Desafio Literário 2013/ 2014 – Abril

E depois de muitos debates via e-mail, “o que é que a gente disse que era futurismo mesmo?” (Resposta: livros ambientados no futuro, dãã), vamos ao desafio de abril!

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana vai ler Uglies, de Scott Westerfeld

Anna vai ler A Morte da Luz, de R. R. Martin

Reinaldo Moraes – Tanto Faz

Anna,

Esta vai ser uma resenha curtinha. O livro não merece muito mais do que isso. O título é bastante preciso, já que tanto faz ler ou não.

Final da década de 1970. O narrador, Ricardo, é enviado a Paris por um ano, com uma bolsa de pesquisa pra estudar economia. Mas o que ele quer é curtir.

Talvez em 1981 este tema tenha sido revolucionário, interessante e cool, contando de forma glamurizada a história de pessoas de 20 e muitos, 30 e poucos anos que não são “adultas” no sentido tradicional de casado-com-dois-filhos, usam drogas, transam sem muito compromisso, blá blá blá.  Em 2014…. bitch, please. Todo mundo é mais ou menos assim! Então você está no fundo lendo a história de pessoas irritantemente comuns e desinteressantes.

Algumas tiradas são bacanas, algumas “aventuras sexuais” (estou me sentindo a Veja!) são ótimas e me fizeram rir. Mas nada que me faça recomendar, nada que me faça querer ler outro livro do autor, etc. Estaria eu ficando velha? Ou é só fruto do meu mau humor causado você-sabe-por-quem? Embora às vezes eu me lembrasse de Naked Lunch, Tanto Faz é mil vezes melhor. O que realmente não quer dizer muito.

“Para mim, a angústia é um gato vira-lata com patas de pluma e corpo de chumbo. Sinto suas andanças dentro da caixa do peito, mas nunca sei onde ele está exatamente”

 - Ana

Moacyr Scliar – A Mulher que Escreveu a Bíblia

Ana,

pro desafio de março eu escolhi A Mulher que Escreveu a Bíblia porque, além de estar na minha fila de cabeceira mental (mas não mais tão mental assim) — por indicação de um colega de trabalho —, Moacyr Scliar é um autor que eu estava querendo reler há muito já. Lembro de ter lido muitos contos dele no período pré-faculdade e ter gostado bastante (pretendo reler J. J. Veiga também, outro autor com quem tive um contato rápido e de quem guardei ótimas lembranças).

O romance (ou novela?) é narrado em primeira pessoa por uma mulher que descobre, em sessões de terapia de vidas passadas, que foi esposa de Salomão (o rei bíblico). Aliás, uma das setecentas. E, embora a mais culta, inteligente e a única que sabia ler, ela era a mais feia. Aliás, a feiúra da personagem é uma constante em todo livro, tratada pela mesma, na maioria das vezes, com muito humor (característica do autor, aliás).

Digamos que na escala de zero a dez ele [Deus] se tenha autoconferido um oito, a imperfeição correndo por conta dos répteis e da feia.

(…)

Tenho belas mãos (aliás tenho belos seios, belos quadris — sou da variedade paradoxal conhecida como feia-de-cara-mas-boa-de-corpo), mas de há muito aprendera a conter minhas emoções. Já me bastava com ser feia; chorosa, eu ficaria um espanto.

A personagem (sem nome) é apaixonante! E, vamos dizer, até feminista ;D Já no prefácio, é dito sobre ela, pelo próprio autor, que

Não era um escriba profissional, mas antes uma pessoa altamente sofisticada, culta e irônica, destacada figura da elite do rei Salomão [...]; uma mulher, que escreveu para seus contemporâneos como mulher.

A questão da mulher naquelas épocas pré-bíblicas é sempre lembrada também (os grifos são meus).

(era um varão que meu pai queria para primogênito; aliás, só queria filhos homens, mas Jeová o castigou dando-lhe três filhas, a primeira medonha)

(…)

Uma primogênita era sempre um inconveniente, para dizer o mínimo: não garantia sucessão, não ajudava no trabalho e ainda precisaria de um dote para poder casar. Agora, uma primogênita feia era mais do que isso, era um descalabro cujo destino só poderia ser o precipício.

