Carlos Braghini Jr – Ecologia Celular

Ana,

nesse minha neura a respeito de nutrição, e depois de uma ou duas visitas ao nutricionista e de sair de lá decepcionada (vai explicar que você não quer uma dieta, você quer bibliografia sobre alimentação!), resolvi eu mesma ir buscar informações a respeito. Porque hoje em dia, ou você é a natureba que toma cápsula de babosa antes do almoço e planta o próprio tomate, ou é a trouxa que lancha duas fatias de blanquet de peru a tarde e toma um copo de whey protein pela manhã. E, não, obrigada, eu não quero ser nenhuma das duas. E, DELS, como é difícil achar informação sobre comida! Quando você é uma criatura que acha que óleo/ carne/ produtos de soja sejam só uma desculpa pra descarregar toda a produção (a soja é um dos principais itens de produção agrícola no Brasil, que é o segundo maior produtor mundial) e que quando ouve a velha história dos dois litros de água por dia a primeira coisa que pensa é “será?”, essa procura fica cada vez mais difícil.

Daí que eu assisti uma palestra super ótima da nutricionista Luciana Ayer. E quando ela pergunta “o que você come é comida?”, os céus se abriram pra mim. Afinal, o que é “comer comida”? Eu cresci num contexto de nada de doces de manhã, coca-cola só nos fins de semana e nem sei se minha mãe já comprou biscoito recheado alguma vez na vida, e essas coisas nunca fizeram falta. Não que a minha família seja natureba, longe disso. Claro que a gente ia no McDonalds, e a Páscoa era cheia de chocolate ao leite. Mas sabe comida de roça? Carne, verdura, arroz, feijão. Lanche da tarde é feito de pão, queijo — até mortadela ou presunto, veja só — e não tem essa de comer frutinha de manhã: o café da manhã é café, leite, pão, suco, manteiga. Claro que não somos uma família de magros. Mas claro que ninguém lá em casa nunca – nun ca – ficou doente. Vovó tá nos 83 anos e nunca tomou remédio, e é difícil desvincular isso do tipo de nutrição que temos. E quando eu ouvi a pergunta da doutora, eu fiquei pensando na nutricionista que me falou que eu tinha que aprender a comer, e trocou meu café da manhã por uma fatia de pão light e uma fatia de peito de peru magro, e me deu vontade de ir lá bater ca baguete na cara dela.

E esse livro — Ecologia Celular — vai muito de encontro com o que eu ouvi na palestra. Ele é cheio de dicas de leitura sobre comida e vai contra toda essa cultura do light, diet, gordura reduzida e leite desnatado, dá uma super puxada de saco pro lado dos orgânicos (que eu adoro), fala sobre o que é comida e o que é produto alimentício e fomentou meu desespero contra margarina. O foco dele é nutrição celular: se comemos comida, mesmo uma costela gorda, toda a proteína, gordura etc. vai beneficiar nosso corpo desde as células; se comemos um pacote de cheetos, todos os nutrientes do nosso corpo vão ser direcionados pra “desintoxicar” nosso corpo de tanto corante e produtos sintéticos e nós acabamos por, a longo prazo, desnutrirmos – mesmo ingerindo milhões de calorias.

O problema é que, da metade do livro pra lá, o tio degringola. O que tava muito bem e muito lindo vira uma neurose completa, como não usar água da torneira nem pra lavar louça (hein?), por conta dos produtos químicos adicionados pra limpar a água, comer ovo cru e suco de sementes germinadas pela manhã e não tomar suco de frutas por causa do índice glicêmico. Aliás, você não deve tomar nada, nunca, que não seja água. QUÊ? (sem contar que o projeto gráfico do livro é um lixo e a falta de revisão de textos salta aos olhos, não vale nem de longe os R$ 43 pagos).

Tudo bem que eu não consiga mais tomar nenhum iogurte que não seja o natural integral e que comida comprada pronta me desgoste cada dia mais (e imagino que isso seria muito mais forte se eu cozinhasse em casa, como você faz, e percebesse que dá pra fazer comidas mais saborosas que as vendidas por aí, mesmo que seja um sorvete ou doce de leite). Mas daí a não tomar cerveja porque os nutrientes dos cereais usados na fabricação são pobres (!!!) e não comer sushi porque o salmão daqui não é salmão de verdade é o cúmulo! Quem tem que mudar não sou só eu, é a indústria em si. Isso sim seria mais saudável pra todo mundo. Não pretendo me tornar uma louca que come em casa antes de ir pro bar e fique lá tomando água sem flúor com duas gotinhas de limão enquanto meus amigos comem mandioca frita e tomam Heineken. Tudo tem limite. Comida é interação social, é sobretudo emocional (senão estaríamos comendo ração, como os bichos de estimação). Eu acho sim que temos que ter cada vez mais consciência sobre o que comemos e de quem compramos nossa comida (e nossas roupas etc.), do tratamento dado aos animais que consumimos (acho que daí vem também o meu recente nojo por aves, além de tudo ter pra mim gosto de frango fervido) e de sabermos que pagamos caro por um leite que não é leite. Mas é como a poluição: não adianta todo mundo no mundo deixar de usar carro e sacolinha plástica. São as grandes organizações que devem fazer as principais mudanças. Eu deixar de comer carne é fechar os olhos pra grande indústria do horror que são os matadouros, é o jeito mais hipócrita de “aliviar a consciência”. A pressão tem que ser nos grandes produtores, nas grandes indústrias. A solução, definitivamente, não é virar um weirdo, o esquisitão do ovo cru com flor de sal pela manhã.

