (mais ou menos) organizada, uhu! Os temas foram muito bem escolhidos (dsclp, sociedd) e com certeza e para todo sempre vamos fazer o Desafio 13/ 14 😀

E sabe que essa história de começar as coisas no meio do ano, e não no início, como é costume, pode ter contribuído para que o desafio desse certo? Menos tensão e mais empolgação 😀

 

 

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Mark Twain – Tom Sawyer

Ana,

Mais um da série “não-lidos-e-já-comprados-ou-baixados”, Tom Sawyer foi a minha escolha pro desafio desse mês porque a edição que eu tenho é muito da cara de pau (o nome original é The Adventures of Tom Sawyer e algo me diz que essa tradução que eu tenho é uma mistura dela e de As Viagens de Tom Sawyer) e só traz o nome do guri. Ou seja, eu tava cheating mas involuntariamente 😛

— É, eu não li esse livro quando era criança 😦 —

Tom Sawyer é uma peste que vive com a tia e os irmãos/ primos e que mata aula pelos motivos mais legais: bater nos colegas, tomar banho no rio, se meter em confusão e chegar em casa rasgado… uma versão gringa do Chico Bento (ops, o contrário). Já a tia dele é uma chata que por qualquer motivo espanca o menino (não qualquer motivo, né. Ele também não colabora). O que me leva a duas conclusões: eu sempre torço pelos rebeldes; crianças são um saco (menos as crianças do Ondjaki <3).

Não é um livro ruim, mas acho que eu não tava muito na pilha desse tipo de literatura. Dessa vez foi realmente um ~desafio~, porque toda hora eu queria trocar de livro.

Minha conclusão: a vida é muito curta pra ler um livro que não estamos afim, se não for pra a) fazer post no blogue ou b) ganhar ponto no fim do semestre 😉

 

-Anna

José Saramago – Caim

Anna,

para o último mês do desafio, resolvi ler um livro que me foi muito recomendado…. por você! 😀 Estava “guardando” Caim justamente para o desafio, e me arrependi de não ter lido antes!

 A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.

Como o título já entrega, Caim conta a história de Caim (jura?), aquele que matou Abel, etc. Caim é protagonista (ou talvez “o mocinho”), e só matou o irmão porque Deus fez pouco-caso de suas oferendas. Deus o amaldiçoa, coloca uma marca em sua testa e condena Caim a uma vida de nômade.

 Estava claro, o senhor desdenhava Caim. Foi então que o verdadeiro carácter de Abel veio ao de cima. Em lugar de se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele, e, como se isto ainda fosse pouco, desatou a enaltecer a sua própria pessoa, proclamando-se, perante o atónito e desconcertado Caim, como um favorito do senhor, como um eleito de deus.

Caim viaja não apenas no espaço, mas também no tempo. Visita Abraão – aquele que ia matar o filho – e se envolve romanticamente com Lilith. Passeia pelo Jardim do Éden, Sodoma, Gomorra e a Torre de Babel. Conhece Lot e (a melhor parte) Noé e sua arca. E vai descobrindo que Deus é um tirano mimado e um tanto quanto incoerente (“o bandido”).

O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim.

Quem nunca leu Saramago (e como está perdendo quem nunca leu Saramago!) pode muito bem começar por Caim. A leitura é rápida e divertida, especialmente depois que você se (re)acostuma à pontuação inusitada. Isso, claro, se o leitor não for carola! 😀

 Quanto à mulher de lot, essa olhou para trás desobedecendo à ordem recebida e ficou transformada numa estátua de sal. Até hoje ainda ninguém conseguiu compreender por que foi ela castigada desta maneira, quando tão natural é querermos saber o que se passa nas nossas costas. É possível que o senhor tivesse querido punir a curiosidade como se tratasse de um pecado mortal, mas isso também não abona muito a favor da sua inteligência, veja-se o que sucedeu com a árvore do bem e do mal, se eva não tivesse dado o fruto a comer a adão, se não o tivesse comido ela também, ainda estariam no jardim do éden, com o aborrecido que aquilo era

Fazer esta resenha foi bem difícil. Eu queria simplesmente copiar os 100 trechos que destaquei durante a leitura, colar aqui e dizer para o nosso um leitor: “LEIA, olha só como é bacana, provocador, um tanto ofensivo, mas principalmente gostoso de ler!”. MAS, como a cara de pau ainda não chegou nesse nível…. fiz só quase. 😛

Ok, o livro não mudou minha vida/ a forma como penso sobre divindades em geral/ minha visão sobre o Antigo Testamento. Mas um livro não precisa mudar sua vida pra ser bacana! Concluo com uma reflexão de Caim:

Sempre ouvi dizer aos antigos que as manhas do diabo não prevalecem contra a vontade de deus, mas agora duvido de que as coisas sejam assim tão simples, o mais certo é que satã não seja mais que um instrumento do senhor, o encarregado de levar a cabo os trabalhos sujos que deus não pode assinar com seu nome.