A personagem vive tranquilamente até os 18 anos sem nunca ter visto um reflexo do próprio rosto. Um dia, descobre que a irmã mais velha tinha um espelho — artigo raro e de luxo — e resolve dar uma olhada.

— Resumindo, era isso o que eu via: a) assimetria flagrante; b) carência de harmonia; c) estrabismo (ainda que moderado); d) excesso de sinais.  Falta dizer que o conjunto era emoldurado (emoldurado! Essa é boa, emoldurado! Emoldurado, como um lindo quadro é emoldurado! Emoldurado!) por uns secos e opacos cabelos, capazes de humilhar qualquer cabeleireiro.

O que eu estava vendo era a feiúra arcaica, a feiúra ancestral, uma feiúra consolidada pelos anos, pelos milênios, talvez.

(…)

por que cedi à maldita curiosidade, à maldita vaidade? Por que não me arrancou Jeová da mão aquele revelador, mas funesto objeto? Hein, Jeová? Por que não tomaste alguma providência, tu que sabes tudo, tu que podes tudo? Podias ter reduzido o espelho a pó, com o simples ato de tua vontade. Por que não o fizeste? Será que não existes, amigo? Hein? Será que não passas de uma abstração, uma ilusão da ótica emocional? Aquilo, sem dúvida, era a resposta a um pecado, a um crime. Agora eu era a feia, e tudo em minha vida seria condicionado por essa feiúra.

Ainda assim, por ser a filha mais velha de um chefe de aldeia, ela é designada para se casar com o rei, por quem se apaixona profundamente. Salomão é descrito como um homem lindo, educado, inteligente mas… um pouco mané. Ao chegar no harém e ver a situação daquelas mulheres — confinadas o dia inteiro e vivendo totalmente para satisfazer o rei (a quem talvez só vissem uma vez durante toda a vida) — ela resolve dar um jeito nas coisas (e, claro, reinvindicar que o Salomão consume o casamento, coisa que não tinha acontecido até então)

O objetivo final do movimento seria, não acabar com a instituição harém — muitas mulheres nem saberiam viver em liberdade —, mas pelo menos estabelecer uma pauta de direitos.

Numa tentativa de fuga do palácio, Salomão descobre que a esposa — como pode? — sabe ler e escrever. O escriba de seu pai a havia ensinado escondido por ter visto nela uma grande inteligência e inadequação com a situação reservada à mulher naqueles tempos. E, pela primeira vez, ela é chamada ao quarto do marido à noite.

Em vez de uma declaração de amor, uma proposta editorial.

Salomão queria escrever seus feitos e de seus ancestrais. Aliás, porque não escrever sobre a criação do mundo? sobre Deus? ora, ele era Salomão, claro que ele podia. Mas os escribas designados para isso vinham falhando já há muito, e ele vê na mulher a oportunidade de ter sua grande obra (maior em importância até mesmo que o Templo de Salomão) finalmente ser acabada. Mas ela estava muito mais pendida a escrever ficção, hahaha! Sobre Adão e Eva (e a vida sexual dos dois), ela escreve

Todas as posições eram usadas, todas as variantes experimentadas, isso sob o olhar curioso das cabras e dos ornitorrincos e, mais, sob o olhar benévolo de Deus.  Que, na minha versão, não os expulsava do Paraíso; ao contrário, encorajava-os: agora que descobristes o amor, podeis enfrentar a vida como ela é, a vida cheia de som e de fúria.

Sua versão da Bíblia — muito melhor, aliás :P — é altamente censurada, claro. Ela enche os escribas de questionamentos (mas como Caim se casou com uma mulher de outra tribo se só sua família havia sido criada até então?), mas, com o tempo, ela vai ganhando mais e mais a admiração de Salomão, que a trata diferente das outras esposas (mas não ainda como esposa, mas como amiga, ou conselheira. Ou como um homem a quem admira, o que me lembrou aquele trecho de uma fala da Marylin Frye, de 1983

“Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais [fode] exclusivamente com [ou submete sexualmente] o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens héteros reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens.”)

