Ondjaki – Os da minha rua

Anna,

O primeiro livro em português que leio para o desafio! Os da minha rua é um livro de contos sobre a infância em Angola. De um adulto relembrando sua infância, melhor dizendo.

A primeira diferença que noto, e que me encanta: as palavras. O idioma é português, mas português de Angola. Não é refrigerante, é gasosa. Não nos machucamos, magoamo-nos (um bocadinho). Está mais próximo do português de Portugal – às vezes “ouvia” minhas primas e tia falando no texto. É fixe!

A primeira vítima [dos “tiros” de tremoço] foi a minha irmã, a segunda foi uma velha que estava lá sentada e que era muda. Fiquei todo satisfeito porque pensei que ela não fosse me queixar. Mas era uma velha queixinhas e meu pai pôs-me de castigo. 

❤ ❤ ❤ Uma velha queixinhas, Anna!

E um verbo maravilhoso: “matabichar”.

 A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um mais-velho a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar.

Fiquei pensando muito no que dizer sobre o livro, já que não há “enredo” pra contar. A sensação que tive depois de ler cada conto era de coração bom. Sabe, aquela sensação depois que você conversa por horas com uma pessoa “do bem”, que passa uma energia bacana, mesmo que às vezes triste? (Eu sei que tá soando hippie, mas me deixa). Um sorriso grande e, às vezes, uma vontade de abraçar a criança que conta a história.

Nas despedidas acontece isso: a ternura toca a alegria, a alegria traz uma saudade quase triste, a saudade semeia lágrimas, e nós, as crianças, não sabemos arrumar essas coisas dentro do nosso coração.

O conto “o portão da casa da tia rosa” (assim, em minúsculas) merece destaque. É lindo. Quando terminei de ler, voltei e reli. E vou ler algumas vezes mais, tenho certeza.

E o conto “palavras para o velho abacateiro”  tem uma frase de…. oito páginas e meia. 🙂  E no meio dessas oito páginas e meia:

[a avó dizia] que o futuro não era uma coisa invisível que gostava de ficar muito à frente de nós mas antes [….] um lugar aberto, uma varanda, talvez uma canoa onde é preciso enchermos cada pedaço de espaço com o riso do presente e todas, todas as aprendizagens do passado, que alguns também chamam de antigamente

Alguns contos arrancaram lágrimas. Não, não estou particularmente emotiva. É só um livro muito bonito mesmo.

E a carta ao final do livro o resume, com muito mais propriedade que o meu falatório:

Tratas de antigamente com a doçura necessária. As palavras estão limpas e lêem as linhas da cidade atentas já aos grandes ruídos. […] Teu livro dá conta de como crescem em segredo as crianças.”

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8 respostas em “Ondjaki – Os da minha rua

  1. Ana, como você falou no GTalk, “foi uma revelação misturada com inveja por não ser nativa de um idioma em que se fale velha queixinhas”. É bem o que eu sinto! A primeira vez que li um livro de um autor angolano, ainda no tempo da graduação, eu me apaixonei pelas palavras! Eu nem lembro quem era o autor ou qual era o romance, mas me lembro bem dessa inveja de “poxa, meu português não é bonito assim”.
    Do Ondjaki eu li o Bom Dia Camaradas (dá vontade mesmo de apertar aquele menino que conta as histórias, tão tão querido) e uns poemas de um livro chamado actu sanguineu e nunca me saiu da cabeça uns versos que diziam “que o amor é rosa e cacto/ e espinho,/ e eu sou prosa e pranto/ e vinho”.
    O jeito de falar angolano parece ser muito mais poético e tocante que o nosso, e isso é apaixonante.
    .
    E falando em português, agora o moçambicano, tem um autor, o Eduardo White, que me deixa com essa mesma sensação (fui toda numa empolgação mostrar um poema dele prum amigo meu e ele me diz que até hoje lê e chora). Procurei um outro poema dele, o primeiro que li, e acabei dando num link do youtube com o Ondjaki declamando!

    E o poema que faz meu amigo chorar é esse

    O que vocês não sabem e nem imaginam
    Eduardo White*

    Vocês não sabem
    mas todas as manhãs me preparo
    para ser, de novo, aquele homem.
    Arrumo as aflições, as carências,
    as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
    o vinagre para as mágoas
    e o cansaço que usarei
    mais para o fim da tarde.

    À hora do costume,
    estou no meu respeitoso emprego:
    o de Secretário de Informação e de Relações
    [Públicas.
    Aturo pacientemente os colegas,
    felizes em seus ostentosos cargos,
    em suas mesas repletas de ofícios,
    os ares importantes dos chefes
    meticulosamente empacotados em seus fatos,
    a lenta e indiferente preguiça do tempo.

    Todas as manhãs tudo se repete.
    O poeta Eduardo White se despede de mim
    à porta de casa,
    agradece-me o esforço que é mantê-lo,
    alimentado, vestido e bebido
    (ele sem mover palha)
    me lembra o pão que devo trazer,
    os rebuçados para prendar o Sandro,
    o sorriso luzidio e feliz para a Olga,
    e alguma disposição da que me reste
    para os amigos que, mais logo,
    possam eventualmente aparecer.

    Depois, ao fim da tarde,
    já com as obrigações cumpridas,
    rumo a casa.
    À porta me esperam
    a mulher, o filho e o poeta.
    A todos cumprimento de igual modo.

    Um largo sorriso no rosto,
    um expresso cansaço nos olhos,
    para que de mim se apiedem
    e se esmerem no respeito,
    e aquele costumeiro morro de fome.

    Então à mesa, religiosamente comemos os quatro
    o jantar de três
    (que o poeta inconsta
    na ficha do agregado).

    Fingidamente satisfeito ensaio
    um largo bocejo
    e do homem me dispo.
    Chamo pela Olga para que o pendure,
    junto ao resto da roupa,
    com aquele jeito que só ela tem
    de o encabidar sem o amarrotar.

    O poeta, visto depois
    e é com ele que amo,
    escrevo versos
    e faço filhos.

    • Anna, terminei de ler “Bom Dia Camaradas”! A resenha vai demorar, mas como amei!! Você acha que tá em condição de fazer uma “resenha colaborativa conjunta”? 😀

      E leia leia leia tipo AGORA Os da Minha Rua!

  2. LEREI! Lerei 😀
    E, se achar algo do Eduardo White, MIFALA! Eu achei Os Materiais do Amor completo na internet, mas só 😦 Tem bem pouca coisa dele por aí (até mesmo em livrarias) :\

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