Ondjaki – Bom Dia Camaradas

Anna,

como você percebeu pela minha resenha anterior, apaixonei-me pelo Ondjaki. Por isso resolvi ler outro dele! 🙂 E já quero ler o Agualusa também…

De novo, o autor trata de memórias da infância em Luanda, durante a guerra civil angolana.

“Então também percebi que, num país, uma coisa é o governo, outra coisa é o povo”. 

O menino, que claramente é de classe média, descobre as desigualdades. Enquanto os professores cubanos ficam perplexos com a abundância de comida, com crianças usando “sofisticados” relógios de pulso, o menino fica surpreso com a tia de Portugal que trouxera tantos presentes. Como ela conseguiu comprar tantas coisas? Como não há “cartão de abastecimento” (de racionamento, em português claro) em Portugal? Então as pessoas em Portugal vão às lojas e compram o que querem?

Pouco a pouco, o cenário de Angola vai se infiltrando na trama. Da praia que só pode ser usada por soviéticos ao forte esquema de segurança para o presidente, passando pelo “Caixão Vazio” (que não posso dizer o que é! :D) e pelos os comícios, Ondjaki nos força a lembrar que o menino, apesar de tudo, vive em um país em guerra.

“Mas quando, por exemplo, o presidente sai ao domingo, vai a casa de algum amigo, já não leva a polícia, às vezes até vai a pé – ela estava mesmo a falar sério, isso é que me deixou impressionado.

– O vosso presidente anda a pé? – até desatei de rir. – Epá, tenho que contar essa aos meus colegas!, ainda querem estigar os presidentes africanos… Presidente em África, tia, só anda já de mercedes, e à prova de balas.”

É sempre triste ver que uma guerra está sempre tão infiltrada na vida das crianças da região, por mais suave e belo que seja o texto.

“Guerra também aparecia sempre nas redacções, experimenta só mandar um aluno fazer uma redacção livre pra ver se ele num vai falar da guerra, até vai já aumentar, vai contar a estória do tio dele […]. Guerra vinha nos desenhos (as akás, os canhões monacaxito), vinha nas conversas (“tou a dizer, é verdade…”), […] vinha nos anúncios da tv (“ó Reagan, tira a mão de Angola…!”), e até vinha nos sonhos (“dispara, Murtala, dispara porra!”)

O menino cresce com tudo isso. Ao terminar o livro, fiquei de novo com aquela sensação de coração quente, de quase saudade de um personagem.

E como já é regra em resenha de livros angolanos, há que se falar sobre o idioma, um português tão mais lindo e sonoro. Adorei não somos só nós que nos deparamos com uma barreira idiomática! 🙂

 “- Mas espera… Vou te contar já outras estórias mais quentes…

– Mais “quentes”? – esse era o problema de falar com pessoas de Portugal, havia palavras que eles não entendiam.”

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6 respostas em “Ondjaki – Bom Dia Camaradas

  1. Eu super amei o Bom Dia também! Lembrei de mais dois livros dele que eu ganhei, já entraram na fila! Um é o Quantas Madrugadas tem a Noite e o outro é o A Bicicleta de tinha Bigodes (que é infantil). 😀

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