Algumas vezes, em momentos de revolta (a vida com certeza é mais fácil pros estúpidos), a personagem maldiz a condição de inteligente (#quemnunca #modéstia)

Já não bastava tua feiúra, tinhas de bancar a inteligente?

Eu poderia falar eternamente desse livro, ou citá-lo inteiro. Mas vai lá na Dropbox, pra facilitar as coisas ;)

–Anna

Richard Dawkins – Deus, um Delírio

Anna,

Deus, um Delírio é um daqueles livros clássicos que todo mundo comenta, mas três ou quatro já leram. E a maioria das pessoas que acredita em um tipo de Deus tem um certo preconceito e acaba não lendo. Talvez por medo do que irá encontrar. Pensei muito antes de fazer esta resenha. O que diabos eu poderia acrescentar, tanto contra ou a favor? Resolvi fazer mais para postar algumas citações do que para outra coisa – o problema foi selecionar, metade do meu livro está amarelo! :D

O livro não mudou minha posição espiritual, então talvez Dawkins fique um pouco decepcionado comigo, porque ele fala claramente que o objetivo do livro é “converter” as pessoas ao ateísmo. O meu repúdio à religiões aumentou? Não (até porque não tinha como), mas ficou melhor embasado.

Como disse o físico americano e prêmio Nobel Steven Weinberg, “a religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, teríamos gente boa fazendo coisas boas e gente ruim fazendo coisas ruins. Mas, para que gente boa faça coisas ruins, é preciso a religião”.

Uma crítica ao livro é que ele é bastante repetitivo. Em certas partes, eu me via pensando “Ok, Dawkins, já entendi seu ponto, prossiga”. Dawkins BRILHA quando descreve as histórias bizarras da Bíblia. A de Abraão é a mais tranquila! E eu lembro do meu trauma infantil ao ler esta história no livro “Histórias da Bíblia para Crianças”, e lembro da minha mãe pacientemente me explicando que a Bíblia não deveria ser interpretada literalmente – OBRIGADA MÃE.

Jesus não se contentou em retirar sua ética das Escrituras sob as quais foi criado. Ele rompeu explicitamente com elas, por exemplo, quando esvaziou as advertências duras contra desobedecer ao Shabat.

Quando Dawkins fala do Talibã, é impossível não lembrar do I am Malala. Quando ele fala do Talibã Americano (os fundamentalistas cristãos americanos), você sente medo. E, quando ele te lembra da hipócrita Madre Teresa de Calcutá, você fica tentando se controlar para não virar fã do cara e abandonar totalmente a imparcialidade na resenha. Finalmente, quando ele entra na questão do aborto, você desiste, assume que adorou o livro e pronto. Afinal, quem não gosta de ver as próprias ideias escritas de forma bem articulada e “endossadas” por um cientista famoso?

Embriões humanos são exemplos de vida humana. Portanto, à luz do absolutismo religioso, o aborto é simplesmente errado: assassinato declarado. Não sei bem o que fazer com minha observação reconhecidamente anedótica de que muitos daqueles que mais ardentemente são contra tirar a vida de um embrião também parecem ser mais entusiastas que o normal em tirar a vida de um adulto. Para ser justo, isso não se aplica, como regra, aos católicos apostólicos romanos, que estão entre os mais eloquentes adversários do aborto.

Agora, A MELHOR parte é a final, quando ele fala sobre o crime que é rotular crianças como “cristãs”, “muçulmanas”, “judias”, etc, antes que elas tenham idade e maturidade para decidir sobre o tema.

