Isaac Asimov – O fim da eternidade

Ana,

Asimov é um autor que sempre esteve na minha lista de leituras mas que eu nunca parei realmente pra ler até agora, mas com certeza vou ler mais algo dele, além desse O Fim da Eternidade.

Andrew Harlan, o personagem principal, é um Eterno (não um imortal, “Eterno” são os que vivem na Eternidade, uma organização que existe fora do tempo e que controla as várias realidades no nosso mundo). Ele trabalha com mudanças temporais que controlam extremamente a realidade através dos séculos, evitando guerras e até mesmo grandes avanços científicos que possam não ser tão benéficos pra humanidade — como as próprias viagens no tempo (!) — e para tanto se utilizam da viagem no tempo. Durante tais viagens, a presença de um Eterno deve acontecer em lugares e tempos que não comprometam a Realidade e cause qualquer mudança que não seja bem-vinda. Em outros casos, tais mudanças podem até mesmo destruir milhões de vidas.

Na Eternidade não havia Tempo com o sentido comum do Tempo do universo exterior, mas os corpos dos homens ficavam mais velhos, e esta era a medida inevitável de  Tempo, mesmo na ausência de fenômeno físico significativo.

(…)

Ele detinha o destino de milhões na ponta dos dedos, e se alguém devia caminhar solitário por causa disso, podia também caminhar com orgulho.

Não é difícil perceber logo de cara que só existem homens Eternos (Tempistas, Aprendizes, Observadores, Técnicos, Computadores e Especialistas). E eu faço essa observação não por feminismo barato, mas por que é interessante observar como as mulheres são retratadas no romance (todos os destaques são meus):

No Tempo, elas [as mulheres] eram apenas objetos, como paredes e bolas, ancinhos e carrinhos de mão, gatinhos e mitenes. Eram fatos a serem Observados.

(…) A Eternidade sempre estivera consciente da necessidade de compromisso com os desejos humanos, mas as restrições envolvidas na escolha das amantes tornavam o compromisso qualquer coisa que não vago, qualquer coisa que não liberal. E daqueles que tinham sorte suficiente para qualificar-se para tais arranjos, esperava-se, além de decência comum e consideração pela maioria, que fossem muito discretos a respeito. Entre as classes inferiores dos Eternos, particularmente entre a Manutenção, sempre havia rumores de mulheres importadas para as finalidades óbvias.

Menos sensacionais eram as estórias sobre funcionárias Tempistas que todos os Setores engajavam temporariamente para desempenhar as tediosas tarefas de cozinhar, limpar e o serviço pesado.

É interessante observar também a repulsa que Harlan tem por mulheres, ficando completamente desestabilizado na presença de uma.

Ele encontrou a garota num corredor, certo dia, e ficou de lado, de olhos desviados, para deixá-la passar.

Contudo, Harlan acaba visitando um século onde há uma espécie de aristocracia feminina, o século 482.

O século 482 não lhe era confortável. Não era como seu próprio século natal, rigoroso e conformista. Era uma época sem éticas ou princípios, como aqueles que estava acostumado a imaginar. Era hedonista, materialista, mais que um pouco matriarcal. Era a única época na  qual florescia nascimento ectogênico e, no máximo, quarenta por cento de suas mulheres davam à luz eventualmente, simplesmente acrescentando um óvulo fertilizado ao ovário. O casamento era feito e desfeito por mútuo consentimento e não era reconhecido legalmente como qualquer coisa mais do que um acordo pessoal sem força  de ligação. A união visando gravidez era, naturalmente, cuidadosamente diferenciada das funções sociais do casamento e arranjada sobre bases puramente eugênicas.

E é ironicamente — ou não — nesse século que Harlan se envolve com uma Tempista chamada Noÿs e que vai mudar toda a sua percepção de Realidade e Eternidade. Acontecem umas boas reviravoltas no enredo, e o livro vai ficando cada vez mais interessante (no início parecia que ia ser algo super tedioso, mas não!).

Com toda a questão das viagens no tempo, o livro nos mostra alguns paradoxos temporais típicos de tais viagens: o paradoxo da duplicação – quando Harlan quase se encontra consigo mesmo durante uma entrada na Realidade (dá pra super lembrar do De Volta Para o Futuro :P); quando a Eternidade envia Cooper ao passado, para que Cooper crie a Eternidade, para que a Eternidade envie Cooper ao passado (uma coisa meio o ovo e a galinha); e quando Harlan viaja no tempo para destruir a viagem no tempo (de novo De Volta Para o Futuro. Se eu voltar no tempo e matar o meu avô, eu deixo de existir?).

Livro super bom, o enredo que vai se tornando cada vez mais instigante e pela primeira vez na vida eu tive vontade de que um livro tivesse continuação (não gosto de livros em volumes, o único que li completo foi O Senhor dos Anéis) e, pelo que eu li, é considerado por alguns o melhor livro de Asimov! Série Fundação já tá toda no Kindle 😛

–Anna

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