– Ana

Desafio Literário – Junho

ÚLTIMO MÊS DO DESAFIO 12/13!

Janeiro Escritores latino-americanos
Fevereiro Livros gastronômicos
Março Adaptação para o cinema
Abril Nobel
Maio Escritores asiáticos
Junho Nome próprio
Julho Serial killer
Agosto Ficção científica
Setembro Escritores africanos
Outubro Chick lit
Novembro Literatura Pop
Dezembro Contos

Ana lerá Caim, de José Saramago.

Anna lerá Tom Sawyer, de Mark Twain.

Yasunari Kawabata – A Casa das Belas Adormecidas

Ana,

Esse livro é mais um dos meus não-lidos-e-já-comprados-ou-baixados e, por coincidência, também é de um escritor japonês. Quando eu li Memória de Minhas Putas Tristes a primeira vez — e não gostei —, fiquei intrigada com o título do livro do Kawabata, que é o que serve de mote para o livro do García Marquez. Um dia, quando já estava relendo o Memória…  — e gostando —, resolvi procurar o A Casa das Belas Adormecidas, que ficou baixado e esquecido no HD.

Eu já disse que a coisa que estou mais amando no Desafio (e no bloguito) é poder ler coisas que eu não leria? 😀

A Casa das Belas Adormecidas é um livro sensível e bonito. Conta as idas de Eguchi, um senhor de 67 anos, casado e pai de três moças também casadas, ao que seria uma casa de prostituição, não fosse o fato das moças serem virgens — e terem que permanecer como tal —, estarem sempre adormecidas por um poderoso sonífero e só receberem senhores de idade pra passar a noite, “para evitar constrangimento aos velhos que não eram mais homens“. Eguchi visitou a casa pela primeira vez por curiosidade, já que ouviu falar dela através de um amigo, mas acabou retornando lá “sempre que o desespero de envelhecer se tornava insuportável“.

para os velhotes que pagavam pelas jovens, o fato de poder deitar-se ao lado de uma garota como aquela equivalia, sem dúvida, à felicidade de se encontrar no paraíso. Já que a menina não acordava, o cliente idoso não precisava envergonhar-se do complexo de senilidade, e ganhava a permissão de perseguir livremente suas fantasias a respeito das mulheres e mergulhar em recordações. Talvez por isso não hesitassem em pagar mais caro pela garota adormecida do que por uma mulher acordada.

Durante essas noites, Eguchi se recorda de várias passagens de sua vida, desde a morte da mãe até suas namoradas e seu casamento. Pensa também nas filhas e em ex-amores, e se questiona muito sobre a velhice e o que ela traz de mais terrível: a solidão.

Numa noite tão fria, se pudesse me aquecer no calor de um corpo jovem e morrer de repente seria a suprema felicidade para este velho.

(…)

[Eguchi,] como um ser humano comum, vez por outra caía em depressão devido ao vazio da solidão e ao desgosto do isolamento. Não seria aquela casa um local ideal para morrer?

O livro traz algumas considerações sobre a sexualidade na velhice e sobre o feminino, o que é bem bacana de se considerar.

A sexualidade na idade madura aflora nua e crua num cenário composto para o deleite de quem não mais pode procurá-lo por conta própria. (…) A pureza da garota, pelo contrário, acentuava a fealdade dos velhos.

– –

não se pode conhecer a exuberância do corpo de uma garota somente com o olhar, nem apenas se deitando ao seu lado de maneira recatada.

(…)

Parece que o responsável por conduzir o homem ao “mundo da perdição” era o corpo feminino.

É interessante observar como Eguchi, sendo deixado sozinho no quarto com uma adolescente adormecida e nua, sempre tem que conter seus ímpetos violentos. Ele fica se questionando se seria capaz de matar uma mulher somente por prazer, ou se perguntando o que aconteceria com a casa se uma das meninas amanhecesse morta.

