José Eduardo Agualusa – O vendedor de passados

Ana,

Eu já estava gostando muito do nosso desafio em si, mas esse mês da literatura africana, até agora, tem sido o melhor de todos! Como eu já tinha lido o Bom Dia Camaradas (sem vírgula, ai dels), resolvi ler um outro angolano de quem sempre ouvia falar mas nunca tinha lido nada, o Agualusa.

Gostei tanto d’O Vendedor de Passados que já até comprei outro livro dele (o As Mulheres do Meu Pai, que pretendo começar a ler logo). A narrativa é apaixonante, os personagens acabam por fazer parte meio que da vida da gente, sabe? Quando acabei o livro, realmente senti falta deles (loca).

Eu já vou contar uma coisa logo, espero que não estrague a surpresa: o narrador do livro é uma lagartixa (uma osga, como falam em Angola, chamada Eulálio) que em outra vida foi homem (e pior, uma lagartixa que ri. E parece que o bicho existe mesmo). Eulálio vive na casa de Félix Ventura, um albino adotado por um alfarrabista e que tem a casa abarrotada de livros, e vende passados pra recente classe média angolana — gente bem sucedida mas que, como a maioria dos brasileiros, aliás, não tem uma genealogia definida. Félix lhes arruma parentescos com brasileiros e portugueses (ilustres ou não), inventa histórias de passados e feitos e arranja-lhes, inclusive, retratos.

A história é contada, inclusive, através de sonhos que a osga tem e de lembranças que ela tem de sua vida como gente. Um dia, chega à casa um estrangeiro querendo uma identidade angolana, mas sem gente famosa ou nada assim: ele quer somente ser um angolano desconhecido, normal, que não chame a atenção. É a partir desse personagem que a história mesma começa a se desenrolar.

Me agradou, além do livro em si, a escrita de Agualusa. Não sei se é influência do português angolano, tão poético, tão caseiro, com um jeito meio mágico de dizer as coisas e que me lembra um pouco o espanhol (não no léxico, mas nessa poesia mesmo) — tanto que às vezes não sei se gosto tanto do García Marquez por ser o García Marquez ou por ele escrever em espanhol, hahaha.

Quero muito conhecer outros escritores angolanos e africanos de língua portuguesa. Já li alguns na época da graduação (Os Flagelados do Vento Leste, de Cabo Verde; Balada do Amor ao Vento e Terra Sonâmbula, de Moçambique; e Luuanda, de Angola são os que me vêm à cabeça agora) e tenho o nome de outros anotado, e super vou atrás pra conhecer.

Mas já posso dizer com segurança que a literatura africana em língua portuguesa é uma das mais bonitas que já li 🙂

PS.: Parece que o autor pegou a mania, depois dO Vendedor de Passados, de colecionar lagartixas,olha só.

PS2: O Bom Dia Camaradas eu devo ter lido lá por 2007/2008. Li uma edição que não era brasileira — e eu não lembro qual era — porque o Ondjaki não era modinha ainda, hahaha, e a Cultura não tinha edição nacional dele. Ou seja, o preço foi meio salgado. Mas naquela época eu tava apaixonadinha por literatura em língua portuguesa (li uns portugueses que moravam na África, ou que tinham ido pras guerras — ou os personagens deles tinham ido — de independência que estavam acontecendo por ali, li mais ou menos uns escritores de Açores — e descobri que os açorianos VENERAM a Cecília Meireles, que tinha ascendência açoriana [eu acho ela um saquinho] — li uns portugueses contemporâneos e por aí vai), então valeu a pena. O caso é que um colega de trabalho à época (2009 ou 2010) pediu esse e um livro do Bukowski emprestado pra ler no feriado. Leu os dois, gostou pra caramba, comentou… e nunca devolveu. Não adiantou pedir, ele sempre esquecia; até me contar, meio sem graça, que tinha perdido os livros numa viagem à Goiânia. Fiquei meio chateada, tanto que me lembro da história até hoje. No final de 2010 eu fiz a besteira de comprar livro repetido (umas duas ou três vezes). Aí resolvi fazer um levantamento de tudo que eu tinha, tirar uns que eu não queria mais e devolver outros. Resultado: mais de DEZ LIVROS FALTANDO. Nenhum Saramago eu tenho mais (eram dois ou três e eu pedi de volta mil vezes pra pessoa e nada). Me veio à cabeça aquela frase: quem empresta livro e CD não empresta, dá. E eu decidi que, porra, vão silascá! Desde então, eu sutilmente digo pra quem me pede livro emprestado que não dá, não é nada pessoal, mas eu não empresto livro. As pessoas parecem entender bem e ninguém deixou de ser meu amigo por isso, hahaha.

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2 respostas em “José Eduardo Agualusa – O vendedor de passados

  1. Amei, amei, AMEI saber que o livro é narrado por uma OSGA! 🙂 Já decidi que vou ler só por conta disso (e porque estou terrivelmente apaixonada por autores angolanos).

    Concordo que este foi o melhor mês do Desafio até agora! 🙂 Terminei de ler o Bom Dia Camaradas (sem vírgula, delz delz delz), deve rolar resenha na semana que vem! 😀

    —-

    E super concordo com a política de “emprestar” livros. :/ O povo é muito cara de pau!

  2. Pingback: Desafio Literário – Setembro « Ana, leu isso?

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