Em resumo, as crianças têm o direito de não ter a cabeça confundida por absurdos, e nós, como sociedade, temos o dever de protegê-las disso. Portanto, não devemos permitir que os pais ensinem os filhos a acreditar, por exemplo, na veracidade literal da Bíblia ou que os planetas governam sua vida, assim como não permitimos que eles arranquem os dentes dos filhos ou os tranquem num calabouço. […] Agradeço aos meus pais por adotar a opinião de que o mais importante não é ensinar às crianças o que pensar, mas como pensar. Se depois de ter sido expostas de forma justa e adequada a todas as evidências científicas elas crescerem e decidirem que a Bíblia diz a verdade literal ou que o movimento dos planetas governa suas vidas, é direito delas. O essencial é que é direito delas decidir o que pensarão, e não dos pais de impô-lo por force majeure.

Tudo bem, você pode dizer, é difícil para uma criança amish, ou hassídica, ou cigana, ser moldada por seus pais como são – mas pelo menos o resultado é que esas tradições culturais fascinantes subsistem. Nossa civilização não ficaria mais pobre se elas fossem eliminadas? É uma pena, talvez, que indivíduos tenham de ser sacrificados para manter essa diversidade. Mas é o preço que pagamos como sociedade. Só que, sinto-me obrigado a lembrar, não somos nós que pagamos, são eles.  […] É claro que se deve permitir que vocês (amish) aprisionem suas crianças em seu túnel do tempo seiscentista, senão perderíamos uma coisa irrecuperável: uma parte da maravilhosa diversidade da cultura humana. Uma pequena parte de mim consegue ver alguma coisa nisso. Mas a maior parte fica é com enjoo.

Tem como não achar isso certíssimo?

-  Ana

Desafio Literário 2013/ 2014 – Março

Um desafio mais fácil (esperamos), depois da dureza que foi o mês passado! :D

Janeiro Livros escritos por mulheres
Fevereiro Livros que nós temos preconceito master
Março Escritores brasileiros do século XX
Abril Futurismo
Maio Livros que lemos na adolescência
Junho Escritores alemães
Julho (Auto)Biografia
Agosto Viagem no tempo
Setembro Escritores portugueses
Outubro Máfia
Novembro Livros citados em filme
Dezembro Escritores franceses

Ana vai ler Tanto faz, de Reinaldo Moraes

Anna vai ler A mulher que escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar

John Gray – Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus

Ana,

eu sempre tive muito, muito preconceito com livro de autoajuda. E dentre os livros de autoajuda, aqueles que mais me dão horror são os sobre relacionamentos (Porque os homens preferem não sei quem, Casais inteligentes enriquecem juntos e coisas do gênero).

Homens são de Marte, mulheres são de Vênus não superou em nada a minha expectativa (ou falta de). O livro é chato, chato, chato. Profundamente chato. E se dá uma importância quase mágica. John Gray parece ser o Içami Tiba (outro que não me desce) dos relacionamentos, e logo no prólogo do livro ele tasca essa:

Literalmente milhares daqueles que freqüentaram meus seminários de final de semana viram seus relacionamentos se transformarem da noite para o dia.

O que esperar de alguém que escreveu um livro chamado Children Are from Heaven, né?

O autor parte do pressuposto que homens e mulheres são duas raças diferentes, que pensam de forma diferente, se comunicam de forma diferente e até sentem de forma distinta. O ponto “positivo” é que ele não faz juízo de valor nessas diferenças (nem superestimando um gênero ou subestimando o outro). Outro ponto não tão ruim é que ele considera que há homens que podem se identificar mais com o universo feminino (descrito pelo autor, claro) e mulheres que se sentirão mais à vontade nas descrições do universo (idem ibidem) masculino. O ponto óbvio gritante é que ele só considera relacionamentos cisgêneros como tal.

Ele ainda se arvora de conhecer tão bem as diferenças entre homens e mulheres que diz já ter ouvido de um e de outro coisas como “nossa, você me descreveu” (ele também deve acreditar em astrologia, imagino):

os homens geralmente dizem “Isso é exatamente como eu sou. Você andou me seguindo por aí? Eu não sinto mais como se alguma coisa estivesse errada comigo”. As mulheres geralmente dizem “Finalmente meu marido me ouve. Eu não tenho que brigar para ser compreendida. Quando você explica nossas diferenças meu marido entende. Obrigada!”