[Uma mulher adormecida] Seria um brinquedo perfeito ou um animal de sacrifício?

Sem contar a consideração final dele ao meditar sobre os acontecimentos que levaram ao casamento da filha mais nova, a sua preferida:

O corpo de sua filha caçula não era diferente do de qualquer outra mulher. Era feito para ser subjugado à vontade de um homem.

É uma novela curtinha, mas o final não me agradou. Pareceu terminado às pressas, ou parece que o final não combinou com o restante do livro, não sei. Mas serviu de pretexto pra eu reler de novo (re-reler) o Memórias 🙂

– Anna

Desafio Literário – Maio

Vamos ao desafio de maio!

Janeiro Escritores latino-americanos
Fevereiro Livros gastronômicos
Março Adaptação para o cinema
Abril Nobel
Maio Escritores asiáticos
Junho Nome próprio
Julho Serial killer
Agosto Ficção científica
Setembro Escritores africanos
Outubro Chick lit
Novembro Literatura Pop
Dezembro Contos

Ana lerá Blind Willow, Sleeping Woman, de Haruki Murakami.

Anna lerá A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata.

Jean–Paul Sartre – Entre Quatro Paredes

Ana,

quando eu escolhi Sartre para o desafio do Nobel, eu estava interessada em ler algo dele que não fosse puramente filosofia/ política. Acabei escolhendo Entre Quatro Paredes por ter sido o primeiro que consegui baixar com uma qualidade bacana pra converter pro Kindle 😛

Sartre levou o Nobel de 1964. Aliás, mas legal ainda: Sartre recusou o Nobel de Literatura de 1964  com o argumento de que aceitar um prêmio como esse era transformar o escritor em instituição. Na página dele do site, lemos:

The Nobel Prize in Literature 1964 was awarded to Jean-Paul Sartre “for his work which, rich in ideas and filled with the spirit of freedom and the quest for truth, has exerted a far-reaching influence on our age”.

Jean-Paul Sartre declined the Nobel Prize.

“Não, obg, não quero prêmio”

Entre Quatro Paredes é chato. Três personagens — um publicitário galinha, uma mocinha mimada da alta sociedade e uma funcionária dos Correios lésbica — são colocados numa mesma sala, de decoração demodê , sem janelas, com uma porta que não abre e uma luz que não se apaga nunca. Eles não se conhecem e não têm nada em comum. Daí eles se lembram que morreram e descobrem que estão no inferno. E têm que começar a lidar com várias coisas: a tensão da convivência entre si, o ciúmes que Inês (a funcionária dos Correios) sente de Garcín, pois está interessada em Estelle (a mocinha); os jogos de Estelle, que quer se pegar com Garcín ali na frente de Inês, só pra provocar; a covardia do próprio Garcín.

[Estelle]: Como é vazio um espelho em que não estou! Quando eu falava, sempre dava um jeito para que houvesse um espelho em que eu pudesse me ver. Eu falava e me via falar. Eu me via como os outros me viam. Por isso, ficava acordada. (Com desespero): Meu rouge! Tenho certeza de que pintei mal. Mas não posso ficar sem espelho por toda a eternidade!

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[Inês] (Quase com doçura): Por que a fez sofrer?

[Garcín] – Porque era fácil. Uma palavra bastava para fazê-la mudar de cor. Era uma sensitiva. Ah, nem uma censura! Sou muito implicante. Esperava, esperava sempre, mas nada. Nem um choro, nem uma censura.

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[Inês]: Eu, sim, sou má. Quer dizer, preciso do sofrimento dos outros para existir. Uma tocha. Uma tocha nos corações. Quando estou sozinha, me apago. Durante seis meses, eu ardi no coração dela: queimei tudo. Uma noite ela se levantou, foi abrir a torneira de gás, sem que eu percebesse. Depois voltou e se deitou ao meu lado.

Falando assim, o livro não parece de todo ruim. E não é. Só não é um texto bom, que você recomende. Se eu tivesse ido ver a peça, acharia muito, muito chato (mas temos que incluir o fato de eu não gostar de teatro).

O final é clássico e repetido mil vezes por aí.

[Garcín]: Então, é isso que é o inferno! Nunca imaginei. . Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno.. O inferno são os outros!

– Anna