Deus Não É Grande – Christopher Hitchens

Ana,

Terminei de ler Deus Não é Grande: Como a Religião Envenena Tudo há algum tempo já (no dia 24 de janeiro, segundo o Goodreads :B). Hitchens é um dos meus autores favoritos (vale a passada na página dele na Vanity Fair) e foi a primeira vez na vida que eu tremi o beicinho quando um escritor morreu (ele faleceu de câncer em 2011).

Esse livro parte da premissa de que o homem criou Deus “à sua imagem e semelhança”, em contraponto à colocação bíblica. O autor aponta a crença em Deus, e mais ainda a crença numa religião organizada, como o principal atraso ao desenvolvimento da nossa sociedade (ocidental, principalmente).  Hitchens coloca – e eu concordo – as religiões como “violentas, irracionais, intolerantes, racistas e incentivadoras do fanatismo”, e fundamenta muito bem suas colocações, como a tendência que temos em acharmos que uma pessoa religiosa é inofensiva e bondosa. Temos o “maior país católico do mundo”, e que não consegue dar um passo à frente no caminho dos Direitos Humanos ou em outras questões relevantes, como distribuição de renda e melhoria da qualidade de vida e diminuição da corrupção crônica, sem que dê três passos pra trás e proíba uma mulher grávida com câncer de abortar, ou que permita atrocidades como derrubar uma liminar que permitia que mulheres antecipassem o parto de fetos com má-formações incompatíveis com a vida (por favor, assistam), como acontecido em 2004. Ou onde o fato de um candidato a qualquer cargo público no país tenha que ficar provando o tempo todo que acredita em Deus (indo à missas, cultos etc.) pra não correr o risco de perder votos (vi isso acontecer com vários candidatos ao governo do GDF, não só de esquerda, e à então candidata Dilma nas últimas eleições).

Aliás, o próprio conceito de espiritualidade me desgosta muito. O velho “tenho um lado espiritual independente de religiões” me soa de um autocharlatanismo medonho, beirando o desequilíbrio. O que eu tenho visto são pessoas que afirmam coisas assim e que não possuem um mínimo de pensamento crítico livre de superstições e abominações de todo tipo. É o indivíduo que toma passe no Terreiro, vai à Missa no fim de ano, crê em reencarnação, paga o dízimo e usa amuleto de pimenta no pulso. Mais falta de bom-senso não há. E esse tipo de desarranjo mental se reflete em todas as áreas da vida da pessoa, numa mistura de maria-vai-com-as-outras com ovelha procurando o bom pastor que acaba virando terreno fértil para um manipulador mais incisivo e uma porta aberta pra todo o tipo de aberração, como achar que isso ou aquilo acontece “porque Deus quis”. Essas pessoas são as mais aptas a desenvolverem preconceitos e apoiarem violências de todos os tipos em nome de uma entidade (ou de várias entidades) que – vejamos – nunca tivemos a mínima certeza de que exista ou tenha existido.

Gostei muito do capítulo onde ele desmancha a visão que temos das religiões orientais. Uma coisa que sempre me irritou é esse Zen de beira de esquina, essas falsas colocações de que o oriente é mais espiritualizado e evoluído (o que podemos ver, logo de cara, que é falso, posto que o Japão tem índices altíssimos de suicídio e a Índia, bem…). Tudo isso é usado pra criar a falsa analogia pobreza = felicidade, ou colocar a pobreza material dos Estados (fruto da exploração, das desigualdades, da corrupção) como uma qualidade. Em outras palavras, pra dopar o povo e desviar a atenção do que realmente importa.

Com muito do que li eu concordei de cara, com outras coisas eu tive que parar pra pensar (tanto esse livro como o Deus, Um Delírio foram, pra mim, muito mindblowing). Li a edição traduzida pro português, mas tomei vergonha na cara e coloquei a original no Kindle e vou reler 🙂

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4 respostas em “Deus Não É Grande – Christopher Hitchens

  1. Achei muito interessante o livro do Dawkins. Li quase que de uma vez, andando feito zumbi nos intervalos, por ter dormido pouco. Um ponto que não gostei, no entanto, é o proselitismo, que me parece presente também nesse daí.
    Sobre os adeptos do “lado espiritual independente”, eu estou mais pra faça o que quiser desde que não venha tentar me convencer a fazer o mesmo.
    Por fim, pena que o kindle morreu e levou o livro com ele.

    • Alexandre, esse proselitismo é meio presente mesmo. Acho que talvez por serem livros meio pra tirar agnósticos do muro, sabe?
      Quanto ao Kindle, eu tinha esse arquivo no HD também (ufa!). E o novo chegou hoje, êêê!

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