Encantador, hn?

No mais, são 300 e poucas páginas de uma canastrice horrorosa. “Mulheres são mais sensíveis”, “homens precisam de um tempo só pra eles”, “os homens não ouvem as mulheres”, “as mulheres querem mudar os homens” blá blá blá infinito. Eu tinha esquecido como é torturante ler um livro ruim.

– Anna

Paulo Coelho – O Alquimista

Anna,

Quando eu era adolescente, minha avó comprou alguns livros do Paulo Coelho, provavelmente através do saudoso Círculo do Livro. Lembro que comecei a ler “Às margens do rio Piedra eu sentei e chorei”, achei intragável e desisti. Peguei “Brida” e não passei da quinta página. Isso porque eu era uma adolescente que engolia livros – se tivesse de bobeira, até bula de remédio eu lia, avidamente. Então criei um enorme preconceito contra Paulo Coelho, e este foi o primeiro (e último) livro dele que li de cabo a rabo. Confesso que escolhi “O Alquimista” para o desafio de fevereiro porque era um dos menores!

Malala também me influenciou na escolha:

Someone gave me a copy of The Alchemist by Paulo Coelho, a fable about a shepherd boy who travels to the Pyramids in search of treasure when all the time it’s at home. I loved that book and read it over and over again. ‘When you want something all the universe conspires in helping you achieve it’, it says. I don’t think Paulo Coelho had come across the Taliban or our useless politicians.

Pensei em desistir já na segunda página. Isto é o autor falando (na introdução), antes de começar o livro propriamente dito:

Em 1981 conheci RAM e o meu Mestre, que iria conduzir-me de volta ao caminho que está traçado para mim. E enquanto ele me treinava em seus ensinamentos, voltei a estudar Alquimia por minha própria conta. Certa noite, enquanto conversávamos depois de uma exaustiva sessão de telepatia, perguntei porque a linguagem dos alquimistas era tão vaga e tão complicada.

- Existem três tipos de alquimistas – disse meu Mestre. – Aqueles que são vagos porque não sabem o que estão falando; aqueles que são vagos porque sabem o que estão falando, mas sabem também que a linguagem da Alquimia é uma linguagem dirigida ao coração, e não à razão.

- E qual o terceiro tipo? – perguntei.

-Aqueles que jamais ouviram falar em Alquimia, mas que conseguiram, através de suas vidas, descobrir a Pedra Filosofal.

Repito: isso é o autor falando DA VIDA REAL. Não uma história metafórica (que será o resto do livro). A perspectiva de perder algumas horas da minha vida lendo esta “obra” foi cruel.

O livro conta a história de um ex-seminarista em Andaluzia que decidiu virar pastor para ver o mundo. Em um sonho, ele aprende que deve ir até as pirâmides do Egito para encontrar um tesouro. Ele desiste da ideia, mas acaba encontrando o rei de Salém, que explica ao pastor que ele precisa continuar cumprindo sua Lenda Pessoal (aquilo que você sempre desejou fazer, mas ao longo da vida foi acreditando na ideia de que era impossível). E ele manda a citação clássica de Paulo Coelho:

“E quando você quer alguma coisa, todo o Universo conspira para que você realize seu desejo”.

Vendo pelo lado positivo, pelo menos Paulo Coelho não me fez ler o livro inteiro até chegar na citação clássica! (É, Sartre, estou olhando pra você). Mal eu sabia que ele iria repetir esta frase à exaustão.  O pastor vende suas ovelhas – ele acha imediatamente um comprador, porque o universo quer que você viva sua Lenda Pessoal, lembra? Ele vai pra África, é obviamente roubado, passa um ano trabalhando para uma loja de cristais, fazendo-a prosperar, e volta ao seu caminho até o Egito. Insira várias pseudofilosofias aqui. Antes de atravessar o deserto, conhece um inglês que está indo ao Egito em busca de um alquimista famoso.