– Anna

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13 respostas em “Carlos Braghini Jr – Ecologia Celular

  1. Anna, adorei o “tio degringola”…Estou me divertindo até agora. Vou seguir seus posts, pois gostei do puxão de orelhas. Vou deixar mais clara minha intenção ao escrever a parte “viajandona” numa próxima edição. Só não vou contar para minha programadora visual (e para minha revisora) suas observações sobre a editoração 😉 Um abraço.

    • Dels, como eu gosto de autor não ranzinza 😛

      Estou relendo o livro! Gostei de muita coisa nele e por isso sempre volto em alguns tópicos 🙂 e nunca mais consegui comer amendoim!! Hahaha

      Quanto as observações de editoração e revisão, bem… Vícios da profissão, eu sou bem enjoada :-/ deixo de comprar livro com capa que não me agrada, hifenizado ou com revisão ruim. Mas em minha defesa, devo dizer que é meu modo de criticas as editoras, pois revisores, autores e diagramadores acabam ganhando tão pouco em comparação aos lucros que elas têm… 😦

      em nome das An(n)as, digo que é uma honra tê-lo aqui! Abraço!

  2. Sim, Anna & Anna, mostra um pouco de como as coisas acontecem à nossa volta e como ficamos à mercê do entorno. Se você olhar o livro por este prisma, vai perceber que o que precisamos é ficar atentos e seguir nosso senso de urgência. Se sou jovem e saudável, tenho tempo para fazer pequenas mudanças, paulatinamente, num ritmo mais lento. Se estou doente ou sob risco de algo mais grave, talvez seja prudente eu ser mais espartano e radical em minhas escolhas. Esta foi minha principal intenção: dar informação (poder) para que possamos tomar a melhor decisão possível. Na vida, não existem verdades absolutas, nem caminho garantido. Somente o segundo passo nos diz que o primeiro foi correto. Não dá para saber isso antes.

    • Eu tenho mudado meu ponto de vista desde que publiquei que não somos nós quem devemos mudar, mas as grandes indústrias. Claro que o impacto é maior se for uma delas a adotar uma atitude mais responsável. Mas sou eu quem escolho o que comprar/ usar etc. Esse poder faz muita diferença.

      • Eu acredito que as corporações seguem o que os consumidores querem. Eu não imagino um conselho de acionistas se reunindo para avaliar se os consumidores de seus produtos estão mais saudáveis. Nem vocês, né? Por exemplo, o McDonalds não vai desaparecer, apenas vai mudar seu perfil de acordo com o que desejam os compradores. O fato deles incluírem frutas no cardápio vai mais ou menos nessa linha. Se ninguém mais comer porcarias, ninguém vai procurar produzi-las, certo? É aquela história do salmão selvagem. Ele nem chega aqui, pois toda produção chilena vai diretamente para a Europa, cujos consumidores não aceitam o salmão “amarelinho”. Consumidores esclarecidos e exigentes é que irão produzir as mudanças. Abraço(s).

    • Oá Dr Carlos, sou uma estudiosa da alimentação. Gostei muito dos seus artigos e pretendo comprar o livro.
      Quero dizer para a Anna que adorei o texto dela, e que algumas informações citadas em que ela considera “viajandão” são muito importantes para a manutenção da saúde.

      Anna, um dia eu estava num encontro sobre alimentação funcional , quando um renomado cheff Belga me informou num que o SALMÃO oferecido no comércio é TODO TRANSGÊNICO, COM ELEVADOS ÍNDICES DE QUÍMICA PARA TINGIR A CARNE. … Na hora foi um choque, pois no meu vocabulário funcional alimentar o Omega 3 poderia ser obtido através da carne deliciosa do Sr Salmão. O Chef foi categórico: LIXO! E ainda disse mais , Salmão selvagem só o que ele pesca…E Anna, tb não dá para confiar na AMBEV, sinto muito, mas a Heineken e todas as cervejas que vem escrito 40% de “outros cereais” entenda MILHO TRANSGÊNICO, Estou fora!
      Agora, sem radicalismos, porque eu não vou deixar de comer meu sashimi de outros peixes de preferência de alto mar, e nem de beber a minha cerveja artesanal com 100% de PURO MALTE. Fica a dica . Saudações sustentáveis ~~~~~~~~~~~~~~:>

      • Oi, Cristina! Pois é, de lá pra cá eu mudei muito minha visão sobre algumas coisas (ainda mais sobre a relação grandes empresas x consumidores). Quanto a confiar em ambev etc… eu costumo brincar que não confio nem que azeite seja feito de azeitona 😉

        Abraço,

  3. Viver é muito perigoso. Exige atenção total por todo o tempo. Como diz o médico argentino Juan José Tapia “viver é uma ação total que requer toda minha energia”. Obrigado pelos comentários.

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