“Tudo na vida são sinais – disse o Inglês, desta vez fechando a revista que estava lendo. O Universo é feito por uma língua que todo mundo entende, mas que já se esqueceu. Estou procurando esta Linguagem Universal, além de outras coisas […. ] “Pressentimentos”, como sua mãe costumava dizer. O rapaz começou a entender que os pressentimentos eram os rápidos mergulhos que a alma dava nesta corrente Universal de vida, onde a história de todos os homens está ligada entre si, e podemos saber tudo, porque tudo está escrito.

Quando eu (a duras penas) cheguei à metade do livro, achei que já estaria acostumada à breguice. GRANDE ERRO. O ex-pastor, quando tenta ajudar o Inglês a encontrar o Alquimista, pergunta a uma moça e….

“Então foi como se o tempo parasse, e a Alma do Mundo surgisse com toda a força diante do rapaz. […] Ali estava a pura linguagem do mundo, sem explicações, porque o Universo não precisava de explicações para continuar seu caminho no espaço sem fim. Tudo o que o rapaz entendia naquele momento era que estava diante da mulher de sua vida, e sem nenhuma necessidade de palavras, ela devia saber disto também [….] E o rapaz ficou por muito tempo sentado ao lado do poço, entendendo que algum dia o Levante havia deixado em seu rosto o perfume daquela mulher, e que já a amava antes mesmo de saber que ela existia, e que seu amor por ela faria com que encontrasse todos os tesouros do mundo”.

Quanta baranguice! Mas, hey! Não mude de canal! O rapaz encontra o Alquimista, se mete numa enrascada por ter “previsto” uma guerra e fica de mimimi porque não quer sair para ir até às pirâmides, deixando sua amada. Mas ele precisa viver sua Lenda Pessoal, então….

“Se o que você encontrou é feito de matéria pura, jamais apodrecerá. E você poderá voltar um dia. Se foi apenas um momento de luz, como a explosão de uma estrela, então não vai encontrar nada quando voltar. Mas terá visto uma explosão de luz. E só isto já valeu a pena”.

E, se você ainda não botou os bofes para fora:

“Ninguém consegue fugir do seu coração. Por isso é melhor escutar o que ele fala. Para que jamais venha um golpe que você não espera […] De noite, o rapaz dormiu tranquilo, e quando acordou, o seu coração começou a lhe contar as coisas da Alma do Mundo. Disse que todo homem feliz era um homem que trazia Deus dentro de si. E que a felicidade poderia ser encontrada num simples grão de areia do deserto, como o Alquimista havia falado. Porque um grão de areia é um momento da Criação, e o Universo demorou milhares de milhões de anos para criá-lo [….] O rapaz entendeu seu coração a partir daquele dia. Pediu que nunca mais o deixasse. Pediu que, quando estivesse longe de seus sonhos, o coração apertasse no peito e desse o sinal de alarme. O rapaz jurou que sempre que escutasse este sinal, também o seguiria.”

Para finalizar, Paulo Coelho faz a pior cópia da fábula da formiga e a neve que eu já tive o desprazer de ler. Chega a ser mais vergonhoso do que o resto. E a conclusão da ~saga~ é de matar. Vou contar porque não estou nem aí para espoilear, espero que você nem os nossos 1,3 leitores nunca cheguem perto desse livro. Após perder pela terceira vez seu dinheiro, o capitão da tropa que o espancou diz: sonhei que devia ir até os campos da Espanha (insira descrição da terra do pastor) e encontraria um tesouro. Mas não sou estúpido de cruzar um deserto só porque tive um sonho repetido. Aí o pastor volta para a Espanha, pega o tesouro, e volta de novo pra África atrás da mulher.

Não acredito que perdi meu tempo lendo esta porcaria. O preconceito não apenas foi justificado: ele foi reforçado pela leitura. O Alquimista foi facilmente um dos piores livros que já li na minha vida. Brega, repleto de filosofia barata, previsível…. e pensar que este é um autor cultuado por meio mundo. COMO?

- Ana